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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Coisas que me intrigam

 

 

 

 

 

A nova rota da TAP Lisboa-Marrakech veio muito provavelmente tornar este o destino mais longinquamente próximo da cidade de Lisboa.

 

 

Em pouco mais de uma hora aterramos num cenário biblíco pós-moderno. Uns quilómetros mais acima, em Fés, aterraríamos no próprio velho testamento e seríamos albaroados por burros nos becos da Medina. Mas em Marrakech, apesar de tudo, a coisa é um nadinha mais ocidental.

 

Nos últimos tempos, por ordem do rei, os mercadores passaram a estar proibidos de admoestar os turistas, de maneira que já não nos perseguem a correr pelas ruas da medina com tapetes ao ombro e já ninguém nos pede, em tom monocórdico e até à exaustão, nem stylos, nem caramels, nem T-shirts, ao virar de cada esquina.

 

 

 

Ora esta inovação deixa-nos desconcertados, mas rapidamente agradecemos ao rei o seu bom senso e avançamos com toda a tranquilidade pelas ruas do souk regateando q.b., entrando em antiquários onde floresce mobiliário das mil e uma noites e escolhendo uma ou outra peça que nos prolongue a sensação de termos andado por outro fuso geográfico.

 

Podemos, por isso, dedicar a pensamentos sociológicos todo o tempo que gastaríamos a enxotar guias e mercadores. Indagamos então: De que é que vive aquele gente, senhores???


Responder-me-ão: “do comércio, sua burra”

 

 

 

Pois, teoricamente devem viver do comércio, mas quem já andou por aquelas ruas sabe bem que a quantidade astronómica de stock que atulha e transborda pela porta fora de cada loja não deve ser coisa fácil de escoar.

Há tanto de tudo e tanto lugar para comprar a mesma coisa que sou capaz de apostar que há lojistas que passam um dia sem vender uma única babucha.

Sentada na esplanada de uma pequena praça, enquanto bebia um chá de menta com Monsieur Prieto, olhei para uma grande banca de barretes (assim parecidos com os madeirenses mas sem orelhas) e atrevi-me a verbalizar a minha inquietação relativamente à quantidade de dirhames que aquele pai de família poderia levar para casa no final de cada jorna.

 

Quantos turistas quererão desesperadamente um barrete de riscas com atilhos?

 

Para piorar a situação, a visão que se concentrava no ponto de fuga daquela banca, começou a abrir em sucessivos zoom outs, e apercebemo-nos de que havia mais uma banca de barretes mesmo ao lado, e mais outra, e mais outra, e mais outra. Toda a praça vendia barretes, meu Deus (ou deveria dizer, meu Alá?).

 

E pronto, foi um pulinho até cogitarmos sobre a probabilidade de um barrete mais discreto poder ficar esquecido durante dez anos numa banca sem ninguém dar por ele, se classificaríamos o artigo mais “tipo madeirense” ou mais “tipo Jamiroquai”, mas sobretudo, quantos barretes daqueles poderão, na melhor das hipóteses, ser vendidos por dia em cada banca?

 

 

Expliquem-me agora, se conseguirem: de que é que vivem os mercadores de barretes?

 

 

 

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