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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Sobre a necessidade de novos partidos

O meu amigo Duarte Calvão costuma levantar questões pertinentes. Não concordo com o ponto de partida deste texto, mas acho que a pergunta levantada é importante. Se estamos em crise, porque razão não surgem partidos novos?

O autor está a referir-se à área "não marxista" e, por isso, não menciona um fenómeno da política portuguesa, o Bloco de Esquerda, que há dez anos quase não existia e que, neste momento, podia perfeitamente estar a apoiar um governo do PS. Isso só não aconteceu por falta de sorte nas eleições de 2009, onde o BE perdeu para o CDS e PSD três ou quatro deputados por escassas centenas de votos em vários círculos em simultâneo. O BE estará na esfera do poder no futuro ciclo político, numa fase em que ganhe a esquerda, e a sua evolução pode muito bem imitar a dos verdes alemães.

 

Penso que se não há mais partidos à direita é porque o eleitorado não precisa deles. Em Espanha, existe um único grande partido nacional de direita (não conto com a CiU); em Portugal, há dois, mas sempre achei que o CDS é uma espécie de facção do PSD fora do PSD. A direita, de facto, não tem tradição de múltiplos partidos. Precisa de se renovar continuamente, como é normal, porque a sociedade muda, mas não existe a mentalidade de fracturas, embora não possam ser excluídas divisões por questões pessoais. Aliás, o PSD já teve várias fases, com dissidências. Os seus êxitos estão ligados aos momentos em que conseguiu apanhar os votos da direita, com a Aliança Democrática e, depois, com o cavaquismo, que quase acabou com o CDS.

"A sociedade portuguesa é melhor do que os políticos que a deveriam representar", escreve Duarte Calvão. O autor esquece porventura que os políticos não estão separados dessa sociedade, mas na realidade formam a sua imagem ao espelho. Os políticos franceses ou espanhóis não são melhores do que as respectivas sociedades; ou os americanos, ou os italianos. A frase, no fundo, parecendo certeira, não nos diz nada. A política é apenas uma das muitas actividades a que as pessoas se dedicam e a democracia partidária tem o pequeno defeito de promover dirigentes que sendo boas em táctica, nos tempos fáceis, se tornam péssimos em pensamento estratégico e em tempos de crise.

 

No final do texto, Duarte Calvão entra no tom tradicional dos intelectuais portugueses, a tese da "choldra", da geração fracassada, do povo sem valor. Um pouco disto vem da frustração da direita que ainda não digeriu, sobretudo ainda não compreendeu, as razões da sua derrota eleitoral de 2009. Ao apostar no tema da asfixia democrática, o PSD estava condenado à partida; a questão certa era a economia, mas na campanha a economia tornou-se uma batalha secundária; e mesmo aí, o eleitorado queria alternativas, saídas viáveis, mas só ouviu diagnósticos sombrios. O Duarte apenas repete uma tese que se lê em outros blogues, de que a culpa foi do eleitorado e que houve uma traição; os portugueses são estúpidos quando falham em compreender as suas elites, pensam estes autores, que confundem lealdade com fidelidade.

Reparem que o elitismo se estende à formação de partidos. As elites deviam formar um novo partido e, depois, o povo votaria nelas. O autor não fala de um movimento de protesto, tipo Tea Party (que em Portugal seria uma Maria da Fonte ou um buzinão) uma rebelião populista contra os políticos, criada a partir das bases e com forte dose ideológica ou apenas um tema obsessivo.

Mas não, a ideia é fazer o que já existe: os senhores doutores reúnem-se numa sala, juntam umas cabeças pensantes e avançam sem organização ou militantes, em torno de um programa com umas visões para o país. O povo servirá para a colagem dos cartazes.

 

A tese tem à partida um problema: a direita está em mudança, mas isso não é visto na sua realidade, pelo contrário, o PSD é descrito como estando "tomado por um aparelho que não vê um palmo adiante dos seus interesses pessoais". Estes dirigentes nunca foram testados, mas só pensam nos interesses pessoais, algo que os anteriores nunca fizeram, claro. E, no entanto, abrimos os jornais, e saltam como coelhos os exemplos do que custa ao país o bloco central, esta divisão do poder entre os dois grandes partidos, num confortável sistema em que a oposição tem uma quota nos "tachos", prateleiras douradas e lucrativos lugares do todo-poderoso e omnipresente Estado. Lugares de confiança ocupados, com imenso conforto e pouca chatice, por muita dessa gente de "altíssima qualidade" que, tendo passado pelos partidos, se converteu numa reserva civilizacional de dirigentes que "pensam bem" e "têm carreiras profissionais brilhantes", mas que hesitam em sujar as mãozinhas na luta pelo poder, misturados com essa gentalha que não vê um palmo adiante dos interesses pessoais.

 

O Duarte tem toda a razão ao querer uma ruptura, mas a meu ver está equivocado ao pensar que esta não pode ser executada pelos partidos existentes e pela geração que agora domina a nossa sociedade. A crise que vivemos não é uma condenação ao desaparecimento histórico. Portugal resiste bem a crises, é até um país muito criativo quando as atravessa. Ao longo da nossa História, vivemos problemas bem mais graves do que aqueles que hoje nos afligem. A III República é um êxito estrondoso: na qualidade de vida, na educação, na igualdade, na liberdade individual.

Mas porque a crise se tornou inegável, também precisamos de mudança e alguns dos protagonistas dessa mudança estão a aparecer: no PSD, mas também no PS, julgo que no BE. Infelizmente, as presidenciais não farão parte desse filme, pelo contrário, a avaliar pelo que dizem os candidatos, as próximas eleições não passam de um interlúdio de mais do mesmo.

 

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