Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Corrida de obstáculos

 

Os erros cometidos ao longo dos últimos anos têm hoje efeitos bem visíveis para todos. É certo que, quando eu e muitos outros colegas alertamos para as suas consequências, fomos olimpicamente ignorados pelos decisores públicos e por alguns dos nossos maiores empresários, então obcecados com a verdadeira “corrida ao ouro”, que era o acesso ao rateio das gigantescas rendas económicas proporcionadas pelas parcerias (quase) sem risco para o concessionário e financiadores no sector dos transportes. O último destes tesouros para os promotores privados à custa dos contribuintes actuais e futuros foi atribuído no dia exacto em que o dr. Passos Coelho se deslocou a São Bento para firmar o acordo que ficou para a posteridade conhecido como “PEC2”.

 

Agora resta a factura, bem cara por sinal. Na verdade, porque a estes erros se juntou uma política orçamental que pretendeu ser expansionista mas que, de facto, foi apenas descontrolada e perdulária, o seu efeito será claramente magnificado. Na verdade, para além da dívida gerada para satisfação de empreiteiros e financeiros de vistas curtas, o Estado aumentou a sua dívida directa (como a anterior, também esta será paga pelos esbulhados contribuintes, actuais e futuros) em 40 000 milhões de euros em apenas 3 anos (2009, 2010 e 2011).

 

Feitas as contas (e usando apenas documentos produzidos pelo governo), é fácil ver que nos próximos 3 anos, isto é, em 2011, 2012 e 2013, o Estado português terá de ser capaz de cativar investidores que tomem sucessivas emissões de dívida pública, que totalizarão mais de 60.000 milhões de euros.  O essencial deste esforço de colocação de dívida acontecerá no próximo ano (uma boa parte logo no primeiro semestre) no montante astronómico de 40.000 milhões de euros de dívida pública (entre renovações e novas emissões). Finalmente, e porque Portugal continuará a manter um muito significativo défice externo, estimo que o sistema financeiro terá de, cumulativamente, cativar o interesse de investidores internacionais para novos empréstimos entre 15 000 e 18 000 milhões de euros (se se assumir que não haverá novas PPP). Mesmo com o aumento da poupança nacional, a nossa dívida externa irá certamente aumentar em mais algumas dezenas de milhar de milhão de euros.

 

Como a capacidade de execução orçamental do governo é o que é, a probabilidade de não se conseguir realizar este programa de acréscimo de endividamento externo é elevadíssima. Um governo que em 4 meses deixou derrapar a despesa pública em quase 3 000 milhões de euros não só não é credível como, muito provavelmente, não é capaz de levar a bom termo a corrida de obstáculos em que entrou.

 

De facto, Portugal vai entrar nesta corrida, com o seu principal corredor, o governo, seriamente lesionado e já em verdadeiro desequilíbrio. A hipótese de não chegar ao fim, superando todos os obstáculos que atraiu por erro e incúria, é hoje dominante. Infelizmente para todos, o nosso pior pesadelo, a bancarrota Sócrates, só não acontecerá por milagre.

 

 

sexta-feira no SOL

2 comentários

Comentar post