Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

As novas vinhas da ira

Existe, como se sugere aqui, uma distinção injusta entre populismo de esquerda e de direita. Nos EUA, o Tea Party é descrito como um movimento populista, mas a mesma definição raramente surge no caso de Hugo Chávez e nunca no de Dilma Rousseff. Aí, já estamos perante idealismo.

 

Alguns observadores portugueses têm escrito que o populismo está em ascensão e dão o pior dos exemplos para afirmar a tese, a Europa. Nicolas Sarkozy ou Silvio Berlusconi são os suspeitos do costume, sobretudo quando tentam interpretar o desejo dos seus eleitorados em questões sensíveis como imigração ou multiculturalismo. Mas a comparação parece sempre forçada. Na Europa, é difícil encontrar populistas: eles estão em grupos minoritários e exteriores ao sistema, como partidos de extrema-direita e de extrema-esquerda, e contam-se pelos dedos os casos de formações do género que se aproximam da esfera do poder.

O populismo tem aspectos moralistas, mas sobretudo a ver com anti-elitismo e desconfiança em relação ao governo tradicional, aos políticos, às democracias parlamentares ou ao capitalismo. Nos anos 30, numa reacção alérgica à crise económica, houve um triunfo geral de teses populistas, associadas a duas ideologias sólidas da época, fascismo e comunismo. A retórica contra as elites quase levou estes regimes totalitários ao poder mundial, sustentou as piores catástrofes genocidas e tomou conta dos intelectuais. O inimigo era a própria cultura burguesa.

 

A crise de 2008 produziu um fenómeno semelhante, felizmente em escala inferior à dos anos 30. E onde estão os sinais deste populismo do século XXI? Não na Europa, mas no continente americano. A sul, surgem os populismos de esquerda, com Hugo Chávez, Dilma e Lula, os Kirchner ou ainda Evo Morales. Em numerosos comentários, estes são os bem intencionados e solidários. Mas o petismo, o chavismo ou o peronismo não se encontram entre os maiores adeptos da democracia parlamentar e são adversários do capitalismo liberal. A sua visão é de controlo cerrado do processo democrático, por exemplo através de sindicatos, e se necessário através de referendo. Eles querem o domínio dos meios de comunicação e tentam reduzir o debate, sufocando as oposições. Enfim: Argentina, Brasil e Venezuela podem ter sinais deste populismo de esquerda, mas não os terão na mesma quantidade. E as tendências não são inevitáveis (Dilma Rousseff acabará por ser uma excelente presidente ou será um desastre, mas foi a escolhida em eleições livres).

No debate nacional, a ascensão de populismos de direita, como o movimento Tea Party, merece interpretação muito menos benévola. Não é referida a natureza fragmentária deste movimento de revolta, onde há desde lunáticos a pessoas que perderam as suas casas, grupúsculos que dizem uma coisa e outros que dizem o seu contrário. Mas a franja lunática é sempre a mais referida, numa opção pelo folclore, em vez da substância.

 

Importa sublinhar que a indignação das pessoas é genuína; o sistema democrático não defendeu os eleitores e os partidos parecem incapazes de renovação. O escândalo das execuções hipotecárias, nos EUA, penalizou os pequenos e defendeu os grandes, embora fossem estes os verdadeiros culpados. É a mesma revolta dos anos 30, quando as poupanças de uma vida eram dissipadas em poucas semanas de inflação que ninguém compreendia.

A irritação dos eleitorados ainda não atingiu o patamar de As Vinhas da Ira, mas há semelhanças, porque estamos perante a mesma história: "eles" mentiram-nos, quando nos disseram que bastava ser um bom cidadão e cumprir as regras.

Julgo que a tendência do futuro conduz ao agravamento desta vingança dos eleitores, até porque os bancos foram salvos com o dinheiro do público e continuam a fazer os mesmos disparates que já levaram ao desastre de 2008.

Se a crise continua, quem é que as pessoas vão culpar? Os políticos que permitem a ganância e os bancos que a praticam. A democracia que salvou os capitalistas com o dinheiro dos eleitores, mas que não salvou os eleitores.

Em resumo, o mundo poderá radicalizar-se no sentido do protesto. Vivemos de certa maneira numa época de mudança, mas esta mudança imprevisível será provavelmente pouco virtuosa. 

  

2 comentários

  • Imagem de perfil

    Luís Naves 03.11.2010 13:21

    Excelente comentário
  • Comentar:

    Mais

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.