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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A estabilidade e a mudança

O decepcionante anúncio da candidatura de Cavaco Silva à presidência coloca algumas questões. Houve muita solenidade e pouco conteúdo.

Embora seja o único candidato da direita, o presidente é detestado pelo CDS e detesta a actual liderança do outro grande partido da direita, o PSD. Acho que veremos muito poucas bandeiras destes dois partidos nas acções de campanha.

Cavaco nunca foi bom orador, mas o discurso do presidente teve frases dignas de deixar qualquer observador perplexo.

"Em que situação se encontraria o País sem a acção intensa e ponderada, muitas vezes discreta, que desenvolvi ao longo do meu mandato? O que teria acontecido sem os alertas e apelos que lancei na devida altura?". Neste exemplo, Cavaco parece não se dar conta de que para a opinião pública os avisos do presidente (todos pouco claros) foram sobretudo ignorados pelos governos do PS. Existe a ideia generalizada de que José Sócrates nunca o ouviu. Não admira que a certo ponto Cavaco afirme que "a transparência tem sido uma das marcas do meu mandato", justificando depois com o facto dos seus discursos estarem disponíveis na internet.

 

Há outra frase reveladora: "Um presidente que faça uma leitura séria e responsável dos seus poderes deve empenhar-se na promoção da estabilidade e na afirmação de uma cultura de diálogo e de compromisso por parte das forças políticas e dos agentes económicos e sociais". Se a afirmação é para encher o discurso, até parece um lugar comum satisfatório. Agora, numa altura em que o país se aproxima de uma mudança de ciclo político, ela é no mínimo estranha. Diz no fundo que o presidente serve para impedir mudanças, para impor a estabilidade e o diálogo a todo o custo, para garantir que o sistema político fica cristalizado, imutável. A mudança equivale a uma crise política, que o PR deve evitar.

 

A recandidatura de Cavaco é de direita sem o ser. Este terço do eleitorado votará no presidente por inércia. Julgo que o discurso se dirigiu sobretudo ao milhão e meio de eleitores centristas, o chamado bloco central que tem dominado a democracia portuguesa e onde se decidem tradicionalmente as eleições. Estes eleitores nem querem ouvir falar em instabilidade, detestam que alguém abane o barco e têm horror a aventuras. Se garantir uma fatia substancial destes votos, a reeleição de Cavaco estará garantida, desde que a descolagem à direita não seja demasiado brutal, pois existe apesar de tudo o risco de muitos eleitores do CDS e do PSD ficarem em casa. Manuel Alegre conquistará facilmente o terço à esquerda, pelo que a luta essencial se joga em torno do eleitorado centrista.

 

Para alguns comentadores, Cavaco Silva é o candidato que não nos vende ilusões, mas julgo que existe pelo menos uma ilusão nesta campanha: o cavaquismo já acabou e não deve tentar regressar.

Uso a expressão "cavaquismo" no sentido de um ciclo político que foi muito útil ao país. Este ciclo começou com Sá Carneiro, que tentou juntar a direita numa formação que iria dominar a política portuguesa. Mas Sá Carneiro morreu, depois houve um impasse, até Cavaco Silva conquistar o poder, abrindo caminho à geração de políticos que se afirmou nos anos 80; fora da carroça, o CDS nunca se conformou e as guerras da direita deram origem a feridas que ainda hoje não estão cicatrizadas.

Afastada do poder em meados da década de 90, esta geração foi totalmente ineficaz no ciclo político seguinte, dominado pelo PS. Houve uma tentativa de renovação do PSD, uma fase de poder, mas tudo falhou, facilitando uma invulgar maioria absoluta do PS, agora em rápido declínio. Cavaco, entretanto na presidência, perdera grande parte da sua influência nos assuntos da direita parlamentar.

 

A única candidatura de direita ignora a direita tal como ela existe hoje. Mas pior será se ceder à tentação de a tentar alterar, pois isso impedirá a verdadeira mudança. O país que sai desta década de crise não é igual ao de 95. Portugal é hoje um país cansado e descrente, que começa a duvidar dos seus políticos.

Ninguém pode honestamente dizer que o próximo ciclo vai ser melhor do que o anterior, mas é um erro tentar impedir que faça o seu caminho. Este ciclo será provavelmente dominado pelos partidos da direita, envolvendo ao mesmo tempo um declínio do PS e uma possível evolução do Bloco de Esquerda para possível parceiro de coligações. A democracia portuguesa precisa de estabilidade, sem dúvida, mas primeiro terá de mudar.