Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Crónicas do Demo VI:

 

A Velha Senhora dos Prazeres

 

Dei por mim espantado perante aquele súbito quadro pitoresco saído de um qualquer filme italiano: “Prazeres” escrito na testa do eléctrico enquanto um jovem casal trocava um beijo apaixonado e meia dúzia de outros se divertiam a publicitar uma conhecida marca de gelados internacional.

 

Não fora o cansaço e porventura acharia a coisa um pouco pirosa ou, mais certo, nem me teria apercebido. Era o final de tarde de um dia cheio: Expo, Alcântara, Lapa, Santos e por fim Chiado. Sempre a correr depois de 300 quilómetros percorridos num abrir e fechar de olhos. Uma reunião aqui, outra acolá e uma estafa daquelas.

 

Naquele momento estava ali, em pleno Chiado, sozinho enquanto o companheiro de viagem se ausentara para mais uma “sessão de trabalhos” e eu esperava pela nossa última reunião do dia. Um pouco antes levara-o a pecar na nova Santini onde me perdi por três belas razões: Melão, Nata, Meloa. O Olimpo.

 

A esplanada da Brasileira parecia saber como estava estafado e a precisar de uma pausa na companhia de um Cimbalino – este meu vício de pedir cimbalino só para baralhar…

Olho em volta e dou de caras com aquele momento cinematográfico enquanto ao meu redor sinto o pulsar desta cidade, desta velha senhora com quem ando a fazer as pazes. Não sei se foi culpa daquele livro ou se mero acaso da vida mas aos poucos vamos conversando cada vez mais.

 

O meu velho burgo espera-me, ele que agora renasceu com as noites a transformarem-se em dias e a obrigar as suas filhas e filhos vizinhos a ganharem juizinho e perceberem quem é o Patriarca. O sempre meu. Nem mesmo, caro João, aquele arroz de entremeada com feijoca em Alcântara com o qual continuo a suspirar um “repeat” me fará afastar deste velho e invicto burgo. Mas na verdade, lentamente, vou-me conciliando com a velha senhora fruto dos prazeres com que me presenteia sempre que a visito. A matrona sabe-a toda. Só lhe falta a bruma que me recebe na madrugada do regresso.

 

No fundo, no fundo, são os prazeres que levamos desta vida.

 

 

a 144 quilómetros de Vale de Penela, Outubro 2010