Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

...

No tempo dos meus avós (não assim há tanto, já que ainda tenho uma avó) os pais mal se aproximavam dos filhos e os filhos mal conheciam os pais. Maridos saíam de casa de manhã e voltavam quando calhava sem que nesse espaço de tempo sequer dissessem água-vai. Filhos, genros, maridos iam para a guerra e escreviam (quando escreviam) uma cartinha a cada par de meses. Pais de família mantinham ao longo da vida a dicotomia “esposa” / “mulher” sem que alguém sonhasse. Mães eternizavam segredos de família. Irmãos passavam vidas inteiras a viver em países diferentes sem trocarem mais que meros postais. Filhos passavam meses de férias encafuados em quintas nortenhas ou sulistas ou beirãs, sem que lhes fosse possível trocar uma confidência com um amigo. Namorados escondiam-se durante anos. Maridos mantinham senhoras, senhoras mantinham amantes, amantes tinham filhos. Sem ninguém saber.

Os automóveis eram raros, os aviões só para a guerra e as viagens significavam meses em comboios ou navios. As notícias atrasavam-se semanas, um telefonema era um acontecimento, a identidade era uma questão de opinião, famílias passavam vidas inteiras sem se conhecerem apenas por não viverem na mesma cidade.

Morria-se de tudo e de nada, mentia-se a torto e a direito, calava-se até o detalhe menos relevante.

 

Hoje, e não passou tanto tempo assim, sabemos tudo a toda a hora. Há mais automóveis que bicicletas e mais telemóveis que automóveis. Falamos quando queremos com a prima que está no Butão, com a amiga da Nova Zelândia ou com a tia que mora na porta ao lado. Temos Skype, Messenger, e-mail, Facebook, Twitter, telemóveis e toda a sorte de gadgets que nos garantem o contacto permanente com o mundo. Video gravamos, fotografamos, enviamos e recebemos milhões de informações todos os dias a todas as horas. Basta querermos e, com cinco minutos de pesquisa, encontramos alguém que não vemos há vinte anos, descobrimos uma mentira, uma morada, uma namorada.

Os filhos falam com os pais, enviam sms aos pais, são amigos dos pais, estão contactáveis pelos pais. Os pais falam entre si sobre os filhos, são amigos dos filhos, procuram os filhos, perguntam aos filhos, espiam os filhos.

Hoje, um segredo é um bem raro, precioso e muito difícil de guardar, tal como a privacidade. Toda a gente conhece toda a gente, toda a gente fala com toda a gente, toda a gente vai a todo o lado, toda a gente vê tudo, sabe tudo, ouve tudo, diz tudo.

 

É por isso que não compreendo por que razão se fala tanto sobre os efeitos perniciosos da falta de comunicação para a sociedade. Qual falta de comunicação, gente? Comunicar, no latim da sua origem, significa qualquer coisa como "desenvolver actividades em conjunto". Hoje, nós não nos limitamos a "desenvolver actividades em conjunto", nós "vivemos em conjunto", "pensamos em conjunto", "respiramos em conjunto". Hoje comunica-se, mas é demais. De maneira diferente, é certo, mas demais.

Perniciosa para a sociedade é a falta de paz e sossego.

Essa é que é essa!

9 comentários

Comentar post