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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A caminho da República (20)

 

5 (30 de Setembro de 1910)

Segundo dia de greve dos corticeiros e tanoeiros. O DN descreve pormenorizadamente as assembleias de trabalhadores e as negociações com o governo de Teixeira de Sousa, que não podia resolver o assunto por estar em gestão, como hoje se diz, e o parlamento recém-eleito ainda não ter reunido.

O conflito girava em torno da questão da exportação de cortiça, que tirava trabalho a operários da indústria de transformação. Os trabalhadores exigiam a suspensão imediata de exportações de cortiça e o governo tentava ganhar tempo.

No Barreiro houve motins, que entretanto tinham acalmado. As reclamações operárias não seriam atendidas pelo Governo, o qual não queria proibir a exportação para Espanha de 500 mil arrobas de cortiça que estavam na estação de Santa Apolónia. O governo justificava a sua oposição pelo facto de isso poder provocar “um conflito internacional”.

A reportagem do DN conta pormenorizadamente o que sucedeu nas assembleias de operários. Numa delas, foi dada a palavra a uma mulher, a operária corticeira Maria Augusta, o que julgo seria um caso raro num evento destes. Maria Augusta foi muito aplaudida e pediu às “suas companheiras” para acompanharem sempre os operários. “O senhor presidente do conselho [Teixeira de Sousa] que fez tantas leis poderia também fazer um decreto proibindo a exportação da cortiça em bruto”, disse esta mulher, que prometeu acompanhar o marido “nas lutas contra o seu mal estar”.

 

4 (1 de Outubro de 1910)

O presidente eleito da República do Brasil, marechal Hermes da Fonseca, chegou a Lisboa a bordo do couraçado da marinha S. Paulo. Foi uma ocasião histórica, que o DN celebrou com fotografias e abundante reportagem. O marechal “teve a recepção entusiástica que era prevista”, escrevia este jornal, antes de se lançar num elaborado elogio e lembrar “as duas mil léguas de água que nos separam da sua pátria (…) para num amplexo fraterno estreitarmos o Brasil, esse já glorioso país que o velho Portugal alentou, esse povo que é sangue do nosso sangue”.

O marechal Hermes da Fonseca era “cabo de guerra muito ilustrado” e o DN parece rivalizar com a imprensa estrangeira a gabar os seus feitos. Na passagem do presidente eleito por França, Le Matin comparou-o com Napoleão. E os jornais alemães “fizeram-lhe as mais agradáveis referências, pondo em relevo as suas qualidades de militar”.

O rei D. Manuel saberia da revolta do 5 de Outubro durante o banquete oferecido ao presidente brasileiro. E o marechal ficou a bordo do S. Paulo durante a revolução em Lisboa, assistindo a toda a agitação.

Hermes da Fonseca tomou posse como presidente brasileiiro a 15 de Novembro e uma semana depois enfrentou uma perigosa revolta de marinheiros. Esse protesto chama-se Revolta da Chibata e teve feroz repressão. Aderiram três navios da marinha brasileira, entre eles o couraçado S. Paulo.

 

3 (2 de Outubro de 1910)

A primeira página do DN mostra uma fotografia da sala onde decorrera um sumptuoso banquete em honra do marechal Hermes da Fonseca, presidente eleito do Brasil, de visita a Portugal. Outro banquete, duas noites depois, também para Hermes da Fonseca, ficaria na História de Portugal como o momento em que os dirigentes do regime monárquico se aperceberam da agitação revolucionária em Lisboa, abandonando a cerimónia e deixando a refeição a meio.

Mas a notícia mais interessante do dia cita o jornal inglês The Daily Chronicle, que num artigo sobre Portugal mencionava uma questão muito importante para os monárquicos e que, a partir de 5 de Outubro, perderia qualquer relevância: o casamento do rei D. Manuel.

Dizia o Daily Chronicle, cujo enviado especial falara com o ministro dos Negócios Estrangeiros, que o governo desejava um casamento de D. Manuel com uma princesa inglesa, para consolidar a ligação anglo-britânica. Entre as duas casas reais estariam a decorrer negociações para o projectado casamento, “cuja aliança tinha esperanças de ver dentro em breve realizada”.

Não houve tempo. D. Manuel era anglófilo, mas casou em 1913 com uma princesa alemã. O último rei português morreu em 1932, pouco antes de fazer 43 anos. Não teve filhos.

 

2 (3 de Outubro de 1910)

A edição do Diário de Notícias que narra os acontecimentos de dia 3 é dominada pela informação que agitou a cidade de Lisboa naquele dia, de que o dr. Miguel Bombarda tinha sido assassinado por um seu antigo doente.

Miguel Bombarda era o líder civil da revolução que se tinha marcado para a madrugada de dia 4. O dirigente republicano e médico psiquiatra estava no hospital de Rilhafoles, a dar consultas, quando chegou uma carruagem com um indivíduo bem vestido, que se apresentou ao porteiro, dizendo que desejava falar com o director. Era o tenente de infantaria, com o curso de Estado-maior, Aparício Rebelo dos Santos, que ali se tratara em 1909. Bombarda considerara este doente incurável e a família enviou Aparício dos Santos para Paris. O tratamento ali também fora inútil.

O tenente esperou por Miguel Bombarda no gabinete deste e o médico, mal entrou, foi imediatamente atingido com três tiros de pistola automática, disparados à queima-roupa.

A morte de Bombarda provocou grande emoção entre os republicanos. Nessa madrugada, de 4 para 5, após algumas hesitações, começou o golpe que iria derrubar a monarquia. Este jornal ía para a máquina muito tarde, por isso a edição de dia 4 já tem informação, ainda muito confusa, sobre o movimento militar. Faltavam dois dias para a República, mas já tinha começado o momento histórico.

 

1 (4 de Outubro de 1910)

A primeira notícia sobre a revolução de 5 de Outubro começa da seguinte forma: “À 1 da manhã, constando-se ter havido tiros nas proximidades de Campolide tomámos imediatamente um automóvel e para ali nos dirigimos no intuito de informarmos os nossos leitores do que se passava. Circulavam os eléctricos e seguindo-lhes a linha naquela direcção, subimos até ali”.

O repórter do DN percebe que há várias unidades militares sublevadas e são reportadas fuzilarias a diversas horas. À 1 e 20 de dia 4, por exemplo. E às 2 da manhã, quando os navios da armada, no Tejo, disparam salvas. Explicação: tratava-se de tiros de chamamento dos oficiais que estavam em terra.

Este texto não identifica a natureza dos distúrbios e limita-se a enunciar, de forma muito factual, as horas e os locais onde houve os primeiros incidentes.

Às 3 e 35: “Insubordinou-se a guarnição do cruzador S. Rafael, partindo do arsenal uma força com instruções para o submeter, não podendo, porém, atracar o navio. O regimento de infantaria 2 dirige-se para o Rossio”.

Às 4 e 30, a última notícia ainda recolhida nessa madrugada e incluída na edição do DN de dia 4, sob o título “Os Acontecimentos desta madrugada, movimento militar”:

“O governo esteve reunido em conselho até alta madrugada, mas não conseguimos obter qualquer informação sobre as suas deliberações. O regimento de cavalaria 4 veio de Belém em direcção a Lisboa, retrocedendo pouco depois”.

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos dias indicados.

 

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