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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A caminho da República (17)

20 (15 de Setembro de 1910)
O país sempre foi algo sonolento, mas na colónia de São Tomé e Príncipe, o sono (que neste jornal se escrevia "somno”) era um terrível perigo de saúde pública e que atingia os negros que tinham sido trazidos de Angola para abastecer as roças de mão-de-obra. Pelo “último paquete” chegara a Lisboa a preocupante notícia de uma epidemia de doença do sono que “fazia devastações pavorosas na população nativa da ilha do Príncipe, morrendo por mês em média de cerca de 50 pretos”.
Na altura, por qualquer razão não explicada, eram “raríssimos os nascimentos” e a população não excedia os 48 mil habitantes, pelo que os números da doença se tornavam preocupantes. A notícia citava uma estatística segunda a qual nos primeiros oito meses do ano anterior (1909) tinham sido “enterrados no cemitério da cidade nada menos de 457 nativos , quase todos os contratados em Angola”. Depois, a informação de que “em 1905 morreram ao todo na ilha 1310 pretos”, presume-se que vitimados pela doença do sono. Este era um eco dos perigos da vida colonial, da lentidão das comunicações e do atraso sanitário.

 

19 (16 de Setembro de 1910)
A acção policial contra quatro casinos clandestinos provocou cenas de pandemónio em vários locais de Lisboa. As rusgas foram simultâneas e causaram grandes ajuntamentos de população em frente aos edifícios onde a polícia desmantelava a operação ilegal. Os casinos funcionavam no “antigo palácio do sr. Marquez da Foz”, na rua de S. Nicolau, à esquina da rua do Ouro, no Jardim do Regedor e na Rua dos Correeiros. Houve “numerosas prisões e peripécias”, conta este jornal.
As cenas “picarescas” deram-se devido ao pânico da clientela destes estabelecimentos, pois “num primeiro momento, o de terror, muitas pessoas perderam completamente a cabeça”.
“Um indivíduo, querendo fugir pela janela, caiu desastradamente na rua, depois de ter torcido o pé e escangalhado um candeeiro de suspensão que existe ali à porta de uma tabacaria”. Na rua do Ouro, num episódio de que o repórter apenas ouviu falar, dois indivíduos ficaram  muito maltratados depois de saltarem para o saguão. A polícia apreendeu as cartas, as roletas, o dinheiro e levou os jogadores. “O número de presos eleva-se a 196”, noticiava o DN.

 

18 (17 de Setembro de 1910)
O Rei D. Manuel II presidira ao conselho de Estado (o verbo está correcto e é usado pelo DN) onde foi decidido aprovar uma amnistia a todos os crimes de abuso de liberdade de Imprensa, assunto que tinha envenenado o clima político da época e que só agora era resolvido. “É concedida amnistia geral e completa a todos os crimes de abuso de liberdade de Imprensa cometidos até à presente data”. Os processos a decorrer ficavam sem efeito. A questão tinha merecido duros ataques ao regime, mas a medida era tímida e surgia demasiado tarde.
A ajuda veio também demasiado tarde para um casal de mendigos envolvidos numa tragédia cruel, na Amadora, “a 18 quilómetros de Lisboa”. O DN usa o título sensacionalista de “O assassino maneta”. Manuel Pires perdera o braço num acidente de trabalho e tornara-se mendigo e alcoólico. Certa noite, procedeu ao “bárbaro espancamento” da sua companheira, Judith de Mello Ortiz, de 27 anos, natural de Cuba (presumo que de Cuba, Alentejo), que acabou por falecer no hospital de São José.
O crime ocorrera num sítio chamado Venda Nova, onde existia uma locanda (taberna) pertencente a uma tal Hipólita Maria. O casal de mendigos vivia mesmo ao lado desta conhecida tasca, na mais completa miséria.

 

17 (18 de Setembro de 1910)
Foi uma noite de domingo animada na zona de Chelas, com uma cena de pancadaria entre dois grupos, na qual entraram alguns populares que se divertiam no baile da União Chelense. Motivo da comoção? Uma mulher, cujo nome não chegamos a saber, mas que o DN descreve como “uma certa rapariga do sítio, que goza o privilégio de atrair os corações fracos”.  E, mais à frente, acrescenta-se que a “esbelta rapariga, ao que nos disseram reside em Chelas”.
Tudo começa quando um carpinteiro de nome Adriano é rejeitado pela jovem beldade de Chelas. Um outro rapaz da zona, Manuel Tendeiro, fez o seu “pé de alferes”, tentando a sorte, mas atraindo também o ciúme do carpinteiro.
Os dois encontravam-se por vezes e seguiam-se provocações às quais se juntavam outros jovens trabalhadores. Até que rebentou o conflito. A notícia surge na edição de segunda-feira e não se percebe bem quando ocorreu a rixa. Juntando uma ou outra referência, torna-se perceptível que a violência começou na madrugada de sábado para domingo, 18 de Setembro. Os dois rivais encontraram-se e “estabeleceram um diálogo mais ou menos irritante”. De súbito, os dois grupos envolvem-se numa desordem indescritível, “brilhando em certas mãos lâminas de afiadas navalhas”.
A polícia chega demasiado tarde, quando o conflito já havia terminado e os populares tinham recolhido “a penates”. Das noites de Chelas ficou esta história e um ferido, Joaquim Teixeira, morador no beco das Taipas, e que levou com um formão de um tal Nepumoceno, nenhum deles minimamente relacionado com as “diabruras de cupido”.

 

16 (19 de Setembro de 1910)
O juiz de instrução criminal Almeida Azevedo conduzia uma investigação sensível sobre a apreensão de 171 bombas numa quarto andar da rua dos Correeiros, na Baixa de Lisboa. O caso levara à prisão “o conhecido libertário João Borges”, que fabricara os engenhos no seu quarto. Foram detidas outras pessoas, entretanto libertadas, incluindo a amante de Borges, uma tal Marina, além de alguns habitantes da mesma casa, que alegaram conhecer o anarquista “por ele habitar naquele quarto”, mas que não o tinham visto fabricar as bombas.
Os engenhos explosivos eram tubos de cobre grosso, com 15 centímetros e tampos de metal fundido.Seriam cheios com dinamite e explodiam por percussão. Idênticos, adianta o DN, aos fabricados por um tal Brito Bettencourt, que perdera uma mão quando uma das suas bombas explodira. Borges deveria ter cúmplices, especulava este jornal, pois dificilmente teria fabricado sozinho uma tal quantidade de bombas.
Num plano mais político, a edição do DN incluía um curioso artigo com uma crítica ao sistema eleitoral. Dava-se o exemplo de Lisboa, onde a lista republicana vencera em dois círculos, devido à dispersão dos votos monárquicos. O autor do texto defendia um método proporcional na contagem dos votos. Cada deputado republicano fora eleito com pouco mais de 10 mil votos; os do governo tinham 7 mil e os da oposição (bloco) 5 mil. Somadas as listas dos dois círculos (com 5 deputados cada, que os eleitores iam repetindo), dava 103 mil, 74 mil e 38 mil votos, respectivamente. No sistema eleitoral tinham sido eleitos 10 republicanos e 4 governamentais. Se fosse aplicado o sistema proporcional defendido pelo autor, teriam sido eleitos apenas 7 republicanos, 5 governamentais e 2 de oposição monárquica. A vitória republicana em Lisboa teria sido um empate.

 

Estas crónicas são baseadas na leitura das edições do Diário de Notícias dos dias indicados

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