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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A caminho da República (15)

30 (5 de Setembro de 1910)
Um curioso (e raro) editorial sobre temas internacionais. O autor do texto não assinado fala do “perigo amarelo” e das ambições do império japonês. Em 1910, na Ásia, emergia uma nova potência regional, que graças à derrota da Rússia obtinha agora o controlo da Coreia. Para o DN era “um acontecimento de alta gravidade” e a anexação fizera-se “insensivelmente”, como se fosse a coisa mais comezinha do mundo”. Escrevia ainda o autor: “o império japonês acaba portanto de adquirir, por assim dizer de graça, uma propriedade colossal. Segue-se um raciocínio bastante pró-britânico em que o articulista se questiona sobre a aparente distracção de Londres, que era o principal aliado do Japão. Aliás, o autor deste editorial “Assumptos do Dia” não consegue perceber que o crescimento do Japão na Ásia era uma estratégia que visava limitar a Alemanha nesta região. O texto cita um provérbio português, “honra e proveito não cabem num saco”, para concluir que “honra e proveito têm cabido à farta no saco japonês”. Segue-se a ideia de que as ambições japonesas eram regionais e que o “perigo amarelo” não teria de se verificar nos assuntos europeus e americanos. Em resumo, “as nações europeias estão por conseguinte ameaçadas de perder, mais hoje mais amanhã, as suas colónias orientais”.

 

29 (6 de Setembro de 1910)
Uma pequenina notícia na primeira página do DN dava conta da partida do cônsul de Portugal em Demerara, que partira para tomar posse do seu cargo. Nome desse cônsul: Aristides de Sousa Mendes. O novo cônsul português em Demerara tinha na altura 25 anos e viria a distinguir-se 30 anos mais tarde. Embora discreto funcionário (a sua carreira começava mal, com um lugar que devia ser dos piores da diplomacia nacional, na então Guiana Inglesa), Aristides de Sousa Mendes foi um dos portugueses do século. Em 1940, então cônsul em Bordéus, desobedeceu ao seu governo e passou vistos a 30 mil refugiados, incluindo 10 mil judeus, a quem sem dúvida salvou a vida. É o único português considerado “Justo entre as Nações”.
Embora conste da primeira página, a notícia é minúscula e relata apenas que o cônsul partiu a bordo do paquete Aragunya. Por estes dias, o noticiário era deste género, com pequenas notícias sem relevância ou casos de sociedade, como o “burburinho” no rossio, devido a um acidente com um eléctrico, ou a agressão grave de um empregado do comércio, que vingara a honra da sua irmã ferindo o “sedutor”. Na Turquia, dois “globe trotters” portugueses em excursão de aventuras, tinham morrido afogados quando se banhavam num rio. Havia dúvidas sobre a identidade, mas já nesta época o turismo era perigoso.

 

28 (7 de Setembro de 1910)
No início de Setembro, quando já faltava menos de um mês para a revolução, era difícil encontrar uma notícia de política nas páginas do DN. A situação parecia ser tranquila. O rei partira para as Caldas da Rainha, para assistir às provas finais do concurso hípico. E fora ao Cacém apanhar o comboio. Nas Caldas, a recepção foi entusiástica, com muito povo a assistir.
Cacém onde um repórter do DN passou nesse dia em busca de informações sobre o “grande crime” no lugar de Francos, freguesia de Rio de Mouro, zona pitoresca “onde se desfruta um panorama encantador”.
A história é contada pela sogra do infeliz assassinado, um trabalhador rural que surge apenas com o apelido, Santos (certamente, erro do enviado esquecer-se do nome). Em resumo, um “maltez”, Joaquim Dias da Silva, o Quinquilheiro, surgiu na terra e namoriscou uma rapariga local, Júlia da Conceição. A narradora usa o termo “lançou pó d'alferes” para designar o feitiço em que a sua filha tombara. Não é claro até que ponto a mãe forçou a filha a casar com Santos, mas é nítido que não gostava do maltez. Santos e Júlia casaram e o homem tinha de se deslocar para fora e sempre que o fazia, entrava-lhe pela casa o quinquilheiro. A parte espantosa é que o casamento durou um mês e que os dois amantes terão combinado matar o Santos. O crime foi consumado uma noite, mas existe no relato a ideia de que Júlia tentou ajudar o desgraçado do marido atingido com uma facada. Júlia era “magra, tez trigueira, parecendo mulata. Muito risonha ao ser fotografada”, embora nas páginas do DN apareça com ar melancólico. “Isto é para eu ficar ainda mais bonita”, terá dito ao repórter.

 

27 (8 de Setembro de 1910)
Os leitores do DN já tinham encontrado, um mês antes, reportagens sobre o “homem-macaco”, um desgraçado de nome Albano de Jesus, que enlouquecera em Angola e que por lá ficara, após uma tentativa de o trazer para Lisboa. Na quinta-feira, 8 de Setembro, Albano de Jesus fez “tropelias” no Rossio, para susto de muitos e gáudio de outros transeuntes. O homem-macaco jantara sossegado e foi assistir a um music-hall quando, sem razão aparente teve um ataque. A palavra não é usada na notícia, mas parece ser um simples ataque de pânico, que os populares não conseguiram controlar. A cena funciona em bola de neve: Albano de Jesus salta para a rua e quase é atropelado por um eléctrico. Fica ligeiramente ferido e arrastam-no para uma farmácia. Ele fugiu e os risos devem ser de tal ordem que tudo acaba com o pobre homem-macaco, enfurecido como um animal, cercado por tropas de infantaria. O pobre louco é salvo pelo seu primo, o guarda 1151, que o acalma, pedindo às pessoas que dispersem, para não o assustar.
Na mesma página, outra história de doenças mentais: um homem a rondar 30 anos foi encontrado junto à linha de comboio de Cascais, perto da estação de Alcântara, muito ferido na cabeça. Sem documentos, não tinha qualquer memória de quem era. Talvez tivesse caído do comboio, ninguém sabia. Levado para S. José, não se esperava que se salvasse. Uma pessoa perdida na História, sem nome, nem nada.

 

26 (9 de Setembro de 1910)
Na sexta-feira, 9 de Setembro, foi divulgada a lista dos deputados eleitos. As eleições tinham sido no dia 28 Agosto e a campanha fora feroz (dizem os historiadores), embora isso não transpareça nas páginas do DN. Na realidade, os dois partidos parecem ter-se estilhaçado em facções que correram para dois blocos: os governamentais (mais liberais, que queriam reformas) e o bloco da oposição (mais conservador e nacionalista). Os do governo, leais sobretudo ao presidente do conselho Teixeira de Sousa, elegeram 89 deputados. Venceram em Bragança, Coimbra, Braga, Guarda, Santarém, Évora, Faro; mas perderam para a coligação de oposição no Porto, Aveiro e Viseu. Em Lisboa, os republicanos elegeram 10 deputados, entre os quais Miguel Bombarda e Carlos Cândido dos Reis, (o almirante Reis), dois dos principais conspiradores do 5 de Outubro e que perderiam a vida antes de 5 de Outubro. Bombarda era psiquiatra e foi assassinado por um doente mental, crime que serviu de rastilho para a revolta; Cândido dos Reis suicidou-se a horas do triunfo.
Ao todo, a coligação elegeu 50 deputados e os republicanos 14, com vitória em Lisboa, o que os deixou em euforia.
O apuramento dos votos tinha corrido francamente mal e esta assembleia não chegaria a tomar posse. O DN escrevia: “como é sabido, a coligação contesta os resultados eleitorais apurados para o governo nos círculos de Faro, Guarda e Braga e sustenta que lhe cabe a maioria também em Castelo Branco".

 

Crónicas baseadas nas edições do Diário de Notícias dos respectivos dias.

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