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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A Hora da Verdade

Olho para o anúncio do governo e fico em silêncio. Penso nas voltas que a vida dá. O ainda Primeiro-ministro de Portugal teve tudo para ficar na história e teve-o em dois momentos diferentes.

 

O primeiro foi quando chegou ao governo. Uma maioria absoluta que lhe permitia desempenhar as funções aplicando o seu programa de forma tranquila. A primeira maioria absoluta do Partido Socialista. O céu era o limite. Para tornar o cenário ainda mais idílico tinha um Presidente da República em permanente “cooperação estratégica”, belas palavras que podiam ser substituídas por uma só: paz. Na paz com os anjos. Na Educação, bem ou mal, ensaiou uma reforma. Na Saúde prometeu realizar outra. Na Segurança Social um Ministro e uma equipa a desempenhar um bom trabalho. Porém, a primazia dada à comunicação em detrimento do trabalho começava a dar os primeiros passos. O caso Universidade Independente e o folhetim Freeport somados a umas casitas mal-amanhadas e pior desenhadas concentravam a sua atenção em detrimento da governação propriamente dita. O povo retirou-lhe a maioria. Perdeu-se a primeira oportunidade.

 

Quando a crise internacional eclodiu fui levado a pensar: é agora. Uma oportunidade de ouro e uma desculpa fantástica para avançar rumo a verdadeiras reformas e a uma mudança fundamental para o país. Para espanto de muitos, nos quais me incluo, o Primeiro-ministro preferiu assobiar para o lado. O primado da comunicação em vez do enfrentar da realidade; a fuga para a frente em vez da pega de caras. A mentira em vez da verdade. O virtual em vez do real. Perante o precipício preferiu dar um passo em frente.

 

Não é fácil compreender. Ao contrário de alguns que hoje se apressaram a abrir umas garrafitas de espumante mais preocupados com o seu umbigo e igualmente distantes da realidade, eu olho em volta e fico em silêncio. Um silêncio facilmente explicável.

 

As medidas agora apresentadas são duras e profundamente injustas para a classe média portuguesa. Desde 2000, mais coisa menos coisa, a classe média anda a pagar os erros da governação, seja esta por acção, omissão e sobretudo conluio. Por acção dos sucessivos governos que preferiram governar para as sondagens. Por omissão da classe política que preferiu adiar as soluções e empurrar com a barriga para a frente os problemas (antecipações de receitas e factoring e leaseback, venda ao desbarato de participações, endividamento galopante, em suma, viver acima das possibilidades). Por conluio em parcerias público-privadas duvidosas e sobretudo ruinosas para as finanças públicas e bastante proveitosas para antigos ministros ou deputados.

 

Quando vi um Primeiro-ministro derrotado a comunicar ao país que deu o passo em frente quando chegou ao precipício e agora precisa de um pára-quedas – ou nas palavras acertadas de Nogueira Leite, a apresentar a factura da incompetência do governo – fiquei em silêncio por perceber que o momento é verdadeiramente grave e não por motivos económicos (isso já todos sabíamos menos o Primeiro-ministro). O momento é verdadeiramente grave e explosivo em termos sociais e políticos.

 

A factura agora apresentada pelo desmando destes últimos anos, desta década de incompetência agravada nestes dois anos de verdadeira insanidade mental governativa, vai ser paga por um enorme grupo de portugueses, cerca de 70% da população activa que pode, natural e justificadamente, revoltar-se contra este estado podre e decadente a que o país chegou. Quando o pão começar a faltar a revolta vai estalar e isso, meus caros, não é mau apenas para quem ainda nos governa mas para todos. O discurso popular reinante que considera os políticos abaixo de cão, uma corja de corruptos e todos feitos uns com os outros encontra, em momentos como os que agora se avizinham, o verdadeiro caldinho para o crescimento de populismos perigosos que o Dr. Louçã e o Dr. Portas saberão, melhor do que ninguém, potenciar eleitoralmente.

 

É chegada a hora da verdade. O Partido Socialista terá, seriamente, que substituir a actual liderança. Cabendo a socialistas como António José Seguro e a toda uma nova geração, rapidamente, colocar ordem na casa. Ao mesmo tempo, Pedro Passos Coelho e a sua equipa terão de assumir as suas responsabilidades e não ceder aos desmandos desta gente que ainda nos governa nem a qualquer tipo de interesses particulares, por muito legítimos que sejam, do candidato a Presidente da República. Por sua vez, o actual Presidente da República terá, necessariamente, que assumir o seu papel. Um verdadeiro papel de Estado e de Estadista pondo término a toda esta brincadeira assumindo, até que a constituição permita novas eleições legislativas, a obrigatoriedade do Partido Socialista apresentar uma nova equipa governativa com outro Primeiro-ministro (com ou sem coligação alargada) até às eleições legislativas antecipadas.

 

O futuro de Portugal assim obriga. É chegada a hora da verdade.

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