Um vento sufocante
Era bom que houvesse uma pequena reflexão sobre a qualidade do debate político na blogosfera. O nível de algumas polémicas e o nível dos comentários mostra que chegámos ao grau zero. Quando escrevo um texto que me parece claro sobre um tema simples, logo aparecem ou comentadores ou outros autores que leram coisas bem diferentes daquelas que escrevi.
Ontem, critiquei um autor sobre uma generalização em relação à Imprensa. Chamaram-me controleiro (militantes que o PCP usava para controlar as células do partido) e recebi comentários com pessoas indignadas porque estava a impedir que se criticasse uma notícia ou os jornais. É evidente que a Imprensa portuguesa atravessa uma crise gravíssima, mas essa ninguém discute. A cobertura dos assuntos americanos podia ser melhor, sem dúvida, mas isso implica custos. O que ninguém discute. Ou seja, para alguns, a "qualidade" está desligada do contexto em que o produto surge. A ameaça crescente sobre todo um sector vital para a democracia, isso já é uma banalidade. Enfim, é fácil dizer que a música em Portugal é fraca, sobretudo se a discussão não abranger o financiamento das orquestras e o estado do ensino. Depois, é só dizer mal, até se concluir que a música é tão má que mais vale fechar as instituições, em vez de procurar soluções trabalhosas que permitam melhorá-las.
Em Portugal, os intelectuais estão a especializar-se em discussões laterais. Na blogosfera, o esquema está a ser levado a um ponto de caricatura. Veja-se a política. Quais são os grandes problemas do país? Por exemplo, quem foi ou não foi à manifestação contra a lapidação da senhora iraniana condenada à morte. A questão dos ciganos expulsos em França está também a ser dissecada com todo o cuidado em textos inteligentíssimos de quem nada sabe sobre ciganos balcânicos. Recentemente, discutia-se o carácter suburbano do chefe da oposição.
A economia, o desemprego, a estagnação de uma década negra que ameaça prolongar-se mais dez anos? As mentiras sistemáticas do poder? Os truques de pequena política? A ausência dos melhores e a desertificação dos partidos? Falar desses temas é demasiado incómodo. Chuto para canto.
Há um vento de politicamente correcto na blogosfera portuguesa que ameaça transformar-se num verdadeiro sufoco.
Existe outro aspecto, para mim bastante irritante, os grupinhos. Passam o tempo a dar palmadinhas nas costas uns dos outros, a elogiar-se mutuamente, meu amigo para aqui, meu amigo para acolá. Agrupam-se de acordo com cor partidária, mas de forma mais subtil por filiações sociais. Há os que dizem xícara e os que dizem chávena. De vez em quando zangam-se por ninharias. Mas nunca discutem serenamente um assunto difícil.
Em caso de desespero, recorra-se à futebolândia, de preferência com argumentação tasqueira em tom de guerra civil.
O padrão é sempre o mesmo, discutir trivialidades, passar ao lado do assunto incómodo. Mais vale escrever sobre temas inócuos. E se alguém incomoda, vamos atacar com comentários. A realidade? Quem quer saber disso?