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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Crónicas do Demo - II:

 

 

 

O palco estava montado no largo da Aldeia. Uma espécie de tela estilo LCD da moda piscando cores: azul, vermelho rosado, verde, outra vez azul. Um rapaz novo agarrado ao microfone imitava o Quim Barreiros e a problemática gastronómica do bacalhau da vizinha. Uma rapariga baixota dançava com alguma dificuldade fruto de uns tacões desafiadores da lei da gravidade e de um vestido cinza metalizado brilhante que teimava em subir, subir, subir para alegria da rapaziada presente. Ela cantou (?) numa das músicas e que bela voz para arrastar móveis.

 

Estando o palco de costas para a Igreja podemos concluir que a Santa da aldeia não conseguia ver o desenrolar do bailarico. Não foi por acaso. O bom povo, fino, entendeu por bem colocar a Santa a salvo dos olhares nada castos dos basbaques pendurados nas garrafas e babados que estavam pelos trejeitos de montanha russa do vestido da cantante (?), um sobe e desce destapando as coxas e mostrando um pouco mais. As francesas e as fransuguesas aperaltadas nos seus melhores vestidinhos e dotadas de generosos tacões e atrevidos decotes – nalgumas o umbigo espreitava e os seios gritavam como que a querer sair de semelhante aperto para deleite da rapaziada e espanto das senhoras prendadas da terra. Os machos emborcavam cerveja com os olhos a brilhar com semelhante festim. Em matilha, andavam de um lado para o outro, entre risos matreiros e piadas de gosto duvidoso que provocavam um ruborizar de face nas meninas da terra e um piscar de olho desafiador nas matronas circundantes estilo “o que tu queres sei eu”.

 

Na improvisada pista de dança de paralelo granítico dançavam eles com elas e elas com elas. Os mais velhos de braço direito em riste, qual saudação nazi, arrastavam as esposas numa espécie de “paso-doble” misturado com maduro tinto. A proeminente barriga deles, pendurada em pernas magras e esguias, contrabalançava com o aspecto anafado e baixote delas. As raparigas novas dançavam umas com as outras sob o olhar atento das mães e um certo ar de desprezo do restante mulherio. Não é difícil perceber algo: estava oficialmente aberta a época de caça.

 

A rapaziada presente dividia-se em duas castas: a local, de aspecto macho rude com as mãos e as faces marcadas pelo trabalho duro e mal remunerado e a "deslocada", vinda das profundezas de França, Alemanha e Suíça, com umas camisolas estranhas e de cores berrantes e o cabelo pintado (de louro que nem nórdico ou com madeixas a exemplo da Maria das Dores, a filha mais velha dos Soares da aldeia). Estes faziam furor nas rapariguitas da terra e os outros jogavam ao gato e ao rato com as “meninas de fora” e aqui o “fora” com duplo significado, se me faço entender.

 

É Agosto e as nossas aldeias submergem de uma certa escuridão com uma população que triplica e um odor quase cosmopolita que lhe é estranho. É tempo dos saltimbancos da música popular, das festas e bailaricos, das mines e das febras de porco caseiro e do presunto guardado com dedicação e esmero. Do regresso esporádico a casa dos filhos e netos que lutam pela vida lá fora e arriscam, todos os anos por esta altura, a uma morte estúpida nas estradas pelos excessos: de cavalos, de quilómetros sem parar e de algum álcool à mistura quando andam por aqui a uma velocidade inacreditável.

 

Foi quase meia hora de novela, ao vivo e a cores. A minha filha queixava-se da não existência de um carrossel ou uma simples barraca de farturas. Mais uns anos e quer lá saber dos carrosséis, para angústia e saudade dos pais. Não há festa como esta…

 

 

Vale de Penela, 22 de Agosto 2010

2 comentários

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    Fernando Moreira de Sá 22.08.2010 19:54

    Obrigado, Daniel, pelo comentário e por ter lido "como deve ser".
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