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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Indignação

A RAI tomou uma das medidas mais estúpidas de que eu já ouvi falar: vai deixar de passar repetições de lances controversos (uma medida que, para além de estúpida, não serve para nada, porque a RAI passa pouco futebol ou quase nenhum). O director da RAI, numa frase de incomensurável burrice e profunda incultura desportiva, disse que este gesto que-se-quer-fidalgo servia para que, a partir de agora, pudéssemos todos “pensar futebol” (expressão horrível) com “mais profundidade e menos gritaria”: puro disparate, porque o futebol também é gritaria, também é polémica, é para ser gozado na antevisão do jogo, gozado no acto de o jogar e de o ver jogar e gozado na discussão posterior e tendencialmente infindável do que foi jogado. Esta besta quer acabar com as colunas do Rui Santos, com os programas do Pôncio, com as discussões nos cafés, com as discussões ao jantar, com as discussões nos intervalos, com os berros, com os impropérios, com as ameaças de cabeçada – esta besta quer o quê? Com esta medida, a RAI mostrou the shape of things to come; as repetições já não passam nos ecrãs gigantes dos estádios, para não enfurecer as massas, que se presumem estúpidas e ceguinhas (e que o conhecimento da verdade poderia desinquietar); a UEFA já só permite uma-repetição-só-uma nos jogos da Liga dos Campeões, por causa das escandaleiras e dos roubos de igreja que também lá há; e a associação italiana de árbitros também achou muito bem, para os seus filiados poderem continuar a fazer merda e dormir depois descansados. Com esta medida, a RAI escreveu também filosofia sem saber: o futebol asséptico que ela nos oferece – sem erro que se veja, sem contestação da autoridade e sem conflito – é uma gigantesca parábola do mundo que se prepara – mas que a força do futebol de rua sempre impedirá que venha a triunfar sem oposição. Se o futebol é a vida, o novo sanitised football que nos querem impingir (tão emocionante como uma partida de curling) é um desporto de mortos-vivos.

 

(Publicado também no 5dias)

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