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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A caminho da República (4)

85 (12 de Julho de 1910)
No Entroncamento ocorreu um escândalo que provocou um motim e que ilustra bem o conflito social latente e o anti-clericalismo que grassava na sociedade. Uma jovem de Portalegre, Maria Valéria, cuja idade não é referida, foi interceptada na estação de comboios quando viajava na companhia de duas irmãs da caridade do Convento das Trinas. O relato é confuso, mas parece que um irmão militar foi avisado por telégrafo da fuga da menor e ali a interceptou. As religiosas foram acusadas de rapto, mas a situação tornou-se explosiva quando os populares se aperceberam. Houve uma tentativa de perseguir (e talvez espancar) as freiras, que se refugiaram numa das carruagens.
Maria Valéria regressou a Portalegre, onde foi entregue à família. A jovem desistiu da sua vocação religiosa, mas o caso tinha de tal maneira excitado a imaginação popular, que houve uma manifestação de protesto, de operários locais. A superiora das Trinas era entrevistada pelo DN a justificar o procedimento do convento. A religiosa explicou que a rapariga não teria sido admitida se não tivesse apresentado todos os documentos relevantes. E o procedimento de já a levar vestida com hábitos era normal. A religiosa afirmou não saber que a noviça era menor, mas neste caso foi bem curiosa a reacção intempestiva do povo, que de imediato sentenciou que se tratava de rapto.

 

84 (13 de Julho de 1910)
El-rei D- Manuel II partiu para o Bussaco (era assim que se escrevia) e foi aclamado com grande entusiasmo pelo povo ao longo do percurso. Nesta notícia não há qualquer indício de crise iminente ou dificuldades políticas. Pelo contrário, parece reinar a tranquilidade. A comitiva real passou pela Figueira da Foz, que na época era a zona balnear mais importante do país, devido ao seu elegante casino, e continuou até ao Luso.
“No expresso de hoje, da 1,50 da tarde, chegou ao Luso, sua majestade el-rei que, tanto na estação da Pampilhosa como na do Luso, teve uma carinhosa recepção, sendo levantados entusiásticos vivas a el-rei, sua augusta mãe e restante família. As gares das duas estações, que se achavam engalanadas com flores e ramos azuis e brancos, viam-se apinhadas de povo, sobretudo na Pampilhosa, onde a classe operária aclamou delirantemente el-rei que, com a bondade que o caracteriza, a todos agradecia bastante comovido pela grandeza da manifestação”. [A ortografia foi modernizada e repare-se na quantidade de vírgulas neste texto, com excessos e lacunas].
Na coluna “Martyrológio da Aeronáutica”, constava no DN uma notícia sobre mais uma catástrofe aérea, desta vez na Alemanha, onde um dirigível caíra de grande altura, com horríveis consequências para os cinco passageiros que iam a bordo.


83 (14 de Julho de 1910)
No efervescente cenário político português, e apesar de ser Verão, aceleravam as actividades políticas, com monárquicos e republicanos a multiplicarem as acções de propaganda. Uma sessão na Liga Monárquica é narrada na edição do DN de dia 15, referindo-se ao que acontecera na véspera, uma quinta-feira. O senhor Arthur Queiroz tomou a palavra para explicar a situação, que estava altamente polarizada em pró-governamentais e bloco republicano. A sessão incluiu vivas à família real e discursos com apelos ao voto.
Na mesma noite, no Porto, o Partido Republicano realizou uma conferência de propaganda anti-clerical, proferida pelo doutor Alfredo de Magalhães, “ilustre lente da Escola médico-cirúrgica do Porto”. Ao lado do orador, e a presidir à sessão, estava um futuro presidente, Teófilo Braga.
A notícia do DN descreve as afirmações do orador: “o povo português, pela estrutura do seu protoplasma, é um povo admiravelmente fadado para a filosofia livre, para a independência de opinião”. Mais à frente, o orador explica “que não há questão religiosa em Portugal. O que existe é uma questão reaccionária, a questão clerical”. E, acrescentou, o “partido republicano tem sido descuidoso e imprudente, não atacando a base primacial”, que era o poder da Igreja sobre as escolas. Partidário da “revolução”, o médico afirmou que a “realização desta depende da paciência e da oportunidade”. Certamente, Alfredo de Magalhães não podia imaginar que faltavam 83 dias para que as suas palavras fossem proféticas.


82 (15 de Julho de 1910)
Em 1910, não havia muito noticiário internacional, dada a lentidão com que circulavam as informações e talvez a própria falta de interesse do público pelos acontecimentos no estrangeiro. Mas havia excepções notáveis, como o “facto inaudito” que foi noticiado na edição de sábado, 16 de Julho, terá acontecido em dias anteriores, sem dúvida, mas foi conhecida no dia 15, pelo menos em Portugal. Para um contemporâneo, era um acontecimento da véspera.
Em Castel Nuovo, perto de Nápoles, um abastado comerciante de vinhos chamado Miguel Rea foi detido pela polícia. O homem, de 43 anos, enlouquecera em 1905, pensando que a mulher o traía com um cunhado padre. Mandou tapar todas as janelas do palácio, menos as do andar mais alto e manteve a mulher e os onze filhos presos no interior. Cada prisioneiro da família Rea ocupava um quarto com porta de ferro.
O homem manteve-se armado de revólver a controlar a entrada do palácio e encarregava-se de alimentar os doze prisioneiros, que foram libertados pela polícia italiana, esfomeados e em péssima condição de saúde.
Na mesma página da mesma edição, outra notícia internacional dava conta de um atentado falhado contra Afonso XIII, rei de Espanha. Um anarquista fora preso antes de poder concretizar o crime.
      
81 (16 de Julho)
Sábado de Verão, sem notícias de jeito. Isso não impediu a edição do DN de domingo, 17, de trazer uma nota rara em que a redacção refere que “a falta de espaço” impedira a publicação de rubricas habituais, a Crónica do Porto e a Crónica Literária. De resto, a edição é bastante aborrecida, com umas referências políticas às movimentações partidárias, um “martyrológio da aviação” (ferimentos graves para o aviador Boyle, em Bournemouth) e uma coluna inteira, com fotos, sobre os novos doutores de Coimbra: Fernando Duarte Silva de Almeida Ribeiro, Sérgio Ferreira da Rocha Calixto e João Emílio Raposo de Magalhães.
Curiosamente, na coluna diária sob o título “El-Rei no Bussaco”, duas não-notícias:
“Sua majestade, depois do costumado banho no Luso, recolheu ao seu aposento. De tarde continuou passeando na mata, mostrando sempre boa animação”.
De Coimbra chegava outra preciosa informação: “Consta que el-rei vem amanhã a Coimbra assistir à cerimónia dos doutoramentos, tomando lugar numa tribuna, como particular”. [modernizámos a ortografia].
Falta de espaço? Parecia que, pelo contrário, o país bocejava.

 

Estas crónicas baseiam-se nas edições do Diário de Notícias das respectivas datas e estão a ser publicadas diariamente no DN. Não têm intenção de provar qualquer ideologia, mas apenas de relatar o ambiente da época

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