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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A caminho da República (2)

95 (2 de Julho de 1910)
Este era um tempo em que as notícias de futebol tinham meia dúzia de linhas. Numa página muito interior do DN, dava-se conta da assembleia geral do Sporting Club de Portugal, com a eleição do presidente José da Cruz Viegas e do vogal José Holtreman Roquette. Um pouco mais acima, na mesma página, “o capitão do quinto team do Idealista Grupo Sport” pedia “a comparência de todos  os jogadores amanhã, às 11 horas, no campo de Benfica, para jogarem em desafio”. Contra quem? Mistério. O amanhã era terça-feira, 5 de Julho.
Estamos a pôr o carro à frente dos bois. Ainda só vamos em 2 de Julho, que foi um sábado marcado pela visita de estado do presidente da república argentina , o senhor Saenz Peña, que os jornalistas não se cansam de referir como “presidente eleito”.
No Paço das Necessidades houve um banquete de Estado, com 21 talheres. “Presidia El-rei” (julgo não se tratar de ironia) “que tinha à sua direita o senhor Saenz Peña e à esquerda o senhor presidente do conselho”. É preciso recuar uma coluna para se perceber que o referido primeiro-ministro se chamava conselheiro Teixeira de Sousa. Então muito conhecido, naturalmente, pelo que a menção do seu nome se tornava desnecessária.
Este governo iria durar um total de 102 dias, detestado em igual medida por monáquicos e republicanos. 

 

94 (3 de Julho de 1910)
Oradores republicanos e socialistas participaram num gigantesco comício republicano, domingo, 3 de Julho de 1910, em Lisboa. As imagens na primeira página do DN mostram milhares de pessoas, com destaque para uma fotografia de Miguel Bombarda, um dos mais destacados dirigentes republicanos. Teófilo Braga, Bernardino Machado, António José de Almeida, Brito Camacho, Afonso Costa, pelo menos três futuros presidentes falaram às massas.
As eleições estavam marcadas para 28 de Agosto e o Partido Republicano teria resultados desanimadores, mas o comício na avenida D. Amélia (julgo que é a actual Almirante Reis) foi uma manifestação de massas onde se ouviram terríveis críticas à monarquia e ao Rei D. Manuel II, que assumira o trono dois anos antes. Teófilo Braga lamentou o “sinistro espectáculo da instabilidade do poder em cinco ministérios em completa falência moral e intelectual”. As intervenções eram também muito críticas da Igreja Católica. Miguel Bombarda mencionou a “política reaccionária que só se traduz em perseguições religiosas”.
Os republicanos estavam muito confiantes e pretendiam explorar as divisões dos partidos monárquicos, ao mesmo tempo que recusavam a hipótese de aceitar a intenção reformista do monarca. O confronto era inevitável, embora isso não fosse ainda evidente para quem se limitasse a ler o jornal da manhã.

   

93 (4 de Julho de 1910)
O ciúme era o motivo de uma terrível tragédia em Xabregas. Um maquinista, casado, degolou a sua amante, tecedeira da mesma fábrica. Em seguida meteu a cabeça num poderoso volante e teve morte imediata. O drama de sangue só foi descoberto uma hora depois de se consumar. Carlos Luís Duarte tinha 46 anos e era casado, com quatro filhos, o mais novo dos quais tinha 14 anos. A outra vítima tinha 20 anos e chamava-se Júlia Gomes, conhecida por “Mola do Chinelo”. Dizia-se dela que tinha mau comportamento e que o marido a desprezara.
Um dos aspectos mais surpreendentes da imprensa da época é o número elevado de crimes, tendo em conta a dimensão do país. O interesse do público por estes acontecimentos era elevado e muitos dos homicídios envolviam grande violência.
A crise social era notória, com discussões religiosas, e a agitação partidária não evitava explorar estes problemas acumulados. Ainda na véspera se dera um fratricídio com facada, no Cadaval.
O caso da fábrica de algodão, apesar de tudo, não tem a ver com este aparente contexto. Os crimes passionais são semelhantes em todas as épocas. Um amante com ciúmes é uma história eterna.

 

92 (5 de Julho de 1910)
O folhetim que o DN publicava a três meses do 5 de Outubro e da instauração da República não podia ser mais monárquico: “O Pagem da Duqueza”, romance histórico da autoria de António de Campos Júnior, já na sua segunda parte, cujo título era um profético “Madrugada de Finados”.
A 5 de Julho de 1910, terça-feira, o Partido Republicano, que se preparava para eleições (enfim, para derrubar a monarquia, mas isso ainda não era claro) realizou comícios, reuniões e recolha de fundos.. As notícias foram dadas pelo DN na secção especial de uma página interior, entre a coluna de espectáculos e a de falecimentos. As novas adesões ao movimento tinham resultado numa receita de 6 mil reis. O jornal custava 10 reis e uma refeição no restaurante São Carlos ficava por 300, (a ceia a 350). Na mesma página, um marinheiro que desembarcou com duas caixinhas de fósforos estrangeiras pagou uma multa de 2500 reis, por defraudar as alfândegas.
Em outras notícias refere-se que um salário diário de 200 reis era miserável e que um salário médio por quinzena no norte atinge 2000 reis.
Tudo isto sugere que dez reis correspondiam sensivelmente a um euro actual.
Isto coloca em perspectiva a receita das alfândegas de Abril de 1910, num montante de 2 mil milhões de reis, mais 93 816 mil reis do que em igual mês de 1909 (o acréscimo homólogo de 4,5% indicava bom andamento das receitas do Estado).

 

91 (6 de Julho de 1910)
Estatísticas muito interessantes, na crónica agrícola, publicada na edição do DN que relata os acontecimentos de 6 de Julho de 1910, uma quarta-feira. A comparação do número de cabeças de gado entre 1870 e 1906 revelava uma degradação do valor por cem habitantes em algumas das espécies, fruto do aumento abrupto da população. Em 1870, havia 3,8 milhões de portugueses; em 1906, eram mais de 5 milhões. No gado bovino, aquele que porventura teria maior importância para a alimentação, Portugal nem estava tão mal, mesmo em comparação com outros países. Na Alemanha, o número de cabeças de gado bovino tinha aumentado 30% no mesmo período, mas por mil habitantes, registava-se uma queda de 15%, o que revela a rapidez do aumento populacional. Fenómeno semelhante acontecera na Inglaterra ou na Hungria. Pelo contrário, a França tinha mais 7,8% de cabeças de gado e, por mil habitantes, o aumento fora de 10% (estagnação demográfica). As estatísticas não são muito claras em relação a um fenómeno então visível na sociedade portuguesa: o preço da carne tinha aumentado de forma a produzir um forte descontentamento. Há protestos em relação a esses aumentos, mas faltam dados ou notícias sobre o tema.

 

Este trabalho está a ser publicado nas páginas do DN, todos os dias. A imagem é do comício republicano de 3 de Julho

 


 

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