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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A vinda do Senhor Ministro

Eu sou Ismael e acho que já vos tinha dito isso.

 

A notícia veio pela boca da secretária do Presidente da Junta de Freguesia, a Felismina do bacorinho. O bacorinho é como a gente chama aqui o Presidente por ser muito encarnadinho, assim a puxar para o forte e para o baixinho. A coisa deixou toda a gente muito animada, vinha cá um Ministro da Agricultura e Pescas do Governo. Isto era coisa única na terra, até porque a agricultura, mesmo contando com a cultura de ervas de cheiro que um velhote estrangeiro deixou por cá e a pesca que, entre trutas, bogas e um lúcio que o Eanes apanhou e que está empalhado na Junta de Freguesia, nunca foram actividades de grande importância. Pelos vistos eram e de repente começou tudo dar ares de importância. Não que eu achasse mal que as pessoas tenham respeito pelo seu trabalho e até como seres humanos e pessoas que somos, mas quando a Roberta das Nabiças exigiu sentar-se ao lado do Ministro comecei a ver turvo. Estava certo que a Roberta era a principal produtora agrícola da terra e até tinha organizado lá a horta dos cheirinhos do estrangeiro mas daí a querer tudo e mais umas botas era bocado demais. Houve grande discussão logo ali e ainda por cima porque o Eanes, que é o campeão de pesca cá da terra, ficando de ciúmes queria ficar também ele ao lado do Ministro. Ora o Eanes não é Eanes é Marquinhos Silva mas é a cara chapada do Eanes e ainda por cima tem a voz igual, eu por mim achei que seria muito disparate junto. Depois de alguma zaragata, o Bacorinho e a mulher ficaram de estar ao lado do Ministro e mais o Padre, se ele viesse.

 

 

O Padre podia vir ou não vir, com ele não se sabia bem, já que as relações dele com a aldeia não eram, nem são, as melhores desde a altura em que se lembrou de mudar umas coisas na nossa capela. Ora, a capela é nossa, paga por todos nós e quando o Padre, um homem magrinho que veio de Coimbra que se lembrou de trocar de lugar a Nossa Senhora das Dores e um S. Jorge com justificações artísticas, o povo cá da terra teve com ele uma troca de ideias também artísticas, resultando num olho negro e um lábio assim para o inchado. Desde então as Missas costumam ser muito rápidas e já houve vezes em que a Procissão da Nossa Senhora das Neves foi feita em passo de corrida, o que também não agrada muito às nossas gentes e em especial aos que carregam o andor.

 

 

No entanto, no dia marcado e com algumas horas de atraso, chegaram à aldeia 4 carros dos bons, jornalistas e tudo.

 

 

Ainda nem os carros tinham parado à porta da Junta e já o Bacorinho se postava à porta do primeiro carro todo direitinho com a mulher dele, toda vestida de dourado que até parecia umas toalhas que o meu pai adoptivo tinha lá por casa para dias de festa. O Ministro saiu do terceiro carro o que causou uma primeira confusão já que começou logo a cumprimentar as primeiras pessoas que viu e essas eram, está bom de ver, a Roberta e o Eanes. Como o Largo estava cheio de gente e não dava para andar mais à vontade, o Bacorinho lá conseguiu chegar ao pé do Ministro mas só aos empurrões, ele e a mulher e tratou logo de botar discurso. Os jornalistas mal tiveram tempo para pegar nas maquinetas deles mas a nossa gente tratou de os ajudar apesar da gritaria de um deles que não queria largar a coisa de filmar. Ele lá a largou ainda que um bocado chateado e com o Quebra-Molas sentado em cima dele ou por estar sentado em cima dele, não me lembro bem.

 

 

Lembro-me é que o discurso do bacorinho foi maravilhoso, nunca imaginei que o homem tivesse aquilo tudo memorizado na cabeça, mas os políticos são assim mesmo. Gente com memória de elefante ou com um elefante na memória, não sei bem a expressão correcta. Falou das riquezas da terra, das pessoas e até recordou o grande herói da terra como exemplo para as populações. O Beato Dentinho que foi para as Américas espalhar a palavra do Nosso Senhor e acabou na panela. Só sobrou um dente, daí o nome. Enfim, um discurso com tudo, emoção, história e culinária.

 

 

Diga-se que o Ministro parecia muito encantado mas um pouco verde, por causa das curvas da estrada achei eu mas o bacorinho julgou que era fome tratou de dar ordens para se adiantar o almoço e aqui é que as coisas tomaram um caminho diferente e alegre.

 

 

 

O almoço, um caldo de couves seguido de achegã e galo com arroz, foi feito pelas nossas gentes e a produção quase toda da Roberta que aproveitou para dar uso as ervas de cheiro nas mais variadas maneiras. O galo ficou quase impossível de comer tanta era a quantidade ervas que ela lhe atirou para cima, depois a mesa estava cheia de vasinhos com as ditas e até pôs umas a queimar nuns púcaros para dar um ar fino ao momento. Claro que esta nossa terra tem gente boa e cheia de vontade de agradar mas um pouco desorganizada e um vinho fraquito mas que, nunca percebi bem porquê, teve um efeito estranho no Ministro, nas pessoas que vinham com ele e em todos nós (mesmo a quem está habituado como o Quebra-Molas) porque a certa altura dei por mim a ouvir três discursos ao mesmo tempo, do bacorinho, do Eanes e do Ministro. Curioso, curioso é que ninguém se zangou e nem eu me lembro de ter ficado incomodado, sendo que o ministro falava em alemão e motivou grande entusiasmo na minha irmã Josefina que o interrompia a cada cinco minutos com aplausos e gritos de “biutifule, iorlanda ise praude”, o que não faço ideia o que quer dizer.

Nisto o Eanes começou a palrar e não se sabe explicar porquê mas o Ministro começou a chamar o pobre por Vossa Excelência e mostrou-se espantado com as medalhas da pesca que o Eanes trazia ao peito, o segundo lugar do Concurso de Pesca Regional era agora a Ordem da Boga e ainda por cima desatou a falar lá com um dos secretários a dizer que também queria uma para os Presidentes de Portugal, um exagero e uma ignorância porque é preciso saber pescar. Seja como for o evento foi um sucesso e a certa altura uma alegria muito grande para todos os envolvidos e em geral.

Quem ficou a ganhar com isto foi a Roberta que vendeu quase toda a produção de ervas ali mesmo, até os jornalistas levaram os vasinhos para casa.