Tudo isto é fado?
Parece que Portugal tem sempre mais encanto antes dos jogos. É nesses momentos altos, entre goles de cerveja estupidamente gelada, que as almas lusitanas normalmente se agigantam, ansiosas perante a hipótese de vitória e embriagadas com a antevisão delirante de uma glória habitualmente só acreditada pelos poetas. Depois, quando finalmente começa o jogo, as coisas mudam. Mudam sempre, bem sabemos... É amarga a derrota de um país que se acostumou às vitórias morais e "derrotas dignas". Ainda é amarga, apesar do hábito. Primeiro entranha-se nos ossos até encharcar a alma, depois mata cruelmente a esperança de conseguir sequer sonhar um país melhor... Mas já não se estranha, porque "tudo isso é Fado" de ter-se nascido português.
No mesmo país que já celebrou Saramago, embora sem a memória de ter celebrado com iguais honrarias outros recentemente falecidos escritores que não viram o Nobel, se Portugal tivesse marcado à Espanha outro destino cantaria... Ter-se-ia levantado a "Nação valente, imortal" inteira para vislumbrar por fim a realização do V Império! Mas não marcou e a Nação não se levantou. Por isso, quando amanhã regressarem ao trabalho, os portugueses não irão estranhar a vida no país de Sócrates. Habituaram-se às desigualdades sociais; aceitaram a corrupção que faz gelar a nobreza ida das instituições nacionais e tremer a democracia. Deixaram de escutar a voz dos seus egrégios avós, no mesmo tempo em que sonham - já só sonham - com o momento em que Ronaldo, ele que é o infante querido da Nação, "explodirá" para marcar o próximo golo!