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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Duas poesias

Por definição, os bons poemas são praticamente impossíveis de traduzir.

Mesmo em línguas que dominamos minimamente, as subtilezas da poesia perdem-se.´

É todo um universo inatingível.

Mas coloco aqui dois exemplos:

O primeiro é do poeta britânico W. H. Auden (1907-1973). This is the Night Mail foi escrito para um pequeno filme documentário encomendado pelos correios britânicos em 1936. A música é de Benjamin Britten e o poema em estilo realista é lido pelo próprio Auden. Ouçam o espectacular ritmo da leitura:

 

É belíssimo. Não tenho uma tradução portuguesa, por isso deixo o original:

 

This is the Night Mail crossing the border,
Bringing the cheque and the postal order,
Letters for the rich, letters for the poor,
The shop at the corner and the girl next door.
Pulling up Beattock, a steady climb:
The gradient's against her, but she's on time.

 

Thro' sparse counties she rampages,
Her driver's eye upon the gauges.
Panting up past lonely farms
Fed by the fireman's restless arms.
Striding forward along the rails
Thro' southern uplands with northern mails. Winding up the valley to the watershed,
Thro' the heather and the weather and the dawn overhead.
Past cotton-grass and moorland boulder
Shovelling white steam over her shoulder,
Snorting noisily as she passes
Silent miles of wind-bent grasses.
Birds turn their heads as she approaches,
Stare from the bushes at her blank-faced coaches.
Sheepdogs cannot turn her course;
They slumber on with paws across.
In the farm she passes no one wakes,
But a jug in the bedroom gently shakes.

 

Dawn freshens, the climb is done.
Down towards Glasgow she descends
Towards the steam tugs yelping down the glade of cranes,
Towards the fields of apparatus, the furnaces
Set on the dark plain like gigantic chessmen.
All Scotland waits for her:
In the dark glens, beside the pale-green sea lochs
Men long for news.

 

Letters of thanks, letters from banks,
Letters of joy from the girl and the boy,
Receipted bills and invitations
To inspect new stock or visit relations,
And applications for situations
And timid lovers' declarations
And gossip, gossip from all the nations,
News circumstantial, news financial,
Letters with holiday snaps to enlarge in,
Letters with faces scrawled in the margin,
Letters from uncles, cousins, and aunts,
Letters to Scotland from the South of France,
Letters of condolence to Highlands and Lowlands
Notes from overseas to Hebrides
Written on paper of every hue,
The pink, the violet, the white and the blue,
The chatty, the catty, the boring, adoring,
The cold and official and the heart's outpouring,
Clever, stupid, short and long,


The typed and the printed and the spelt all wrong.

Thousands are still asleep
Dreaming of terrifying monsters,
Or of friendly tea beside the band at Cranston's or Crawford's:
Asleep in working Glasgow, asleep in well-set Edinburgh,
Asleep in granite Aberdeen,
They continue their dreams,
And shall wake soon and long for letters,
And none will hear the postman's knock
Without a quickening of the heart,
For who can bear to feel himself forgotten

 

 

O segundo exemplo é de um poema brutal do húngaro Atilla József (1905-1937). A obra é vasta, com poemas fortíssimos onde não cabe o sofrível, e o poeta morreu aos 32 anos, atropelado por um comboio. Era esquizofrénico e a sua morte pode ter sido acidental. József sofria de alucinações  e ansiedade.

Acho que este poeta é comparável a Fernando Pessoa. Não me refiro aos heterónimos nem à sensibilidade, mas tem o mesmo estilo muito visual. Atilla József é claramente um expressionista que captou toda a loucura assassina da sua época.

Veja-se esta leitura de António Banderas, de uma tradução espanhola de Um Coração Puro, num péssimo programa da TV húngara (tentem ignorar o início do vídeo, que tem má qualidade, e ouçam apenas o actor):

 

Existe uma tradução portuguesa de Com Coração Puro, de Ernesto Rodrigues.

 

Não tenho pai nem mãe

nem Deus, nem pátria, nem

um berço, e nem mortalha,

nem beijos e nem amada.

 

Há três dias que não toco

em comida, muito ou pouco.

Meus vinte anos são poder,

meus vinte anos vou vender.

 

Se não precisam de mim,

o diabo compra, enfim.

Com coração puro assalto,

se preciso, também mato.

 

Sou preso e enforcar-me vão,

fechar-me em sagrado chão;

erva mortal vai subindo

sobre o meu coração lindo.

 

Este poema foi considerado subversivo e valeu a József a expulsão da Universidade de Szeged, em 1925. A nossa língua não permite imitar a rudeza bárbara do original húngaro. A musicalidade dessa língua não indo-europeia é ideal para as terríveis ideias do impressionante poema, que parece resumir a incompreensível tragédia do século XX.

 

 

   

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