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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Fora da estante (1)

O mistério das personagens

Muitos autores afirmam que um dos aspectos mais difíceis na arte da escrita de ficção é a construção de personagens. Por vezes, um escritor consegue inventar uma figura que dura décadas e atravessa as gerações, mas o mecanismo dessa criação continua a ser um mistério. O que faz funcionar certas personagens? Sherlock Holmes, por exemplo, de Arthur Conan Doyle, que é inverosímil; ou Rodion Roskolnikov, de Fiodor Dostoievski, em quem acreditamos completamente? E porque razão Constance Chatterley não é credível e não funciona, mas Emma Bovary faz mover a nossa imaginação?
A questão sempre me fascinou. O grande romancista britânico E. M. Forster, em Aspects of the Novel, dedica dois capítulos ao tema. Sendo um livro bem interessante sobre outras facetas da escrita, nesta parte das personagens parece patinar. Forster fala na vida secreta das figuras literárias e divide-as em planas e redondas, em bi e tri-dimensionais, dando exemplos de planos (o senhor Pickwick, de Dickens) e de redondos (nos romances de Jane Austen). Na literatura portuguesa, uma personagem plana seria Palma Cavalão de Os Maias, por quem tenho estima especial; um redondo, o padre Amaro do mesmo Eça, cujas complexidades tornam muito mais difícil uma definição clara.

Haveria muito a dizer sobre a vida secreta das personagens. No fundo, parece-me, esta é a parte da biografia que o leitor imagina, portanto contaminada pelas vivências do leitor, não controlada pelo autor. Talvez seja aqui que surge a identificação.

 

Apesar de tudo, a explicação de Forster parece insuficiente, sobretudo para personagens planas que, por qualquer razão enigmática, transcenderam os seus livros, transformando-se em representações mais vastas, por vezes de povos inteiros. O grande Sancho Pança, por exemplo, ou o bravo soldado Svejk (na imagem). Toda a gente tem um pouco da pragmática personagem de Cervantes e todos os que passaram por instituições autoritárias ou por conflitos absurdos compreendem a figura criada por Jaroslav Hasek, que anda pelo teatro, a ópera, o cinema. Aparentemente, estas duas personagens exemplares vão muito além do que efectivamente foi escrito pelos seus criadores. Elas têm extensões quase infinitas no imaginário.
O Bravo Soldado Svejk é um livro satírico, publicado em 1923, após a morte do autor checo, que falecera de tuberculose aos 39 anos. A estupidez da guerra e a futilidade dos sistemas de opressão, a crítica feroz do império austro-húngaro, tornam-se evidentes pelas acções desta personagem, que nunca percebemos se é um bronco com azar ou um hábil lunático empenhado na resistência passiva.
Este humor peculiar sobreviveu a todas as vicissitudes políticas na Europa Central e julgo que o espírito do soldado Svejk ajudou a derrubar o regime comunista (ironicamente, Hasek era um socialista convicto). Na fase terminal do regime na Checoslováquia, as pessoas usavam o humor e a caricatura para desmontarem o absurdo do sistema e fingiam acreditar nas regras mais idiotas, tal como o apalhaçado soldado, que é sempre quem faz os melhores discursos, antes de subverter a ordem militar.

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