Saltar para: Posts [1], Pesquisa [2]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Hoje vi o futuro numa borbulha

 

 

 

 

Celebrava-se hoje, na escola da minha rapaziada, o dia do seu Santo Patrono.

Por aquelas bandas, já se sabe que, em dia de festa, é suposto a malta apresentar-se compostinha.

 

De maneira que comecei a manhã numa luta titânica a tentar enfiar braços de rapazes em camisas engomadas e pés irrequietos em qualquer tipo de calçado que se afastasse da categoria “chuteiras de futebol”.

 

Muito embora contrariados, lá seguiram todos pipoca mas um bocadinho atrasados, que a batalha não foi fácil e eu já não vou para nova nem sou prima do Bruce Lee.

 

De maneira que, em vez de os largar no local habitual, tive de os acompanhar ao gigantesco pavilhão onde, neste dia, se celebra uma missa assistida por todos os alunos, incluíndo os do secundário.

 

Não me importei muito. Lembrava-me de, em anos anteriores, ter ficado impressionada com a majestosidade do evento. Ao fundo do pavilhão, um coro do tamanho de Santo Amaro de Oeiras (e aqui não me refiro à dimensão do coro de Santo Amaro,  refiro-me mesmo à da localidade), lá fora, prontos para entrar, cerca de quarenta acólitos em vestes brancas de capuz atadas com uma corda e, à porta, magotes e magotes de rapazes e raparigas a cruzarem a ombreira para se irem sentar nas bancadas.

 

Como tenho dois sobrinhos no secundário e toda aquele aparato me começava a comover, resolvi aninhar-me a um canto e esperar pela entrada dos alunos mais velhos para lhes dar um abraço de tia velha.

 

Foi aqui que entrei em estado de epifania. À medida que os adolescentes borbulhentos começaram entrar, fui invadida por uma ininterrupta sucessão de visões. Por detrás daquelas borbulhas, vestidas de blaser e gravata, vislumbrei os grandes homens de amanhã. Os grandes médicos investigadores, os advogados tubarões, os CEO’s das 100 maiores empresas, um ou outro deputado e até, quiça, um ministro.

 

A indumentária conferia-lhes um estatuto de pré-pessoa-importante e quase os consegui imaginar com mais vinte anos, com uma respeitável meia dúzia de cabelos grisalhos a discutir assuntos com toda a propriedade.

 

Depois voltei para casa a sorrir e a tentar imaginar o Marcelo Rebelo de Sousa ou o António Mexia, na idade Clerasil, a fazer gala em pôr a fralda da camisa de fora,  numa pífia tentativa de rebeldia.

 

 

 

Cenários radicais

 

  

Defendi neste blogue que eleições democráticas no Egipto (e já agora, na Tunísia) darão com toda a probabilidade a vitória aos islamitas, no caso egípcio a Irmandade Muçulmana e no tunisino o Partido do Renascimento (Ennadha ou al-Nahda).

Nuno Gouveia escreve este artigo sobre os islamitas egípcios e tento entrar em controvérsia por não ser possível comentar o seu post. E o autor cita Robert Kaplan, aqui, como estando a refutar um cenário de vitória islâmica.

Se bem interpretei o texto, Robert Kaplan tenta dizer que não é inevitável um cenário iraniano, o que é diferente de não admitir a vitória islâmica. O autor faz uma comparação com a Europa de Leste, na linha do que também já escrevi, de que a actual crise é comparável à queda do Muro de Berlim, e admite vários cenários, desde transição fácil a guerra civil.

 

Nesta discussão, há elementos incontroversos: o poder eleitoral destes movimentos é importante. De facto, a irmandade não tem líder carismático, mas em vários países do leste europeu a oposição não tinha líderes carismáticos conhecidos no exterior e isso não impediu a transição. Na Tunísia existe um líder carismático, Rachid Ghannouchi, que compara o seu partido ao turco Justiça e Desenvolvimento, AK, que é uma formação democrática. 

No Egipto, em 2005, os candidatos independentes ligados à irmandade elegeram 88 deputados, apesar da chapelada governamental. Na Tunísia, em 1989, com todas as contrariedades do mundo, diz-se que os candidatos independentes ligados ao Ennadha podem ter ultrapassado os 10%. Vinte anos depois, correu muita tinta e estes movimentos ganharam popularidade, não a perderam.

 

Se houver eleições livres, no mínimo os partidos islâmicos terão boas votações. O que não quer dizer que vão imitar o Irão, pois a democracia representa para eles uma vantagem. Parece-me que existe uma confusão em algumas das abordagens que tenho lido: a maioria dos autores acha que a vitória islamita implica o fim da democracia. Mas existe uma leitura alternativa, de que a democracia dará provavelmente lugar à vitória islamita, iniciando uma transição para regimes democráticos onde os islâmicos serão o poder e os seculares estarão na oposição.

Ou seja, o cenário iraniano não é inevitável, mesmo que estes partidos radicais triunfem.

 

Nota: a minha insistência nestes pontos deve-se ao facto de ter feito reportagem na Tunísia e no Egipto. Falei com pessoas do regime e tive a sensação da rua. Em ambos os países tive a impressão nítida de que os islamitas na clandestinidade ou ilegalizados eram muito fortes.

Esta revolução no Egipto tem certa organização, o que implica a presença decisiva da irmandade. É de louvar a forma como eles protegeram o Museu do Cairo, onde estão tantas preciosidades do velho Egipto.

As notícias sobre o putsch da São Caetano são claramente exageradas

 

Ouvi hoje o dr. Portas atribuir ao PSD uma proposta que enunciei no Expresso sobre o que poderia ser uma estrutura de governo. Para além de despropositadas considerações cabalísticas sobre a indicação dada quanto ao número de ministérios, que não merecem comentário, há dois pontos que convém referir (brevemente, pois não vale a pena gastar muita tinta com a actual hiperactividade política do líder popular):

 

1. Eu falo por mim, não falo pela direcção do PSD a que não pertenço, e muito menos pelo seu líder. Que eu tenha notado não ocorreu um putsch na São Caetano e não me recordo de ter tomado a direcção do PSD de assalto. Sei que o conceito da diversidade de opiniões num partido é alienígena a muita gente pois, em regra, nos partidos mais pequeninos, só há uma batuta (e, esporadicamente, uns opositores, quando o tempo é clara e inequivocamente de oposição).

 

2. Dar importância à agricultura e aos bens transaccionáveis (bem-vindo ao clube, que mais vale tarde que nunca...) não implica ter um ministério dedicado ao tema. Aliás, no caso em apreço, Portugal teve sempre um Ministério da Agricultura (e Pescas) e viu-se o que aconteceu à agricultura (e às pescas). Uma agricultura moderna e produtiva, contribuinte menos negativo para a nossa Balança de Bens, não deriva de existir alguém que, a partir do Terreiro do Paço, ande pelo país a distribuir cheques aos representantes da "lavoura". Um dia, caso tenha tempo e pachorra, faço um desenho. Portugal precisa de uma verdadeira política agrícola, não de um ministro da agricultura.

 

Voltando ao ponto 1: não faço ideia se o dr. Passos concorda comigo ou com o dr. Portas neste tema. Nem estou preocupado. Se me for pedido, explicarei mais longa e fundamentadamente porque penso deste modo. No PSD não temos de afinar todos pelo mesmo diapasão. Parece ser uma longa e frutuosa tradição.

Pág. 17/17