O ano de 1961 foi qualificado pelos historiadores como o ano de todos os perigos para o regime do Estado Novo em Portugal. Os perigos começaram logo em de 3 de Janeiro com a fuga de importantes dirigentes comunistas, entre os quais Álvaro Cunhal, da prisão de Peniche, o que constituiu um rude golpe para o regime a nível interno. A 22 de Janeiro, com a operação Dulcineia, ocorre o assalto ao paquete Santa Maria, levado a cabo por militantes revolucionários chefiados por Henrique Galvão, que colocou o regime em cheque a nível internacional. Poucos dias depois, a 4 de Fevereiro, inicia-se a luta armada em Angola, com o assalto às cadeias de Luanda. Um mês depois, a 14 de Março, ocorrem os ataques da UPA no Uíge, aterrorizando os portugueses, e causando grande repercussão internacional. A 13 de Abril dá-se o golpe de Botelho Moniz (Abrilada) que, embora fracassado, obriga Salazar a nova remodelação do Governo, assumindo pessoalmente a pasta da Defesa Nacional, tendo então proferido o célebre discurso: "Para Angola rapidamente e em força". A 31 de Julho, o Forte de São João Baptista de Ajudá, minúsculo enclave que Portugal ocupava no Benim, é ocupado por tropas deste país, que expulsam os soldados portugueses. A 10 de Novembro, poucos dias antes das eleições para a Assembleia Nacional, Palma Inácio desvia um avião da TAP e lança panfletos sobre Lisboa. A 17 de Dezembro, inicia-se a operação Vijay, pela qual a União Indiana invade e toma Goa, Damão e Diu. Finalmente, na noite de 31 de Dezembro ainda ocorre o golpe de Beja. Mais nenhum ano foi tão dramático para o regime do Estado Novo como o de 1961.
Pois bem: cinquenta anos depois, o ano de 2011 ameaça ser tão dramático para o regime democrático como o foi 1961 para o Estado Novo. Atentemos nas seguintes datas:
A 5 de Janeiro vai haver logo um leilão de bilhetes do tesouro de 500 milhões de euros, a primeira de muitas tentativas de financiamento do Estado Português nos mercados internacionais, que vão ocorrer nos primeiros três meses do ano. Para assegurar o financiamento da nossa economia, é necessário que todas essas operações tenham sucesso. Se as mesmas falharem, o recurso ao Fundo de Estabilização do euro e ao FMI é inevitável.
A 21 de Janeiro os funcionários públicos tomam consciência da efectiva redução dos seus salários, o que aumentará brutalmente a contestação social. Ao mesmo tempo, os sindicatos lançarão a contestação jurídica a esses cortes salariais com inúmeras acções instauradas nos tribunais administrativos. Basta que apenas uma dessas acções tenha sucesso para que o Orçamento para 2011 perca toda a credibilidade. É claro que o Governo recorrerá para o Tribunal Constitucional que provavelmente lhe dará razão, na sua já habitual perspectiva de fazer prevalecer a razão de Estado sobre os direitos constitucionais das pessoas. Mas os danos que uma simples sentença contrária à redução de salários, mesmo que não transitada em julgado, pode causar à credibilidade externa do Orçamento serão irreparáveis.
Neste enquadramento, ocorrerão as eleições presidenciais a 23 de Janeiro. Embora a reeleição de Cavaco Silva pareça assegurada, não é de excluir totalmente a surpresa de uma eventual segunda volta, em face do enquadramento acima descrito. Se tal acontecer, a posição política do Presidente ficará bastante enfraquecida.
Muito provavelmente o Primeiro-Ministro, logo no primeiro trimestre do ano, efectuará uma remodelação do Governo, livrando-se de alguns Ministros mais incómodos. Perante a sensação de fim de ciclo a que se assiste no PS, não se vislumbra que o Primeiro-Ministro consiga recrutar pessoas de qualidade para refrescar o Executivo. O Governo remodelado poderá, por isso, ser ainda pior que o actual.
Com o multiplicar das falências, o aumento do desemprego, e a redução de salários e de subsídios assistir-se-á durante 2011 a uma onda de protestos e greves. É por isso muito provavel que os partidos de esquerda apresentem uma moção de censura no Parlamento. Aí, ou o PSD viabiliza o Governo e fica mais uma vez ligado ao seu destino, ou vota essa moção de censura, o que implicará novas eleições legislativas em meados do ano. Se entretanto tiver havido o recurso ao Fundo de Estabilização do euro e ao FMI, dificilmente alguém compreenderia que não se fosse para eleições.
Se tal não acontecer, o último ponto crítico é o Orçamento para 2012, que se vota em Outubro. Aí se verá se a consolidação orçamental teve sucesso ou se são necessárias novas medidas de austeridade. O Governo irá colocar novamente a oposição entre a espada e a parede, com os mercados a assistir.
No meio de tudo isto, ainda há possibilidade de novas surpresas, como dificuldades de financiamento dos Bancos ou revelações bombásticas, designadamente da Wikileaks. 2011 ameaça ser assim um ano muito perigoso para o regime.
“Por un lado, veo que la democracia digital avanza al mismo ritmo que retrocede la democracia analógica” – Isaac Rosa, Público (Espanha), 27 de Dezembro de 2010.
Solidário com a Maria João cito estas palavras de Isaac Rosa para chamar a atenção: no mundo digital a Ensitel já foi condenada. E no mundo analógico?
Um Cavaco Silva surpreendentemente ao ataque, um Manuel Alegre excessivamente contido. Esta pode ser uma síntese daquele que foi - de longe - o melhor debate desta pré-campanha, há pouco transmitido pela RTP. Um debate que Cavaco conseguiu levar para o terreno que mais lhe interessava, o da estabilidade institucional como arma defensiva perante a actual crise económica, enquanto se mostrava muito agastado perante críticas antigas do seu antagonista, que o acusou de pretender destruir o estado social. Alegre pareceu perplexo com a táctica de Cavaco e perdeu preciosos minutos do frente-a-frente procurando justificar aquelas declarações, proferidas num tom que raras vezes associamos ao actual Presidente da República.
"Manuel Alegre acusou-me pelo menos 50 vezes de eu destruir o estado social. É uma afirmação falsa. Ele andou a enganar os portugueses", afirmou Cavaco, entrando ao ataque no estúdio da estação pública. Alegre tentou contra-atacar, mas o primeiro tema que lhe veio à mente não terá sido dos mais eficazes: "Eu teria dado uma resposta imediata à humilhação que o Presidente checo fez a Portugal na presença do Presidente da República [Cavaco Silva]. Foi uma situação embaraçosa. O Presidente da República devia ter respondido imediatamente."
O tiro fez ricochete. "Eu não actuarei, no domínio da representação externa, como sugere o candidato Manuel Alegre. Um Presidente que se metesse num avião para bater à porta da senhora Merkel ou de Sarkozy era um desprestígio para Portugal. Não nos levavam a sério. A política externa não se faz aos gritos na praça pública", retorquiu Cavaco Silva.
Houve divergências claras entre os candidatos em quase todos os domínios. Alegre acusou Cavaco de ter falhado a anunciada "cooperação estratégica" com o Governo. O candidato apoiado pelo PSD e pelo CDS deu uma rápida volta à questão, não hesitando em colar-se ao Executivo socialista - aliás confirmando o que foi o essencial do seu percurso em Belém nos últimos cinco anos: "O Governo está a tomar medidas [contra a crise]. A prova disso é que aprovou um Orçamento do Estado, que prevê a redução do défice para 4,6% e está a colocar as finanças públicas numa situação sustentada" Deu-se aliás esta coisa espantosa: ouvir-se um Cavaco mais próximo de José Sócrates do que o seu antagonista. De resto, Alegre deixou claro: "Eu não me candidato para defender este Governo."
A minha maior perplexidade ocorreu, no entanto, quando Alegre trouxe para o debate a questão das alegadas escutas telefónicas do Governo no Palácio de Belém suscitada por colaboradores muito próximos de Cavaco no Verão de 2009 - aquele que foi, sem qualquer dúvida, o pior momento do mandato do actual Chefe do Estado. "Este caso pôs em causa a lealdade institucional", acusou o socialista. Cavaco fez como costuma quando uma questão o incomoda: não respondeu. Estranhamente, Alegre não deu sequência ao assunto, que morreu ali. Ele próprio, aliás, também ficou sem resposta quando a moderadora, Judite Sousa, lhe pediu uma apreciação sobre o Orçamento do Estado para 2011.
Houve alguma proposta original neste debate? Sim. E veio da boca de Alegre. Se for eleito, o candidato apoiado pelo PS e pelo BE convocará uns Estados Gerais da Justiça. "Para uma reflexão muito profunda sobre a justiça" em Portugal. Cavaco, por seu lado, fez uma revelação ao confessar ter manifestado "muitas dúvidas" sobre o decreto que nacionalizou o BPN, em 2008, e sobre a competência da actual administração deste banco. Alegre não chegou a incomodá-lo muito neste tema apesar de ter estado bem ao alertar para as situações de "promiscuidade entre política e negócios" e ao apontar sem rodeios que figuras como Dias Loureiro e Oliveira Costa "nasceram politicamente com Cavaco Silva".
Manuel Aegre precisava mais de uma vitória clara neste debate do que Cavaco. Para contrariar a convicção dominante - indiciada por todas as sondagens - que as presidenciais ficarão decididas logo à primeira volta, tal como aconteceu há cinco anos. Esse objectivo não foi conseguido. Por um motivo muito simples: Cavaco preparou-se melhor do que o socialista. Em política, estas coisas contam.
Alegre - Tenho uma visão mais aberta, mais tolerante e mais progressista em relação a determinados valores. A lei da interrupção voluntária da gravidez, a lei da paridade e a lei do divórcio, entre outras, representaram avanços civilizacionais.
Cavaco - Portugal depende muito do estrangeiro.
Alegre - Em política não há inevitáveis. Devemos resolver os nossos problemas com as nossas próprias forças.
Cavaco - Pode-nos faltar dinheiro para muita coisa. Mas não pode faltar dinheiro para situações de emergência social.
Alegre - [Oliveira Costa e Dias Loureiro] nasceram politicamente com Cavaco Silva.
Cavaco - Lamento que o candidato Manuel Alegre alimente uma campanha de insinuações e de intrigas.
Alegre - Não estou a insinuar coisíssima nenhuma. (...) Cavaco Silva confunde crítica política com insulto.
Cavaco - Este não é um tempo de fazer experiências, não é um tempo de aventuras. (...) Precisamos de soluções de segurança.
Henrique Raposo escreve este texto, com generalizações sobre o progresso em África, e Nuno Gouveia, em Cachimbo de Magritte apressa-se a dizer que se trata de um artigo muito importante, acrescentando que "apenas a democracia e a liberdade podem salvar a África da miséria". Penso que os dois autores embarcam em ilusões pouco construtivas. Raposo dá exemplos de países africanos desenvolvidos e espanta-se com o interesse dos media pelos Estados falhados. Ou seja, não se davam as notícias da Costa do Marfim, como não se deram as do Ruanda.
Na realidade, as elites corruptas não chegam para explicar a miséria africana. Estas elites são um sintoma do mal, não são a causa. O problema africano está sobretudo na ordem económica mundial, que condenou um continente riquíssimo à pobreza extrema. Nos últimos 500 anos, as potências coloniais não se limitaram a explorar a escravatura, mas eliminaram todas as unidades políticas que poderiam ter formado reinos ou impérios. O Benim, um dos exemplos de Henrique Raposo, recebeu o nome do Império do Benim (que ficava na actual Nigéria) e que formou uma entidade política que os portugueses ajudaram a neutralizar, mas que poderia ter evoluído naturalmente. Podia dar outros exemplos, como o Império do Mali, reino mandinga que sem interferência ocidental poderia ter facilmente dominado metade da actual Costa do Marfim, além do actual Mali, partes da Guiné e do Senegal.
Com as suas sociedades destruídas pela interferência colonial (que não teve só aspectos negativos) a África é hoje um mosaico de países artificiais, divididos por religiões e sobretudo profundos ódios tribais. O conflito na Costa do Marfim é apenas um dos muitos que fermentam na região. E a sua origem está nas questões étnicas.
Hoje, as potências coloniais europeias continuam a dominar a região e os americanos têm tentado obter uma parte do bolo, daí a viagem de Bush que Henrique Raposo refere. África é uma vasta fonte de matérias-primas. Quanto mais estratégicas, maior o caos. O caso da República Democrática do Congo é particularmente sinistro. A guerra civil na RDC fez mais de 4 milhões de vítimas mortais. Numa das suas regiões mais violentas, o Kivu, é extraído um mineral (Tântalo) crucial para telemóveis. A indústria electrónica não funciona sem este mineral que continua a matar gente. O país é também rico em cobre, diamantes, cobalto, zinco, magnésio, urânio. Tem fabulosos recursos hídricos e uma riqueza vegetal sem paralelo. Uns países africanos têm petróleo ou urânio, outros têm diamantes. Alguns mais desafortunados têm petróleo, ouro e diamantes.
Insisto: a ordem económica mundial é desfavorável para os africanos, que estão condenados à pobreza e ao atraso. Muitos destes países fragmentados por dentro não têm língua própria, são governados por elites corruptas que alguém corrompeu, quase sempre as antigas potências coloniais que exploram estes recursos com baixo custo. Reparem que a ordem neo-colonial é muito mais barata para as potências europeias do que a ordem colonial. As colónias eram caras e era preciso investir em estradas e escolas, manter os colonos e construir cidades, ferrovias e portos.
As democracias africanas não têm raízes e não são estáveis. Veja-se a Guiné-Bissau, por exemplo, onde todas as votações foram livres, mas altamente perturbadas pelas questões tribais, com um poder civil incapaz de se manter num contexto cultural onde o prestígio conta mais do que o número, com hierarquias subtis onde quase sempre os órgãos eleitos são quem menos manda.
Esta história é quase inacreditável. O país está a enlouquecer, mas a situação protagonizada por uma empresa de nome Ensitel contra a autora deste blogue é no mínimo ridícula. Leiam o post de Maria João Nogueirae sigam os links.
A hipocrisia do regime, aqui bem apontada por Filipe Nunes Vicente. Agora, falar de pobreza é fazer "aproveitamento político". Perderam toda a vergonha.
Em É tudo Gente Morta, um excelente texto de Eugénia de Vasconcellos sobre um grande filme baseado na obra de um escritor genial.
E ainda o meu agradecimento a Pedro Rolo Duarte por estas escolhas, onde está incluído um blogue que escrevo com o João Villalobos, As Penas do Flamingo, que infelizmente tem andado paradinho. Ali podem ler contos e poemas de vários géneros. Leia-se isto um pouco como sessões de música ao vivo, tal como tento explicar neste outro local mais heterogéneo, onde há também crónica, além de pequenas histórias. Infelizmente, a falta de tempo é o grande inimigo deste género de projectos na bloga e talvez os leitores não estejam para ali virados.
E este folhetim merece ser lido com regularidade, pois trata-se de uma arrojada experiência na blogosfera literária. Cadáveres Esquisitos, de Joshua e Rogério da Costa Pereira.
Defensor Moura votou favoravelmente o Orçamento do Estado para 2011 mas não tem dúvidas em admitir que "gostava de ter outro Orçamento". A tal ponto que, se não fosse deputado do partido do Governo, teria desfilado sem hesitar nas ruas, marchando em protesto contra o Orçamento socialista durante a recente greve geral.
Confusos? Eu também. Felizmente para o ex-presidente da câmara de Viana do Castelo, este foi o último debate televisivo em que participou na campanha presidencial: cada aparição sua no ecrã arrisca-se a ser um contributo para o anedotário nacional. O frente-a-frente desta noite, na TVI, em que debateu com Francisco Lopes foi mais um bom exemplo disto. Por um lado, acusa Cavaco Silva de não ter feito "todo o esforço para alcançar um acordo estável que permitisse a governação". Por outro, garante que se estivesse no lugar de Cavaco teria dissolvido a Assembleia da República "no início do ano", ainda antes de o segundo Governo de José Sócrates ter cumprido seis meses em funções. Suprema ironia: o Presidente Defensor teria dissolvido o deputado Defensor. Elementar, meu caro Moura.
Francisco Lopes mal precisaria de abrir a boca para ter ganho este debate. Ganhou-o, de facto, mas por ter revelado um discurso mais objectivo e muito mais coerente em matérias tão diversas como a crítica à especulação dos mercados e a necessidade de "aumentar a produção industrial", apontando exemplos concretos. Pareceu apenas esquecer o limite dos poderes constitucionais do Presidente da República, a quem não compete a definição das grandes linhas económicas do País: alguém devia informar o candidato comunista que as atribuições do Chefe do Estado foram consideravelmente reduzidas na revisão constitucional de 1982. Mas voltou a marcar pontos na questão do BPN, como já o fizera no debate que o opôs a Cavaco Silva, considerando-o um "escândalo nacional". Defensor Moura, que também se mostra muito indignado com o caso BPN, deixou ontem por comentar uma questão directa da moderadora, Constança Cunha e Sá, sobre o caso Face Oculta. Dois pesos, duas medidas.
Seria de esperar algo diferente daquele que é capaz de ser o único português hoje capaz de apontar a catastrófica Grécia como um exemplo a seguir só para levantar a bandeira da regionalização?
Lopes - É um escândalo nacional ter havido um acordo entre o Governo e o Presidente da República para adquirir os prejuízos do BPN. (...) Hoje está cada vez mais claro que essa intervenção não devia ter sido feita.
Defensor - O clientelismo e a corrupção são tolerados pelos portugueses desde o mais baixo nível. (...) O Presidente da República deve ser intolerante com os negócios ilícitos.
Lopes - É necessário haver o máximo entendimento possível. A questão é saber em torno de quê. Se é em torno deste rumo dos últimos 30 anos que afundou o País e que vai continuar a afundá-lo de forma dramática em 2011, não.
Defensor - É preciso acabar com o dinheiro vivo no apoio aos partidos e às campanhas eleitorais. Deve haver a maior transparência no apoio aos partidos.
Lopes - Considera-se dinheiro vivo um reformado pagar uma quota de dois euros ao seu partido e que ele é um potencial corrupto. Mas se alguém passa milhões da banca para um partido isso já é aceitável. (...) Os partidos não devem ser sucursais dos grandes grupos económicos nem departamentos do Estado.
Defensor - Durante este ano o Presidente da República teve uma actuação muito abstencionista.
Portugal poderia ser o exemplo escolhido para um manual de política económica dedicado ao tema: como fazer tudo (ou quase tudo) ao contrário do que deveria ser feito. Provavelmente, também seria um bom exemplo para um manual de ciência política ou ainda para outro de sociologia subordinado à mesma temática geral.
Não me proporciona qualquer satisfação constatar que há muito que, na companhia de alguns outros economistas, historiadores, politólogos ou mesmo pragmáticos com sentido do interesse geral (recordo, em particular, Pedro Ferraz da Costa), tenho vindo a avisar para as consequências dos erros de sucessivos governos, de boa parte da nossa elite económica e financeira e, de facto, da maioria esmagadora dos meus concidadãos.
Durante 20 anos fizemos tudo ao contrário na ilusão de que já éramos ricos (fomo-nos sentindo ricos, vivendo sempre acima das nossas posses, todos os anos desde 1994): engordámos a função pública (a partir da súbita e extrema generosidade do ano de 1991), tornámo-nos um país de proprietários endividados (aceleradamente, após 1992, freneticamente, após 1996), fomos criando um sistema de pensões insustentável e particularmente injusto para as gerações mais novas (desde os anos 80 e apesar da correcção de 2006, perdida a oportunidade de regeneração em 1997), incentivando muita gente em idade produtiva à madraça e à acomodação (após 1997), criando a ilusão de que basta um diploma qualquer para se ser útil e capaz de realizar com competência uma profissão (após 2005), ou, enchendo o país de infra-estruturas subutilizadas ou simplesmente inúteis, promovidas por políticos incompetentes para gáudio de populações embrutecidas e de empreiteiros gananciosos. Infelizmente, esta é apenas uma brevíssima resenha do nosso desvario colectivo.
As consequências deste caminho teriam sempre de chegar. Antes da crise financeira de 2008, sempre pensei que, perante o beneplácito de credores distraídos e a inoperância da supervisão multilateral reinante na zona euro nos primeiros anos da moeda única, Portugal seria confrontado com a impossibilidade deste seu caminho aí por 2013 ou 2014. Nunca depois. A crise financeira a que se seguiu uma crise da economia real nas economias desenvolvidas e, função da dose cavalar dos remédios aplicados, uma crise das dívidas soberanas, veio acelerar o epílogo deste caminho desgraçado.
O país vive, nas vésperas do embate final com o concreto, ou seja, com a impossibilidade de financiamento externo (que já não é autónomo desde, pelo menos 2009, não o esqueçamos) num momento de verdadeiro estupor colectivo. O primeiro-ministro faz um discurso de Natal tão desfasado da realidade que não merece sequer comentário ou reacção sob pena de se baixar irrecuperavelmente o nível do debate. Os portugueses, na sua maioria, comportam-se como se tudo se mantivesse na mesma (com excepção da metade de milhão que constitui o primeiro contingente de baixas do regime) e vão lamuriando contra a maldade do governo que lhes corta salários ou benesses mesmo quando convencidos que qualquer alternativa verdadeira lhes cortará salários e benesses. Os opinadores, em regra tão capazes quanto os políticos que regularmente fustigam, dedicam as suas excelsas inteligências a coisas tão extraordinárias como a validade dos famosos testes de PISA ou pura e simplesmente dizem mal de quase tudo e de quase todos. Propostas concretas, caminhos a seguir, em suma, o que fazer, nada…nicles. Os autarcas dão entrevistas lamentando que falta dinheiro para as suas obras (que têm, em boa medida, servido a função social que o circo servia na velha Roma) e, finalmente, os aparelhos partidários preparam-se para defender ou tomar o poder como se o seu exercício futuro fosse, em 2011 e nos anos que se lhe seguirão, algo de semelhante ao regabofe que tem sido.
Perante tudo isto, não me restam dúvidas de que 2011 não só será colectivamente um ano muito mau, como provavelmente mais difícil do que se imagina. À dificuldade económica, à impossibilidade financeira, ao deslaçar das estruturas sociais acresce algo de consequências imprevisíveis e que afectará a maioria dos portugueses: o difícil acordar do estupor em que têm vivido para o pesadelo em que todos já entrámos, só alguns sentimos e poucos ainda percebemos.
Nunca se viu um debate assim: dois candidatos presidenciais que vão defrontar-se nas urnas tratarem-se amavelmente por "colegas". Aconteceu ontem à noite, na RTP, no frente-a-frente que reuniu Defensor Moura e Fernando Nobre, ambos médicos. Parecia mais um debate para o cargo de bastonário da Ordem dos Médicos do que um debate presidencial. Sem dúvida o mais frouxo e desinteressante desta campanha.
Nobre plagiou-se a si próprio, reiterando frases de outros debates. Afirmou-se "isento" e "suprapartidário", ao contrário de todos os outros. Com algumas notas de manifesto exagero: disse três vezes, por exemplo, que tem "conhecimento do mundo". Não havia necessidade...
Defensor, por seu turno, nada conservou da atitude agressiva do anterior debate, travado com Cavaco Silva. O "colega" Nobre mereceu mais consideração ao antigo deputado do PRD de Ramalho Eanes e actual parlamentar do PS de José Sócrates que antecipa já o voto em Manuel Alegre numa eventual segunda volta. Diz que corre para diminuir a abstenção com as suas proclamações regionalistas. Cada vez se parece mais com o candidato do queijo da Serra, embora neste caso seja preferível chamar-lhe candidato do queijo Limiano por uma questão de afinidade regional.
Há quem se queixe de não ouvir propostas nesta campanha. Nobre deixou uma, que a moderadora, Judite Sousa, entendeu não explorar: "Vou abrir Belém." Instituindo "um dia, todos os três meses, para que a população portuguesa possa falar com o seu Presidente". Foi pouco, mas neste debate foi o melhor que se arranjou.
Defensor teve o seu momento alto da noite quando dirigiu esta estocada ao "colega" por interposto progenitor: "Ao contrário do pai de Fernando Nobre, que dizia que a política é uma porcaria, o meu pai foi mandatário de Humberto Delgado." O pior? O prolongamento da sua lamentável prestação no debate com Cavaco. Nestes termos mais próprios de um candidato camarário do que de um candidato presidencial: "Depois do debate com o candidato Cavaco Silva recebei telefonemas [de pessoas] do PSD apoiando-me por eu ter tido a coragem de ter dito ao candidato Cavaco Silva aquilo que dentro do partido dele nunca tiveram coragem de dizer." Eis como as declarações sussurradas de uns cobardes assumidos podem ser transformadas em pseudo-trunfo eleitoral...
A moderadora quis saber o que pensa Nobre sobre as supostas ligações de Cavaco ao BPN. A resposta foi sucinta e correcta: "Eu não faço ataques ad hominem. A justiça portuguesa existe para actuar."
São colegas, mas há contrastes evidentes entre eles. Como este maçador debate claramente demonstrou.
Defensor - Saúdo a chegada do meu colega à vida política activa. Saúdo o seu idealismo e a sua vontade de mudar.
Nobre - Cavaco Silva não é o meu principal adversário. (...) Eu estou aqui para ir à segunda volta e vencer Cavaco Silva na segunda volta.
Defensor - Tenho a consciência de que as pessoas não me conhecem.
Nobre - O BPN é uma tragédia nacional.
Defensor - Eu, como a maioria dos portugueses, tive uma educação cristã e, como tal, aprendi a dar com a mão direita sem a mão esquerda saber. Agora, infelizmente, costuma-se dar com a mão direita e ter uma campainha com a mão esquerda a dizer que se está a dar.
Nobre - Eu não digo coisas no ar, digo coisas concretas.