Há uma certa história que incomoda alguns adeptos do processo histórico: aquela onde é o homem que faz a história e não a história que faz o homem. Onde o homem faz a história, mas sem saber que história vai fazendo. Reparo que está novamente em cena em Portugal "O Príncipe de Homburgo", de Heinrich Von Kleist. Reparo que, há mais de quarenta anos, Goulart Nogueira encenou a peça. Na Oficina de Teatro dos Estudantes de Coimbra. Como também a traduziu em 1961, editando-a então na Contraponto de Luiz Pacheco. A pedido do Teatro do Gerifalto, de António Manuel Couto Viana. Apenas um registo de verdade contra o banimento. É tudo uma questão de romantismo contra os invasores napoleónicos. Sempre.
Também por cá, José Acúrsio das Neves esteve ao lado de José Bonifácio de Andrade e Silva. Que reaccionários e maçons deram as mãos em nome da pátria. Como, depois, as voltaram a dar na Patuleia. Só historietas de literatura de justificação de posteriores regimes, sobretudo quando eles entram em crepúsculo de banhas de cobra comemorativas, ou de procura de historiografias oficiais de livro único, para uso, como catecismo, nas escolas também oficiais. Só então é que procedem a saneamentos de intolerância, fanatismo e ignorância.
A liberdade não é mera abstracção geométrica, mas a consequência de uma pluralidade de indivíduos autónomos. É uma vivência feita comunidade, que só existe quando existem homens livres que são autores e não meros auditores, dado que estes acabam quase sempre como meros súbditos, quando preferem a servidão do bem-estar e da segurança, à imprevisível revolta dos escravos, em nome da justiça.
Também Albert Camus salienta: a liberdade é poder defender o que não penso, mesmo num regime ou num mundo que aprovo. É poder dar razão ao adversário. E, mesmo comparando-a coma justiça, clarifica: Finalmente, escolho a liberdade. Pois que, mesmo se a justiça não for realizada, a liberdade perserva o poder de protesto contra a injustiça e salva a comunidade.
Goulart foi uma espécie de D'Annunzio em português e é uma homenagem atribuir-lhe o qualificativo de fascista, um dos poucos que conheci, inteiro e artístico, e que assim deve ser lembrado. Kleist foi o pretexto para um encontro com o nacionalismo romântico, onde tudo, até a palavra fundamental, havia sido inventada por Rousseau. Porque, como ensina Ortega y Gasset, outro dos meus mestres, ao homem lhe sobe o coração à cabeça, quando o sentimento passa a predominar sobre a razão e acaba por explodir em paixão: o sentimento não se contenta do seu predomínio sobre a razão, como fonte de inspiração literária ou artística: converteu se em paixão, que a cada passo perdia o sentido das medidas correntes da realidade física ou moral.
Assim também foi Coimbra, no ambiente de "fim de regime". Lá aprendi a ser neo-romântico e panenteísta. Com Heinrich Von Kleist. Com Paul Claudel. E até com Fernando Pessoa. Todos encenados na Oficina. Com Goulart Nogueira e com António Manuel Couto Viana. Não são apenas memória que quero esquecer. Continuam a ser saudades de futuro...
Que, para o mês de Abril, irei conferenciar sobre o tema, em Condeixa, comemorando os cem anos desta república. O pretexto vai ser Francisco de Lemos Ramalho, conde de Condeixa e Marquês de Pereira, o trisavô da Ana, títulos que nunca usou por fortes convicções políticas. E aquele retrato de família, onde também aparecem o conselheiro Luís de Magalhães, o filho de José Estêvão, e Jaime de Magalhães Lima, assim se religando a restauração de 1808 à própria Traulitânia, com progressistas casando com miguelistas . Com outras histórias da raiz das guerrilhas patuleias. Das que chegaram à Revolta dita do Grelo, já nos primeiros anos do século XX. E à revolta de Cernache de 1936, onde meus avoengos se insurgiram contra a GNR, e foram condenados e presos durante anos, mas ainda hoje sem lugar nos catecismos da liberdade, apesar de constarem com nome próprio, perdido no anonimato do colectivo, nos próprios anais inventariados por Fernando Rosas...
Coloca cd´s na aparelhagem e sabe o que quer escolher e ouvir. Descobriu há dois dias “A República” de Platão, numa prateleira à sua altura, e quando lhe perguntamos que livro é que está a ler diz: Patão. Passa os dedos nas palavras pretas e soletra coisas que só ele entende. Filosofa, portanto. Ainda não percebi se gosta mais do Pocoyo, do Winnie ou do Noddy mas escolheu o Pocoyo como figura para o seu bolo. Controla todas as motas que possam passar, faz referência ao uso do capacete, pede pinhões e nozes, de todos os animais imita o galo com muita precisão, colecciona, por acaso, cavalos, finge que fala ao telefone com os avós, faz uma clara distinção entre botas, sapatos e ténis, o mesmo já não se pode dizer da fruta manga, melancia e azeitonas... identificadas como melão. Gosta que quando alguém chega a casa tire, imediatamente, o casaco, de ver as pessoas sentadas e de ter amiguinhos mais velhos, a quem diz; “Por aqui, por aqui”. Quando chamamos, José? Responde: Sim? Como se fosse muito crescido.
Passaram dois anos. Continua a dormir com o óó (fralda)e a pê pê (chupeta) e a acordar com um sorriso.
Obrigada José por me teres "escolhido" para ser a tua mãe. Não há abraço, nem beijo, nem cheiro, nem olhos, nem mãos, nem narizinho como o teu. De quem é o coração da mãe? Do José!
P.S – Ainda não se deitou num qualquer chão, mas sim, já se sentou a fazer birra.
Não sabe mas prepara-se para ter como prenda de aniversário um aspirador para ver se deixa o verdadeiro no sítio.
Estive na Correntes d'Escritas alguns dias, na Póvoa de Varzim, a ouvir falar sobre literatura, e agora tento este regresso difícil e preguiçoso à pobre blogosfera portuguesa. A mesma blogosfera onde os debates estão abaixo de cão e a crispação política é quase incompreensível. Para alguns, até parece que o País já não interessa para nada. Entretanto, a crise agrava-se. Na Póvoa, a maior multidão era a que ouvia os debates com escritores, mas a segunda maior juntava-se no centro de emprego, perto do hotel onde pernoitámos.
Tentarei escrever sobre as discussões e as brilhantes intervenções de vários escritores, sobretudo dos brasileiros Zuenir Ventura e Bernardo Carvalho, mas também de Manuel Silva Ramos, Paulo Moreiras, Mário Zambujal, Onésimo Teotónio de Almeida, Malangatana, Inês Pedrosa, valter hugo mãe e Germano de Almeida, entre outros. Destaque ainda para a belíssima poesia de Ana Luísa Amaral.
As Correntes d'Escritas são porventura o maior evento literário do país. Aprendi muito, a conversar com todos estes artistas, alguns deles amigos, como Rui Vieira, Manuel Jorge Marmelo, Luís Filipe Cristóvão, João Tordo, Francisco José Viegas, José Mário Silva, Sérgio Luís de Carvalho, Maria Teresa Horta, Ivo Machado ou Vergílio Alberto Vieira. Conheci o Pedro Vieira, o Hector Abad e o Eduardo Pitta (com pena de não ter falado com eles mais tempo), o professor Fernando JB Martinho, Paulo Kellerman e João Paulo Sousa (de quem, numa gaffe imperdoável, não me despedi). Inesquecíveis são também o Tiago Gomes e as encantadoras Leonor Xavier, Margarida Ferra e Tânia Ganho.
Enfim, queria aqui deixar um agradecimento público à Manuela Ribeiro e Francisco Guedes, que organizam o evento. E junto um link para um conto da minha autoria incluído na revista oficial do encontro.
Valeram-lhe a genialidade e a ousadia, a Glenn Gould, para dar às Varições Goldberg um toque paradoxal único: interpretadas por ele parecem a antítese do estilo de Bach e, no entanto, só nos soa a Bach. Alguns sabem fazer variações.
As audições a propósito do chamado caso PT/TVI na Comissão Parlamentar de Ética têm sido, salvo raras excepções, de uma pobreza franciscana. Dos boys aos vendilhões do templo, as audições têm posto a nu a verdadeira realidade do País. Gente que não sabe falar, que não sabe do que fala e que dá a pior imagem das funções que exerce - incluindo a maior parte dos deputados da dita comissão, onde só João Semedo (BE) e Pedro Duarte (PSD) parecem saber o que ali fazem.
Entre as tais excepções nas "personalidades" chamadas ao Parlamento, destaque para as audições dos directores dos semanários Sol e Expresso. O arquitecto José António Saraiva teve coragem para denunciar uma alegada tentativa de decapitação do jornal e não se escudou em eufemismos de qualquer tipo. Henrique Monteiro disse claramente que a extinção do "Jornal de Sexta" da TVI foi "ilegal", porque se tratou de uma ingerência da administração numa matéria que é da competência exclusiva da direcção editorial. Não tendo assistido a todas as audições, parece-me que, pelo menos, estes dois jornalistas dignificaram a classe a que pertencem.
De resto, estou muito curioso para ouvir Henrique Granadeiro, chairman da Portugal Telecom. Rui Pedro Soares, o boy de Sócrates que estava na administração executiva da PT, afirmou que só Granadeiro poderia dizer como é que ele lá foi parar, já que se recusou a dizer quem o tinha indicado para exercer aquelas funções com trinta e poucos anos e nenhum currículo. Se bem conheço Granadeiro, a resposta não deverá tardar e presume-se que possa ser assustadoramente esclarecedora. Então se o boy não estava em representação do accionista Estado, detentor da golden-share, e se diz ter sido nomeado por Granadeiro, então de onde vem esse conhecimento? Que eu saiba, Granadeiro, que esteve na Casa Civil do general Eanes, tem mais conhecimentos no antigo PPD do que propriamente na Juventude Socialista...
Ontem teve lugar um magnífico almoço de twitters. Mais de 130 compagnons desta route virtual, das mais diversas áreas de actividade e sensibilidades políticas, reuniram-se sob o pretexto de um leitão. Falou-se de leitão e de robalos; de justiça e de escutas; de jornalismo e de pressões; e até de futebol … e de Figo. Falou-se de crises: pouco das exógenas, muito das “endógenas”. E não se falou do Governo! Não se falou do Governo enquanto órgão que resolve os problemas, mas apenas enquanto organização que os cria. O órgão, que (indirectamente) elegemos, deu lugar a uma organização estranha e problemática. Foi disto que se falou no almoço de ontem. De que andará a falar o resto do País?
editado por Francisco Almeida Leite a 2/3/10 às 13:27
Neste mês de pê-esse-dê em encruzilhada, os campanheiros do costume manifestam que ainda estão presos pelos manuais e argumentários de outras eras. E assim se vão diluindo na pequenez das guerrazinhas dos homenzinhos (Eça, presumo), conforme as encomendas feitas às agências de comunicação que fabricam o "star system" sem Maria da Fonte nem Patuleia. E o patético leva Manela a plumoso canto de cisne, lançando palavras de Fénix que não a levantam das cinzas, mesmo que o tema seja o das helénicas finanças. Muito simbolicamente, sobre os restos do desastre do Funchal, Marcelo emitiu a sua última crónica, quase forçando o encerramento do ciclo pós-revolucionário deste regime, de que foi um dos principais encenadores. Deste regime teatrocrático, com mais bastidores do que cenários, onde actores que não são autores emitem parcelas de guiões que outros lhes escreveram em decretino. Enquanto isto, os cidadãos continuam sendo meros auditores, não ousando a cidadania da urgente resistência e da consequente revolta...
editado por Francisco Almeida Leite a 4/3/10 às 00:08