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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Leitura de bolso (1)

O regime comunista romeno de Nicolae Ceausescu, que terminou em 1989, não criou apenas um estado policial que tiranizava a vida do seu povo. Perante o silêncio da Europa ou o encolher de ombros dos intelectuais do ocidente, as minorias étnicas foram oprimidas, os indivíduos humilhados e uma geração inteira acabou desmoronada.
A tirania é o pano de fundo de um romance, A Terra das Ameixas Verdes, oportunamente reeditado pela Difel após a sua autora, a alemã Herta Müller, ter recebido o Prémio Nobel da Literatura. Trata-se de um livro político, testemunho individual escrito numa prosa densa.
O romance conta a história de um grupo de amigos de etnia alemã no norte da Roménia (um círculo de poetas) das suas vidas sem esperança, num contexto de profunda opressão. O leitor viaja para as planícies da região de Timisoara e pressente que Müller incorporou no texto elementos da sua própria experiência. Este é um mundo de mortes, violações, incomunicabilidade, denúncias, culpas, cinismos, prisões sem lei, violência pura, traição e excesso de passado, comunista e fascista.
“A má sorte atacara-nos de modos diversos, desde que nos tinham espalhado pelo país. Permanecemos dependentes uns dos outros. As cartas com os cabelos não serviam para nada, quando o medo que trazíamos na cabeça era legível na letra do outro” (pág. 185). Este é um resumo da tragédia individual, mas há excertos onde se fala do absurdo do regime: “Os operários roubam os restos de madeira e fazem com eles pavimentos de parqué (…) Quem não rouba não é levado a sério. Daí que eles não possam, mesmo quando já têm o andar inteiro forrado a parqué, parar de roubar e de colocar parqué. Por isso, colocam-no nas paredes até ao tecto”.
A estrutura é fragmentada e a leitura torna-se por vezes difícil, devido à crueza das situações, nas quais a autora introduz um sopro poético que faz levitar certas passagens. Existe um fio de histórias, talvez centenas, algumas arrepiantes, outras apenas sugeridas, muitas delas poderosamente visuais: a seita de velas acesas que viaja num comboio; os óbitos de um casal que tentara fugir (ataque cardíaco); a avó senil que não pode ir ao enterro do marido; a discussão caseira; as cartas com cabelos colados, para se descobrir se foram abertas; a infância soturna, a vigilância, o medo e a saída do suicídio (ou serão homicídios?).
O livro ganha poder página a página, tem um final lindíssimo (de tão pungente) e a sua tradução, por Maria Alexandra Lopes, deve ter sido uma tarefa bem difícil, pois adivinha-se grande complexidade linguística, com misturas de romeno e húngaro na base de um alemão repleto de imagens complexas: afinal, o mosaico étnico-cultural daquela região.
Herta Müller deixou a Roménia em 1986 e nem no exílio deixou de ser alvo de difamações e ameaças, vigiada pela sinistra Securitate. Recentemente, ao receber o Prémio Nobel, a escritora explicava que a tentação totalitária não desapareceu ainda. A Terra das Ameixas Verdes explica a razão da persistência do mal.

 

Versão de um texto publicado na revista NS do DN