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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Leitura de bolso (8)

Há muitos mitos sobre a literatura e um dos mais nocivos sustenta que os escritores são gente aborrecida, arrogante e sobranceira. Não passa de tolice, naturalmente. A minha experiência no maior encontro de escritores do país, o festival das Correntes d' Escritas, na Póvoa de Varzim, indica que os escritores são geralmente simpáticos, quase sempre tímidos e (num padrão estranho) dizem ter fraca memória, o que compensam com certa dose de fantasia.
Talvez seja sortilégio destes encontros. Há um ambiente democrático, onde escritores desconhecidos convivem com veteranos. Os leitores entusiasmam-se com a presença dos autores e falam com eles na rua. À mesa das refeições, formam-se animados grupos, não apenas de escritores, mas também de jornalistas e editores.
Na vida real, os escritores são geralmente divertidos, mas nas sessões públicas, onde todos querem brilhar, discutem-se sobretudo questões mais literárias. Apesar disso, as mesas de debate (pelo menos é assim na Póvoa) tornam-se por vezes quase despiques de humor.
Entre os convidados deste ano fui uma das excepções ao ambiente descontraído. No debate em que falei, estava tão aterrorizado que nem me lembro de ver as pessoas que enchiam a sala. Elas eram um borrão e esqueci-me por completo daquilo que disse no primeiro minuto da minha curta intervenção. Sei que debitei o meu lamento sobre a condição do amador e contei uma história que tentava sublinhar a importância das vivências e da realidade (ou das realidades) no trabalho da escrita.
Não tive presença de espírito para elaborar, mas gostaria de ter dito que a boa literatura anda ligada à sinceridade do autor. O jornalismo tem de ser factual e a literatura é por natureza imaginada. Mas em ambos os exercícios, que nisso são opostos, existe uma tentativa de perceber aquilo que nos rodeia, exigindo-se grande honestidade nas percepções. A arte é interpretação do mundo, dos seres humanos, e a literatura é um tentar perceber utilizando a emoção. Não pode ser isso apenas, naturalmente, inclui o delírio e o sonho, exige devoção e entrega, precisa de certa solidão, não pode existir sem paciência, sem trabalho tão prolongado como uma maratona, em oposição à brevidade efémera do jornalismo. Mas a meu ver soa sempre a falso a escrita demasiado técnica que finge sem sinceridade, sem que haja um fundo de verdade pessoal naquilo que se escreveu.
 
Um relato pessoal e divertido das Correntes d'Escritas 2010, por Manuel Jorge Marmelo.

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