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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A grande crise global

Este artigo de agência contém pistas preciosas para tentar descodificar a realidade. O texto sugere que a actual crise transcende em muito a questão das dívidas soberanas, sendo na realidade uma crise da própria globalização e dos seus sistemas. Os mercados tornaram-se demasiado vorazes e os políticos deixaram de controlar todas as alavancas do poder, como por exemplo os fluxos financeiros ou as redes sociais onde se alimenta muito do actual descontentamento difuso. Não há vazio de poder, o que existe é uma miríade de novos actores:

 

"Many areas of the global economy have also become effectively "ungoverned space" into which a host of actors -- from criminals to international firms such as Google and Goldman Sachs to countless other individuals and groups -- have enthusiastically jumped."

 

Duas décadas de desregulação financeira tiveram grandes efeitos na economia global, com preços mais baixos de produtos de consumo, milhões de pessoas a enriquecer ou avanços em projectos políticos baseados na cooperação entre nações, como no caso da União Europeia. Mas os excessos de ganância, a irracionalidade e a falta de controlo deste sistema estão na base da crise iniciada em 2008 e que se agravou nos anos seguintes. Os problemas eram anteriores, com as deslocalizações a produzirem desemprego e a baixarem os salários, os governos a endividarem-se para estimular a economia ou por não saberem prever o que aí vinha (as guerras da década não ajudaram). Agora, quando a tempestade cresce, os políticos constatam a sua impotência e surgem exigências para maior regulação, sobretudo vindas da esquerda, que do ponto de vista ideológico foi totalmente ultrapassada. As pressões chegam de todo o lado e explicam a actual paralisia:

 

In the United States and Europe, far right groups including the Tea Party, eurosceptics and nationalist forces look to be rising, sometimes potentially blocking policy-making. On the left, calls grow for greater controls on unfettered markets and capital.

 

Os peritos citados neste artigo não acreditam na eficácia da reintrodução de mecanismos de regulação dos mercados, são cépticos em relação às possibilidades da China ficar fora da crise global e têm muitas dúvidas sobre a capacidade dos políticos de conseguirem manobrar o navio para segurança. A fragilidade política de Barack Obama no próximo ano não pode ajudar nesta situação e os europeus continuarão confrontados com os problemas que resultam da sua dependência de eleitorados muito contraditórios, cada vez menos convencidos da necessidade de aprofundar a união monetária. O resultado pode ser o afastamento gradual dos diversos blocos e a tendência para proteger os mercados nacionais.

Ao mesmo tempo surge um fenómeno de fragmentação social, bem evidente nos motins ingleses. Grupos de jovens sem perspectivas criam uma onda de violência que as autoridades têm imensa dificuldade em conter. Com os gangs à solta, vemos pilhagens e destruição insensata. A acção policial musculada não resolve o problema essencial de uma geração sem futuro (estes vândalos não estudaram e não terão empregos).

Pequeno e periférico, Portugal não está fora do mundo. A capacidade de manobra dos nossos políticos é ainda menor do que no caso das potências europeias, já que após o resgate financeiro perdemos muita da nossa soberania. Mas há menos sinais de fragmentação social e também menos intensidade nas exigências de franjas populistas. Desconhecemos fenómenos semelhantes aos indignados espanhóis, ao Tea Party americano, aos anarquistas gregos ou ainda aos vândalos britânicos. Esta é a nossa vantagem.

 

 

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