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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

A tempestade

A crise financeira agrava-se em Agosto e leio este interessante artigo no Financial Times. Reparem na frequência de uso da palavra medo e até da palavra pânico. No fundo, a tese é a seguinte: os mercados temem riscos que não sabem ao certo se existem, acabando por aumentar o risco para os seus próprios investimentos. É o Catch 22. A recente cimeira europeia parecia ter resolvido a questão por alguns meses, o que daria tempo para introduzir as medidas acordadas e reduzir a pressão. Mas parece que os mercados querem desencadear um Lehman Brothers na Europa. Como já escrevi antes, a tempestade não termina enquanto os investidores não garantirem que os contribuintes do norte da Europa vão pagar cada tostão das dívidas soberanas dos países da zona euro. A questão vai agravar-se, é evidente, pois outros países serão arrastados no turbilhão. E estes ainda não estão a ver o filme de terror que os espera, iludindo-se com um breve contentamento (uau, os italianos estão pior do que nós).

Se a questão fosse só europeia, podíamos estar mais ou menos tranquilos, mas as nuvens negras acumulam-se lentamente nos céus sobre a América. Ali, os efeitos da crise estão a ser brutais. Milhões de empregos perdidos e 45 milhões de pessoas a comida subsidiada (em 2008, eram 28 milhões). Os americanos dificilmente poderão pagar a dívida que acumularam e isso terá consequências em todo o mundo. A popularidade de Barack Obama continua em queda acelerada e o actual presidente pode falhar a reeleição, o que implicará a possível vitória de um republicano que não chega lá sem algum tipo de apoio dos populistas do Tea Party.

 

A democracia está de facto a atravessar um período mau. A Espanha vota dentro de meses, mas o mercados não terão a paciência para esperar pelo veredicto popular. Os países do norte da Europa enfrentam um dilema ainda mais dramático: a preservação do euro exige mecanismos que os eleitores não estão dispostos a aceitar. Esta federalização da moeda única (eurobonds, alargamento do FEEF, ministro das finanças europeu) não só não está prevista nos tratados como não passaria em referendo. Em resumo, a tempestade só acalma quando forem tomadas decisões impossíveis, nomeadamente quando as dívidas dos países forem assumidas pelo conjunto dos parceiros. Puro suicídio político, mas nunca passaria nos parlamentos. Os mercados exigem decisões ditatoriais.

É neste ambiente de medo e pânico que teremos de viver durante anos. Alguns economistas começam a falar em dificuldades prolongadas, comparáveis às do Japão, que vai em duas décadas de estagnação económica e declínio relativo. Esta parece ser uma crise civilizacional e do próprio sistema capitalista.

Julgo que, neste contexto, Portugal está a fazer tudo bem: através de eleições, o povo tirou um Governo pouco credível e elegeu um novo Executivo, que ganha lentamente a sua credibilidade; a situação política é agora estável; as medidas que nos foram impostas estão a ser aplicadas sem ambiguidades ou hesitações e com o apoio corajoso da oposição socialista; mesmo os que não assinaram o memorando de entendimento têm sido razoáveis nas críticas; a população parece aceitar sacrifícios que até aqui eram impensáveis; não temos o fenómeno dos indignados, as excentricidades de Berlusconi ou a violência dos anarquistas gregos; o ritmo reformista é elevado e não são vendidas ilusões propagandísticas.

Infelizmente, não controlamos o ambiente externo e precisamos de tempo, paciência e sorte.

  

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