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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Os tablóides estão condenados

O escândalo News of the World diz mais sobre o mundo contemporâneo do que uma prateleira de biblioteca. Esta história de ganância desenfreada e falta de escrúpulos mostrou as entranhas do braço armado do populismo, a imprensa tablóide.

No Reino Unido, onde a concorrência é feroz na imprensa, estes jornais utilizaram métodos de obter notícias que incluíram o suborno da polícia e a espionagem dos cidadãos. O objectivo primordial era vender papel, sem preocupação pelas vítimas, mas no caminho o grupo de Rupert Murdoch minou os fundamentos da democracia, intimidando eleitos, perseguindo vozes incómodas, domesticando a classe política.

Muito disto não é novo: sempre houve jornalistas vendidos e barões da imprensa com poder desproporcionado, mas julgo que o fenómeno da tablóidização é bastante nocivo, sobretudo se for visto como a forma triunfante da imprensa. Ao procurarem o mínimo denominador comum que lhes permita maximizar as vendas, estes jornais sensacionalistas baixam os padrões gerais e tornam a opinião pública superficial e dócil.

 

O êxito dos tablóides, sobretudo a partir dos anos 80, juntou-se ao fenómeno da concentração de títulos. Nos países mais ricos, como Reino Unido ou Alemanha (e em Portugal também, embora em menor escala, pois aqui lê-se pouco), os grupos de imprensa cresceram desmedidamente e, ao mesmo tempo, tornaram mais simples os seus processos e mais "ágeis" os conteúdos informativos. A pouco e pouco, este mais "ágil" transformou-se numa espécie de ideologia populista, a caminho do simplismo e do barato. No fundo, aconteceu na indústria da informação o mesmo que se passou na maioria dos sectores, com a globalização: pressão para reduzir custos, o que exigia cortes na despesa mais importante (os salários); como os jornais vivem da publicidade, era preciso aumentar a circulação; e, para isso, faziam-se jornais mais simples e acessíveis, com notícias menos profundas.

Cada um destes fenómenos acelerava os restantes: com salários mais baixos, a "produtividade" das redacções aumentou, portanto escrevia-se mais em menos tempo, empurrando todos os noticiários para o fait-divers e o superficial.

 

O Reino Unido chegou mais cedo à crise dos tablóides, no final dos anos 90, daí a pressão para as ilegalidades. Na Europa Central, as circulações deste tipo de jornal também começaram a cair em meados da década passada.

A internet actuou como uma espécie de enorme China, com custos baixíssimos, mão-de-obra inesgotável. Para quê comprar um jornal tablóide com notícias idiotas se podemos encontrar essa informação na net e de forma grátis? Assim, a imprensa popular e de low cost é, por natureza, a primeira grande vítima da internet. Claro que os jornais elitistas perderam territórios onde eram dominantes: a crítica, a crónica, o folhetim não fazem grande sentido num jornal em papel. E todos os jornais de qualidade têm zonas grátis na net, política absurda que começa a ser revista. O público quer boa informação? Pague.

Para além das ramificações políticas, julgo que a grande lição da crise da News Corporation e do escândalo Murdoch é a de mostrar que os jornais de qualidade podem sobreviver em papel e que serão os tablóides a emigrar para a net.

 

Na globalização, o impacto da China foi mais forte nos sectores que tentavam competir através de custos baixos. Salvaram-se os países que fabricavam produtos que os chineses não sabiam fazer. 

Acho que o mesmo raciocínio terá de se aplicar na imprensa. O custo dos jornais em papel no consumidor tenderá a subir; estes serão produtos de luxo, com conteúdos de alta qualidade, inexistentes na net e que as pessoas ricas não se importarão de pagar. Nesta luta pela sobrevivência, terão vantagem as instituições com tradição e credibilidade.

Por outro lado, a informação para as massas muda-se de armas e bagagens para os territórios digitais, fragmentando-se em títulos, que vão crescer e multiplicar-se. Quantos mais clics, mais publicidade. Serão organizações ágeis e pequenas, que se movimentam num mercado feroz e muito concorrencial.

Em conclusão, a meu ver, o caso News of the World só veio mostrar que não há uma indústria de imprensa, já existem duas.

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