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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Crónicas do Demo X

Estes são dias propícios a “dar sarrabulho” do grosso. Entre Mira e Deus, entre Deus e eu. E o Mira que foi de vacaciones sem cuidar das questões da euroregião. Foram cinco dias num verdadeiro 31 armado num albergue galaico-duriense. No meio, que não a virtude, uma maravilhosa visita a Ponte da Barca seguida de um almoço supimpa onde não faltaram as vitelas (versão costeleta e naco) regadas a verde branco por via da apresentação do Folk Celta 2011.

 

Agora imaginem o que aconteceu a esta alma caridosa. Entalado, salvo seja, entre o meu cliente e o cliente do meu cliente tão perto estava da galicia e eis que o meu companheiro da destra decide dizer mal dos portuenses. Uma coisa sinistra.

 

- Eu não gosto da malta do Porto. A terra até é agradável, o Porto é bonito. Já o seu povo, não gosto; afirmou o homem entre duas garfadas e um gole de verde.

 

Fiquei sem pinga de sangue. Ao meu lado esquerdo, o meu cliente entupiu esboçando um sorriso de ocasião (a seu lado, a sua colaboradora ria enquanto olhava a minha cara, se bem percebi). Eu estava no ponto. Tal e qual o açúcar a transformar-se em caramelo.

 

- Não gosto. Reparem, eles compram casas velhas em Vilar de Mouros e depois de as recuperarem, viram costas à nossa terra. Fechados entre muros nem na mercearia fazem compras, trazem tudo do Porto. Do Norte shopping; rematou.

 

Eu, portuense de nascimento, fiquei possuído. Olha-me este bacano a generalizar com a mesma facilidade com que engole o muralhas! Eu, filho adoptivo das terras do demo, aqui sentado nesta mesa mirando os novos pinheiros da serra da aldeia de Sendim, vulgo eólicas, que faço compras no el corte inglês de Paredes da Beira, onde a D. Laura nos vende uns queijos frescos que são a inveja da loja gourmet do outro corte do inglês e aqui perdido de amores por estes figos xxl do Toninho de Vale de Penela, sim, eu, que mal fiz a Deus para merecer semelhante afronta? Bem sei, meu caro Deus, que essa coisa dos Galegos do sul foi uma maldade e que o Mira não fez a coisa por menos. Porém…

 

Passei-me. Confesso. Olhei nos olhos do comensal vizinho de circunstância e expliquei-lhe, com subida educação, que as generalizações resultam sempre mal. Que os portuenses, tal como os lisboetas e sem esquecer os nascidos em Ponte da Barca são todos parecidos, a diferença está entre aqueles que beberam chá em pequeninos e aqueles outros cuja chá é parente distante, assim uma espécie de primo afastado, muito afastado.

 

Sem esquecer que o famoso queijo fresco da D. Laura existe e recomendo. Esperando, sinceramente, que lá para os lados de Vilar de Mouros, terra de enorme graciosidade, exista uma qualquer D. Laura com o mesmo saber e esmero.

 

 

Vale de Penela, 17 de Julho de 2011