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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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As dúvidas de Agosto

Sem querer interferir no debate entre Ricardo VicenteVasco Campilho, um pouco mais abaixo neste blogue, julgo que a Europa enfrenta a sua hora decisiva, para mais num contexto de crise iminente também nos Estados Unidos. Este comentário no Financial Times é preocupante e deve ser lido com atenção.

Segundo as interpretações dominantes na imprensa, ainda não estamos na situação que levou aos canhões de Agosto, o esplêndido suicídio da Europa em 1914, mas há elementos semelhantes, desde a má interpretação dos factos à lentidão na reacção, passando pela cedência ao sentimento da opinião pública. Nas semanas frenéticas que levaram à Primeira Guerra Mundial, os alemães terão agido na base de um catastrófico erro de cálculo, de que o império britânico ficaria fora do conflito. Agora, a culpa será também alemã, já que Berlim minimiza a dimensão do problema e interpreta mal os sinais da realidade. 

A atitude da opinião pública em 1914, entre o patriótico e o displicente, é descrita num fabuloso romance francês, Os Thibault, de Roger Martin du Gard. O raciocínio frio dos diplomatas tornou-se impossível e os pacifistas foram depressa ultrapassados pelo tumulto da rua.

Ao ler alguns dos comentários sobre a actual crise, ocorrem-me todas estas semelhanças. Claro que desta vez não estamos a falar de uma guerra, mas apenas do que parece ser o iminente colapso de uma determinada ordem europeia.

 

Das interpretações que tenho lido sobre este verão, sobretudo em jornais económicos, surge a tese frequente de que os políticos europeus estão a avaliar mal os mercados financeiros. Jean-Claude Trichet surge nestes textos como um sábio que tenta travar a teimosia alemã da senhora Angela Merkel. Por outro lado, Silvio Berlusconi, na sua habitual inabilidade, colocou a Itália em perigo, ao gozar (literalmente) com o sábio Giulio Tremonti, o seu ministro das finanças. Berlusconi e Merkel cometeram ambos o incrível erro de cálculo de dizerem em público que devia ser a política a comandar as soluções, e não as finanças. Merkel teve uma frase também muito criticada (tendo os seus conselheiros divididos em duas metades, prefere esperar mais um pouco para escolher uma das duas vias). 

Confesso não perceber muito bem estas críticas. Merkel responde perante os eleitores alemães e o seu parlamento.  E é muito evidente que a Alemanha tem outros países a apoiarem as suas posições contra, por exemplo, os eurobonds. Este mecanismo seria óptimo para Portugal, mas claramente prejudicial para os contribuintes alemães, holandeses, austríacos, finlandeses. E aqueles que acreditam que o governo português pode ir a Bruxelas bater o pé e fazer alianças com outros endividados, parecem não perceber os mecanismos de poder na UE.

Enfim, sobretudo não entendo a razão pela qual devem ser os contribuintes europeus os únicos a pagar esta crise.

 

A tese dominante, em comentários de jornais e televisões, é a de que a Europa enfrenta um dilema entre federalização da moeda única e colapso da zona euro. As abordagens intermédias que foram ensaiadas estão condenadas ao fracasso e isso aplica-se à mais recente ideia defendida pela França e Alemanha, a de se estabelecer um acordo com bancos europeus para que estes aceitem de forma voluntária suavizar o peso da dívida grega, aceitando algum prejuízo. As agências de notação ameaçaram de imediato decretar o incumprimento da Grécia e o Banco Central Europeu recusa acompanhar financiar os bancos gregos se houver incumprimento. Em resumo, a Grécia não consegue pagar a sua dívida com as actuais taxas de juro e as agências de notação dão nota de lixo; mas se essa dívida diminuir por acordo voluntário dos credores, não há nota de lixo, mas incumprimento.

Os mercados apostam no seguinte resultado: a Grécia pagará a totalidade da dívida ou alguém por ela. A partilha da dívida entre contribuintes e instituições é intolerável. Se Atenas não conseguir pagar, então, em nome da solidariedade europeia e da defesa da moeda única, a dívida grega será assumida pelos contribuintes dos países menos endividados, por exemplo, na forma de eurobonds.

Ora, quando a senhora Merkel diz que isto não é justo, que a decisão final será política e que os bancos têm de pagar a sua quota-parte do prejuízo (quem os mandou especular com dívida soberana?), surgem textos a jurar que a Europa não tem liderança à altura do desafio, que a Alemanha está a deixar cair a Grécia, a arrastar os pés numa questão que já devia estar decidida, e que a chanceler alemã é uma ignorante que não percebe o funcionamento dos mercados.

 

Não digo que isto não seja assim. A liderança europeia não parece particularmente feliz e pode existir profunda incompreensão do funcionamento dos mercados. Da parte da opinião pública, há certamente. O que digo é que esta narrativa tem de ser questionada.

Se houver cimeira europeia na quinta-feira e sair dali um plano para salvar a Grécia, a decisão política final será testada e talvez contrariada pelos mercados, essa misteriosa entidade sem nação, com infinitos poderes e que ninguém elegeu.

Os investidores, obviamente, não querem perder dinheiro esta semana, sobretudo os que estiverem mais expostos às dívidas grega, portuguesa, irlandesa e italiana. A actual fórmula parece conveniente: os gregos podem bem sofrer uma austeridade sem saída, os portugueses e os irlandeses podem fazer sacrifícios, tudo isto é indiferente para os ditos mercados, cujo funcionamento apenas um cínico poderá considerar como irrepreensível.

As vítimas estão presas no labirinto e estes "mercados" sabem bem que os europeus do norte vão pagar a despesa do resgate e que esta terá o valor que eles inscreverem na factura. E se houver mais países para salvar, melhor. Será uma questão dos líderes europeus terem tempo para convencer as respectivas opiniões públicas de que ceder à chantagem é melhor do que perder tudo.

 

Curiosamente, nenhuma das duas opções dadas como inevitáveis parece possível. Nem a federalização nem o colapso do euro. A federalização da zona euro não passa de uma quimera. Nada disso consta nos tratados e refazer a arquitectura da UE simplesmente não é viável a curto prazo. Bastam 30 segundos de análise para perceber que países como França ou Alemanha não têm nos seus planos a obediência a um ministro das finanças europeu (eleito por 27, por 17?) que impeça uma determinada despesa aprovada pelos parlamentos. Bruxelas a explicar aos alemães como vão organizar o seu orçamento, alguém consegue imaginar o cenário? O princípio da subsidariedade completamente enterrado? E tudo feito sem consulta aos eleitores? E como se avança para uma hipótese destas sem cobrança de impostos?

[Uma nota: já começou a discussão das perspectivas financeiras entre 2014 e 2020. Adivinham-se discussões ferozes no próximo ano e os contribuintes líquidos não querem passar de 1% do PIB, nem sequer um cêntimo a mais].

O colapso da moeda única era um filme de terror. Complicações técnicas e legais, o fim do mercado único, milhões de desempregados. A saída de um ou dois países era já uma complicação intragável e um super-euro sem os cábulas também não parece viável, pois segundo os tratados é mais fácil sair da União Europeia do que sair do euro. Mantinha-se a questão: moeda única com 14 ou 15 países bons alunos teria um deles mais endividado do que os outros e, portanto, mais vulnerável. Sem as garantias dadas por instituições federais, há sempre um lanterna vermelha, por muito bom que seja o pelotão.

 

Enfim, podemos estar a assistir a um verão recheado de erros políticos que nos conduza directamente a mais um esplêndido suicídio europeu. Mas julgo que o que está em causa, por estes dias, é saber se as democracias conseguem ou não resistir à ganância e à estupidez dos mercados sem regulação. A Europa parece estar entre um lugar afiado e um lugar duro, mas não deve ceder a uma perspectiva muito pior, a de se deixar dominar pelo medo puro, pois é esse que conduz aos piores desastres.

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