Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Eurobonds: resposta à resposta à resposta... (please bear with us).

Caro Ricardo, desde já o meu obrigado por retirares alguns minutos das tuas férias para trocar umas bolas comigo sobre bonds, euros e eurobonds. Agradecimento naturalmente extensível a quem nos lê: gabo-vos a paciência. Now to business:

 

Sobre a natureza dos eurobonds, dizes que "têm toda a aparência de serem um plano pelo menos tão bom como as alternativas para levar a cabo um default parcial e selectivo de forma amigável ". Terão, mas parafraseando um recente cartaz eleitoral, os eurobonds não são isso nem têm de ser isso. Penso, como tu, que a reestruturação ordeira da dívida dos países em assistência financeira terá que ser feita mais tarde ou mais cedo. Sei que debt swaps ou buy-backs apoiados pelo FEEF ou por uma futura Agência Europeia de Dívida são a forma mais pragmática de o fazer sem causar turbulências incontroláveis. Mas não esqueço que a mutualização de um volume de dívida pública entre 40 a 60% do PIB dos Estados participantes tem efeitos que vão muito além disso. Entre estes avultam o efeito de liquidez que reduzirá a factura total de juros a pagar, bem como a criação de incentivos económicos para que o Pacto de Estabilidade e Crescimento possa finalmente ser levado a sério. Eurobonds não é só resolver um problema de sustentabilidade de alguns países - é alterar profundamente o quadro da governação da zona euro.

 

Dizes também que "há aqui [nos eurobonds?] um certo elemento de chantagem que só pode ser classificado de uma maneira: default. Ou compras eurobonds, trocando com desconto as bonds nacionais, ou ficas com as bonds nacionais e perdes dinheiro". Não entendo o raciocínio: refinanciar a dívida chegada à maturidade ou aproveitar a disponibilidade de um crédito mais favorável para recomprar títulos emitidos com um juro mais caro a valor de mercado é tudo menos incumprimento. E se alguém comprar hoje dívida nacional abaixo do seu valor facial e a mantiver até à maturidade, perderá dinheiro? Só em caso de incumprimento. Senão ganha, e muito.

 

Quanto à joint and several liability: achas pouco credível que os países europeus se entendam sobre este ponto. Concedo. Poderá haver outras formas jurídicas de garantir os eurobonds (a imaginação não tem limites, basta olhar para a estrutura de garantias do FEEF), mas uma coisa é certa: ou a garantia solidária é assumida politicamente, ou então não há eurobonds. Mas o ponto em que estamos é justamente o de que a garantia solidária está já assumida politicamente; de outra forma não se estaria a fazer tudo para evitar um evento de crédito (leia-se: incumprimento) na Grécia. Os eurobonds são apenas uma forma mais clara e eficaz de assumir essa garantia até ao tecto de 40 a 60% do PIB dos Estados participantes. A partir daí cada um que se amanhe - é justamente esta parte do plano que me começa a parecer um pouco ultrapassada pela realidade.

 

Acabo no ponto em que começas: duvidas que o capping da dívida a financiar por eurobonds venha a ser respeitado. Imagino que essa dúvida tem a ver com o desrespeito generalizado pelas regras do Pacto de Estabilidade e Crescimento que limitam o défice a 3% e a dívida pública a 60% do PIB. Mas a analogia não se aplica: as instituições europeias podem ter dificuldade em fiscalizar os Estados-membros, mas os Estados-membros nunca tiveram pruridos em fiscalizar as instituições europeias. Da mesma forma que nunca um orçamento europeu deu buraco e que os tectos financeiros da UE têm vindo a ser sucessivamente diminuídos, não vejo quaisquer condições para que uma agência europeia pudesse emitir mais dívida em nome dos Estados do que aquela que estes autorizassem.

 

Como bónus para quem nos aturou, deixo aqui uma foto da última Miss Europa, Alexandra Rosenfeld.

 

 

 

P.S.: afinal, deixa-me acabar antes no ponto em que acabas. Concordo plenamente que se a Itália e/ou a Espanha se revelarem insolventes a Europa fica num grande sarilho, eurobonds ou não. O reflexo que esse sarilho possa ter no rating dos eurobonds é a menor das minhas preocupações, mas com seniority, capping e garantia solidária, estimo que esse reflexo seja negligenciável. Por outro lado, acredito que a introdução dos eurobonds (acompanhada por um reforço da supervisão multilateral, etc., que isto não é para ajudar ao forrobodó) ajudará a evitar a dita insolvência. Resumindo: mais vale prevenir (com eurobonds) do que remediar (com impossíveis bailouts ou catastróficos incumprimentos).