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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Obedece quem deve

Eduardo Pitta escreve este texto em Da Literatura. Parece que, afinal, o actual governo já não chega à Páscoa, acaba antes do fim do ano. Substituído não se sabe bem por quem.

Eduardo Pitta esquece que foram os socialistas liderados por José Sócrates que puseram o País nesta situação e foi o anterior governo, tão elogiado pelo autor, que nos mentiu sempre. Não tenho nada contra a amnésia, sobretudo tão precoce, mas não vejo motivos para estarmos satisfeitos com a calamidade.

 

Como explicam alguns especialistas, incluindo neste blogue, a notação que foi dada a Portugal não é apenas técnica, é sobretudo política. Ela visa criar um ambiente de pressão sobre os líderes europeus, para que estes tomem a decisão mais conveniente para os investidores que pretendem ganhar biliões na aposta que fizeram da bancarrota grega. No caminho trucidam os bancos gregos, levam a população à penúria e arrastam outros países europeus, incluindo Portugal. Tanto faz para eles, o capitalismo financeiro que triunfou na civilização ocidental é mesmo assim, desmiolado e anónimo, sem rosto e sem nação. O Golem está desregulado, mas não é um problema só nosso.

Tentando um panorama mais abrangente, os factos parecem ser estes: os EUA e a Europa enfrentam uma brutal crise de endividamento, sobretudo a economia americana, cuja dívida pública compara com a portuguesa (em proporção). Por outro lado, os líderes políticos americanos e europeus não se entendem sobre as soluções para resolver os problemas internos, isto por razões diferentes. Nos EUA está a crescer o fenómeno populista (e extremamente inquietante) do chamado Tea Party, um movimento que condiciona as posições dos republicanos, impedindo a própria negociação do orçamento.

Na Europa, a questão de raiz é o erro de concepção da moeda única e o laxismo com que se permitiu o endividamento de alguns Estados membros, incluindo Portugal. As soluções são federais, o que não agrada a ninguém. O euro é obviamente um rival do dólar e há gigantescos interesses financeiros em jogo. No ambiente de crise global decorre ainda intensa competição entre moedas de vários países, num contexto multipolar e altamente instável de emergência de novas potências, sobretudo a China, que é vista com grande desconfiança pelos restantes jogadores. Portugal, nisto tudo, é a vítima que se pôs a jeito.

Existe outra interpretação, mais preocupante, segundo a qual a crise das dívidas é a ponta de um icebergue. Debaixo das águas, esconde-se um problema maior que pode levar o sistema financeiro global ao naufrágio.

 

Do ponto de vista europeu, julgo que esta crise é a mais importante da História da UE. Vai provavelmente definir se a organização sobrevive como jogador internacional. Quero dizer: o euro está verdadeiramente sob ameaça e há cenários tão diferentes como, por exemplo, a saída de cinco ou seis países da moeda única ou o seu alargamento a mais uma dúzia. Na pior das hipóteses, a moeda europeia vai desaparecer e a UE torna-se uma entidade irrelevante, pois sem uma moeda única não há mercado único e apenas iniciativas intergovernamentais limitadas. A pouco e pouco, os países europeus iam divergindo e nas nossas velhices olharíamos com nostalgia para aquele tempo em que passávamos as fronteiras sem passaporte.

O problema, a meu ver, nem é tanto a qualidade das lideranças (que não é famosa), mas a forma como os líderes europeus têm as mãos atadas. Não podem avançar para a federalização do euro, pois isso seria inaceitável para a sua opinião pública; não podem deixar cair a Grécia, pois isso seria iniciar um efeito dominó interminável, que comprometeria a solidez da própria UE.

A ameaça feita por uma agência de notação de considerar como "default selectivo" a possibilidade do sector privado aceitar ajudar no resgate grego foi uma humilhação inaceitável para os europeus e obriga os líderes a pensarem num plano mais eficaz. A passagem das medidas de austeridade no parlamento grego e a consequente aprovação do segundo pacote de ajuda dão espaço para respirar até princípio do próximo ano.

Sem margem de manobra por erros anteriores e transformado no peão involuntário de um conflito mais vasto, Portugal tem de demonstrar que é capaz de cumprir o acordo da troika e introduzir as reformas estruturais que nos são exigidas. É o que fazem os países que estão sob protecção estrangeira e que não têm verdadeira autonomia: citando Salazar, "manda quem pode, obedece quem deve"*.

 

*Esta citação está obviamente tirada do contexto original. Salazar referia-se a algo de muito diferente...

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