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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Carta a Guilherme, escrita e publicada ainda no século XX

 

De todos os ministros do presente governo de Portugal, aquele com quem mais coincido, no plano dos valores, do companheirismo de geração e dos combates comuns, é, sem sombra de ironia, o cidadão Guilherme d’Oliveira Martins. Assim, porque sei das crenças, da autenticidade, do imenso saber, da paixão como professor e da hiper-informação do actual Ministro da Educação, sinto-me no dever de proclamar, quase à maneira de Guerra Junqueiro, que o nosso sistema educativo, caso se mantenha a actual entropia e o consequente lixo não incinerado, corre o risco de só poder dar alguma luz quando arder. E sempre convinha não continuar a dizer que, em Portugal, o importante não é ser ministro, é tê-lo sido...

 

E isto por uma óbvia razão: as adiposidades do comunismo burocrático da 5 de Outubro, esse inferno dos aparelhos inventados para o cumprimento das boas intenções dos nossos educacionólogos, avaliólogos e outros ornitólogos, continua a pautar-se por um dicionário autista, incapaz de se relacionar com o concreto das circunstâncias da vida e de servir os valores a que diz obedecer.

 

A culpa, apesar de não ter que morrer solteira, também não está, por inteiro, no Professor Veiga Simão, no Engenheiro Roberto Carneiro, no Doutor Marçal Grilo e em toda essa honrosa nomenclatura de reformadores, tão magnificamente sustentada pela excelência dos construtivistas vindos da Universidade de Lourenço Marques e que, como lobby reitoral, se fundacionaram misticamente, confundindo o público com o privado, para destruírem o privado que com ele não privatiza, ou que a ele não vai recorrer depois de, também por ele, ser entrameado, de acordo com a regra do pirómano bombeiro.

 

Metaforizando, direi que a culpa está no educacionês que nos impede de dizer que o rei vai nu, e que, fábula por fábula, continua a a esgrimir os argumentos do velho, do rapaz e do burro, de tal maneira que o dito burro acaba por ser menos burro que todos os que lhe chamam burro, enquanto os velhos continuam a pensar que são rapazes e o rapazes, apesar da idade, são, talvez, mais velhos que os velhos, não sabendo que só é novo aquilo que se esqueceu e que o antigo é o moderno, de que o moderno há-de ser antigo, para vieirizarmos um pouco, nestes tempos em que os modernistas já são todos pós-modernos e os reaccionários pensam que são reformadores.

 

Com efeito, o sistema educativo insiste em laborar no preconceito que, já nos anos setenta, foi denunciado pelo meu querido Professor Guilherme Braga da Cruz: menospreza as virtudes da verdadeira sabedoria científica, esse espaço de conhecimento situado entre a metafísica e o bem senso, e, por isso, usa e abusa da hiper-departamentalização educativa, gerando inúmeros especialistas em casca de árvores que não conseguem compreender a floresta, com o consequente vazio de cultura geral e de senso comum.

 

Se já tínhamos os educacionólogos, esses especialistas no cartesiano despedaçar da boneca, mas que, de análise em análise, nem sequer a essência do todo conseguem intuir, eis que, mais recentemente, inventámos os avaliólogos, abstractas entidades do mesmo género avícola, herdeiras do nosso ancestral inquisitorialismo, que, utilizando a técnica do pombalismo, do miguelismo, do devorismo, do positivismo, dos salazarentos e do gonçalvismo, por enquanto ainda sem cacete, se entretêm a escrever vários capítulos de uma nova Dedução Cronológica e Analítica, onde, apesar de não ousarem o estabelecimento de um novo livro único, invocam sacrossantos paradigmas ultrapassados, não percebendo que só é moda aquilo que passa de moda e não sabendo o que são revoluções científicas, conforme o manifesto do Thomas Kuhn.

 

Porque os nomes nunca conseguiram fazer a coisa, eis que o hábito de reformador, mesmo que usado por um revolucionário arrependido, não gera, por si mesmo, o monge criador da ratio studiorum. E isto, para não falarmos nas fundacionais nomeações das comissões avaliadoras, onde, desrespeitando-se frontalmente o princípio da imparcialidade, se arregimentam os filiados duma facção científica dominante em certas escolas, para, nas conclusões do relatório, se elogiarem mutuamente os seguidores da regra carneiral e se perseguirem os concorrentes, eliminando o direito à diferença e a liberdade de ensinar e aprender fora da cartilha do educationally correct dos novos e iluminados candidatos a saneadores.

 

Porque o segredo de seita ainda não é segredo de Estado, talvez não seja inconveniente perguntar se vale a pena sermos dominados pela geração dos doctorats de troisième cycle do Mai 68 e das passagens administrativas, que, muito carrilhamente, nos querem transformar no caixote de lixo das revoluções perdidas. Se, ao menos, lessem o que vem dizendo Luc Ferry...

 

Liberalmente, direi que, com estes especialistas em sucessivas derrotas, o sistema não merece os custos que actualmente são suportados pelos contribuintes. Aliás, os educacionólogos criaram não sei quantos ministérios dentro do mesmo ministério, com uma série de círculos concêntricos de lobbies, onde, num piso, estãos os fiéis dos ministros reformadores já reformados; noutro, os devotos de certas maçonarias; mais adiante, os seguidores de algumas sacristias; depois, os comunistas, os laranjinhas, os cor de rosa e eventualmente um ou outro CDS, não excluindo os avençados e os quadros técnicos com escolares médias de suficiente-menos, convidados para professores das escolas que podem vasculhar.

 

Por seu lado, os avaliólogos, também marcados pela mesma tentação burocrática, estão a gerar uma espécie de contra-ministério só aparentemente colaborador do actual, onde abundam jubilados, reitores aposentados e políticos que querem ser pares vitalícios, os quais, depois de falharem como reformadores e gestores de universidades privadas, são agora chamados para, muito retroactivamente, mas sem feedback, avaliarem o que, antes, deformaram.

 

Todos estão irmanados pela legitimidade da simples nomeação política centralista, assumindo a mera dimensão decretina. E muito positivisticamente, cumprindo o plano da revolution d’en haut, vão nomeando, de cima para baixo, os seus hierarcas, cobrindo gnosticamente, com o manto diáfano da ciência e da tecnoburrocracia (sic), meras decisões políticas e até de vindictas carreirísticas, mas sem que assumam a responsabilidade política dos que são eleitos.

 

E tudo vão colorindo com o sofisma provinciano e terceiromundista dos convites a peritos ditos internacionais que nos países donde são provenientes ninguém conhece. Essa fauna ornitológica, além de cara e inútil, começa a ameaçar a essência da chamada autonomia das escolas e a experiência viva dos professores que professam e ainda contactam directamente com a vida.

 

Se não invertermos o rumo do neomarcelismo que confunde terceira via com terceira idade e persiste em semear fantasmas, teias de aranha e gerontocracia na 5 de Outubro; se continuarmos a ter saudades do ministro Sottomayor Cardia e pena que António Barreto não se tenha guterrizado, só poderá haver uma saída para a autofagia: extinguir o actual Ministério da Educação.

 

Para que o sistema educativo continue aberto para baixo e para cima, para a realidade e para os valores; para que o ministério cumpra a sua paixão; e para que o cidadão Guilherme d’Oliveira Martins possa vencer a frustração de António Sérgio, basta que, com o conhecimento modesto de coisas supremas, se abram as janelas da descentralização e da devolução de poderes, mesmo que haja correntes de ar e algumas constipações.

 

Como diria Frei Bartolomeu dos Mártires em Trento: excelentíssimos e reverendíssimos reformadores, precisais de uma excelentíssima e reverendísisma reforma!

 

Artiguinho publicado pelo subscritor no "Euronotícias", prevenindo contra a gaguice e conselho-reitorice a que nenhum neoministro até agora se referiu