Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Emoções básicas (7)

O fim da revolução
Muitos comentadores não esconderam a sua tristeza em relação aos resultados das presidenciais ucranianas, que deram a vitória ao pró-russo Viktor Ianukovitch. O presidente eleito é o mesmo que vencera em 2004, em eleições irregulares que originaram um movimento político conhecido por “revolução laranja”.  Na altura, houve uma terceira volta e Ianukovitch perdeu. Desta vez, a sua rival reformista, Iulia Timochenko, ainda ensaiou um protesto, mas entretanto já admitiu a derrota. O veredicto popular foi assim confirmado em eleições democráticas, o que não impediu a contraditória tese “do fim da revolução”. Por exemplo, o conhecido autor americano Francis Fukuyama escrevia em The Spectator que este era um sinal do recuo das democracias. É um artigo que vale a pena ler.

 

Oligarquias
Tenho dúvidas sobre a interpretação de Fukuyama, que mistura países diferentes e, acima de tudo, parece não ver que esta “democracia” ucraniana nunca existiu fora do papel. Um sistema minado pela corrupção dificilmente se pode considerar democrático; e as diferenças sociais de que fala o autor não foram consequência da introdução da economia de mercado, mas pelo contrário, da ascensão de uma classe empresarial (incluindo Timochenko) com extensas ligações ao antigo regime. Estas pessoas apropriaram-se de bens públicos, em privatizações fictícias, comandadas por grupos de poder, oligarquias. A Ucrânia tem duas complicações adicionais: um vasto número de emigrantes na Europa Ocidental e divisões étnico-linguísticas que deram neste resultado: vejam o mapa assustador, que se repete em cada nova eleição; basicamente, o país está dividido em dois. A amarelo, as regiões onde ganhou a reformista Timochenko; a azul, as vitórias de Ianukovitch.
 A Ucrânia é hoje mais democrática do que seria sem a revolução laranja, sendo provável que haja redução dessas liberdades no futuro próximo, por exemplo, mais controlo na imprensa. Mas muitos comentadores, ao meterem tudo no mesmo saco, perdem a noção de que a transição dos países socialistas do leste seria sempre mais lenta do que Fukuyama admitiu em 1989, com a sua famosa tese do fim da história.
A região da antiga Cortina de Ferro atravessa ainda um período a que podemos chamar de pós-comunismo, caracterizada pela reciclagem dos antigos partidos comunistas (que geralmente mudaram de nome), pela introdução do capitalismo e rápida adesão europeia. Os antigos membros do aparelho viraram a casaca e adaptaram-se aos novos tempos. Não era possível afastar toda a gente dos seus cargos; havia milhares de pessoas que tinham colaborado com o regime comunista ou que, no mínimo, tinham fechado os olhos e vivido a sua vida. Estes regimes não eram uma ditadura de uma pequena minoria, mas sistemas políticos complexos, cujas instituições não podiam desaparecer de um dia para o outro.

 

Pós-comunismo
Há eleições livres e descontentamento, mas existe outro padrão: o pós-comunismo está a acabar na Polónia e na Hungria, em breve na República Checa. Estes três são os países mais avançados na transição, pois eram também os mais ocidentalizados em 1989. Todos eles tinham anteriores experiências democráticas, forte identidade nacional, elites muito ocidentalizadas. Na Polónia, o partido reciclado esteve no poder e acabou cilindrado nas urnas e o mesmo deverá suceder aos socialistas húngaros dentro de dois meses: há mais de um ano que as sondagens dão dois terços do eleitorado aos conservadores e a grande incógnita será o comportamento de um partido da extrema-direita, que apareceu do nada e de forma estranha.
A ascensão de gerações políticas que nada têm a ver com o passado será um processo lento e difícil; um verdadeiro conflito de gerações. A democratização também avançará na Rússia ou na Ucrânia, mas o processo será mais lento. A Rússia foi humilhada durante a experiência de capitalismo selvagem que fragmentou o seu império; a Ucrânia procura ainda construir a sua identidade.
 

3 comentários

Comentar post