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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Uma crise em crescendo

A crise da dívida soberana, previsível desde 2008 e visível desde o início de 2010, tem evoluído de forma extremamente preocupante. Embora os seus contornos já incluam países não europeus, o facto é que é na Europa que o problema tem vindo a atingir proporções mais relevantes e ameaçadoras. Para além das responsabilidades dos diferentes Estados-membros, há lições colectivas que a Europa não pode deixar de retirar.

 

A primeira é que a supervisão multilateral da zona euro falhou. Não só a aplicação do Pacto de Estabilidade e Crescimento foi pouco rigorosa (na avaliação dos défices e dívidas dos diferentes países deixaram-se de fora responsabilidades que se sabia serem, em última instância, dos vários Tesouros, nomeadamente em empresas públicas e parcerias) como perdeu credibilidade quando, perante os problemas da Alemanha e da França em 2003, se decidiu aligeirar os requisitos originais. De facto, e para além disso, a Comissão e o Eurostat não tiveram a liberdade necessária na avaliação da verdadeira situação das finanças e das economias dos vários membros da moeda única. Como consequência, o conselho Europeu nunca tratou a fundo dos problemas nem pode ter uma verdadeira acção sobre diferentes países, quer profiláctica quer, sobretudo, preventiva.

 

Em segundo lugar, sabia-se desde o início, que a criação de uma verdadeira zona monetária na Europa, implicava uma muito maior flexibilidade nos mercados de produtos e factores, com incremento da concorrência e das transacções económicas entre as diferentes regiões da zona monetária. Tal deveria ter conduzido a verdadeiras reformas estruturais nos diferentes Estados-membros. Não só tal não foi feito como a sua monitorização e supervisão foram frouxas, ainda que todos os anos cada país tivesse de reportar a evolução e os progressos dos respectivos programas de reformas e ajuda estrutural. Mais uma vez, também aqui, a supervisão multilateral falhou.

 

Finalmente, de acordo com a visão que prevaleceu no seio do sistema europeu de bancos centrais e que em Portugal fez doutrina até há pouco tempo, foram negligenciados os desequilíbrios externos dentro da União, com particular ênfase para o acumular das dívidas externas dos países ditos periféricos.  Com mercados de crédito segmentados e com a baixa poupança interna que alguns destes têm vindo a registar (Portugal, Grécia e Espanha) a crise das dívidas soberanas acentuou a pressão sobre o financiamento das respectivas economias (e não apenas o financiamento dos respectivos estados). Parafraseando um antigo responsável português, é claro que “Portugal não é o Mississipi”: Portugal é hoje um país com dificuldade em financiar tanto a sua administração pública quanto a sua economia.

 

No momento actual, com as dificuldades orçamentais dos Estados Unidos, as perspectivas de arrefecimento brusco da economia chinesa e a dificuldade em que a Europa estabeleça uma estratégia consistente para sair da crise, as perspectivas são muito cinzentas. Portugal tem de cumprir o que se comprometeu a fazer, mas tal é apenas uma condição necessária, não suficiente, para que possamos sair incólumes do problema que todos criámos.

 

Para começar, era bom que a comunicação política no centro da Europa melhorasse. Em concreto, na Alemanha, não se trata de escolher entre ser mais solidário ou menos solidário com os países em dificuldades. Trata-se, de facto, de escolher entre ajudar os países em dificuldade ou capitalizar (ajudar) os bancos alemães. A senhora Merkel sabe-o. Saberá também porque é que não o diz claramente aos seus compatriotas. Seria um bom começo no caminho para encontrar uma saída credível para a crise.

 

amanhã no SOL

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