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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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PS: não saber perder

 

Dois artigos de opinião publicados esta segunda-feira na imprensa diária revelam que os socialistas estão a digerir da pior maneira a pesada derrota eleitoral do partido nas legislativas de domingo. Vale a pena comentá-los, um de maneira sucinta outro com um pouco mais de atenção.

 

I

O primeiro artigo, de Alfredo Barroso, intitula-se "Uma esquerda à deriva" e foi publicado no i. Ao contrário do que o título indica, nele é mínimo o apontar de responsabilidades a José Sócrates no desastroso resultado eleitoral e na calamitosa situação do País: Barroso dispara preferencialmente contra o BE e o PCP por terem contribuído para o "derrube do governo do PS". Escamoteando que esse facto permitiu apurar nas urnas que os portugueses já não se sentiam representados num Parlamento dominado pelos socialistas. Exactamente como quando Mário Soares decidiu dissolver a Assembleia da República em 1987, escassos dois anos após as anteriores legislativas, abrindo caminho à primeira maioria absoluta do PSD.

Além da questão da substância, há a questão do estilo: o incontido azedume do articulista do i contra o vencedor destas legislativas, seu rival político, é tão óbvio que nem consegue tratá-lo pelo nome: chama-lhe, reparem bem na elegância, "o discípulo do engenheiro Ângelo Correia que nos coube em sorte".

Um primor de nível, sem dúvida.

 

II

O segundo artigo é de Vital Moreira e saiu no Público, sob o título "O que fica". Fiel ao seu estilo, o professor de Coimbra faz o balanço da derrota socialista deixando-a afinal por explicar. Porque o cenário que descreve deste finado Portugal de Sócrates assemelha-se muito ao país das maravilhas.

"Se, por causa da crise e dos seus devastadores efeitos, não temos um país mais próspero, temos seguramente um Estado mais eficiente e uma sociedade mais livre e mais decente. (...) O que avulta é o profundo espírito de modernização da sociedade e do País e de valorização do capital humano e material, que inspirou tanto as reformas das relações de família com as políticas sociais (na educação, de saúde e de segurança social), bem como as orientações no campo da economia e das infra-estruturas materiais."

Desemprego? Nem uma linha. A segunda maior vaga de emigração das últimas oito décadas, que vai afastando os nossos melhores? Nem a menor referência. Responsabilidade directa de José Sócrates no descalabro a que chegámos? Nem por sombras. Sobra apenas um longo panegírico, na linha de tantos outros a que Vital Moreira nos habituou.

Repare-se nestas linhas sobre um cenário virtuoso mas inexistente:

"Nunca se tinha sido tão ambicioso no aprofundamento e na busca de sustentabilidade do Estado Social, na reforma do sistema de pensões, no alargamento e racionalização do SNS, na valorização e qualificação da escola pública, no alargamento do sistema de protecção social, incluindo no combate à pobreza. (...) Decididamente, temos agora uma economia mais apetrechada para a competitividade."

Com textos como este, jamais o PS analisará e compreenderá os motivos da derrota. Esta complacência perante os erros próprios é, aliás, um dos motivos por que o partido chegou ao lamentável estado em que se encontra.

4 comentários

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    Pedro Correia 09.06.2011 10:10

    Caro Joaquim: neste artigo, Alfredo Barroso critica (por ordem de entrada em cena) Francisco Louçã (duas vezes), Jerónimo de Sousa (duas vezes), Teixeira dos Santos (pela sua "incapacidade de previsão"), a "patética Aiveca" (Mariana Aiveca, do BE), Ana Drago, Cavaco Silva, Eduardo Catroga, Leite de Campos e o "discípulo do engenheiro Ângelo Correia". Sócrates é brindado com dois elogios e uma crítica enquanto secretário-geral do PS ("Tal como Cavaco durante os dez anos em que chefiou o PPD, também Sócrates se comportou, no PS, como um eucalipto que seca tudo à sua volta").
    Chama-se a isto olhar para a árvore e não ver a floresta. Se entendes que artigos como este ajudam o PS a sair do estado calamitoso a que chegou por incapacidade de Sócrates - que fez o partido recuar de 45% em 2005 para 28% em 2011 - por mim acho muito bem. O que escrevi sobre as eleições de 2009 e após esse escrutínio está documentado na Net: quem quiser que consulte. As críticas que fiz a Sócrates centraram-se, fundamentalmente, no programa fraudulento que apresentou nessas legislativas - e que o eleitorado português agora julgou de forma inequívoca.
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    Joaquim Camacho 10.06.2011 05:48

    Só mais uma achega. Dizes tu que "as críticas que fiz a Sócrates centraram-se, fundamentalmente, no programa fraudulento que apresentou nessas legislativas [de 2009]".
    Programa fraudulento? Francamente, caro Pedro Correia, achas tu que o Sócrates não estava perfeitamente convencido de que conseguia concretizar esse programa? Fraude implica intenção de defraudar, de enganar, e eu penso que o Sócrates acreditava piamente, entre muitas outras coisas, que ia criar 150 mil empregos e outras maravilhas que foram pelo cano abaixo das boas intenções que enchem o inferno!
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    Pedro Correia 10.06.2011 14:00

    Caro Joaquim: a esta pergunta posso responder. Os factos falam por si. O programa de 'reforço do investimento público', de lançamento das grandes-infra-estruturas e de aumento dos apoios sociais apresentado por Sócrates aos portugueses em Setembro de 2009 era fraudulento. Em alternativa, teríamos de o julgar politicamente, com toda a severidade, por manifesta incompetência. Sabendo-se o que hoje todos sabemos, esse programa era inexequível no próprio momento em que foi lançado.
    Foi por isso - por esta discrepância abissal entre as promessa feitas e as metas alcançadas - que mais de dois terços dos eleitores disseram nas urnas que era hora de Sócrates partir. Não se trata de matéria de opinião, mas de matéria de facto. Este Sócrates de 2011 teve uma votação inferior ao Santana de 2005, o que diz tudo sobre o divórcio que já existia entre ele e os portugueses.
    Quanto à necessidade de o PS se regenerar, começando pelo reconhecimento dos enormes erros cometidos, remeto-te para as palavras sábias - escritas um pouco mais acima - do meu amigo e colega de blogue António Figueira, insuspeito de simpatia política pelo PSD.
    Escreve ele, e muito bem: «Quando, em 2004, o PP espanhol, na sequência do atentado de 11 de Março na Atocha e da gestão mais que lamentável que fez do evento, viu uma vitória que parecia certa esfumar-se, e transformar-se, em meia-dúzia de horas, numa derrota absoluta, aconteceu-lhe ainda, de seguida, uma segunda derrota: porque em vez de se interrogar honestamente sobre o que poderia ter feito de errado, o PP evoluíu para uma posição de ressabiamento e uma pose de "demita-se o povo" que cortou as suas amarras com o real e lhe custou ainda mais anos de oposição do que aqueles que o castigo eleitoral inicialmente lhe impunha; ora o PS, pelo menos até agora, e certamente no futuro, se Assis ganhar, está a desenvolver uma relação com o socratismo que, à sua maneira, é tão autista como a de Aznar.»
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