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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Duelo ao pôr-do-sol

 

Quando o PSD venceu as europeias de Junho de 2009 e adquiriu por via disso um capital político que prontamente desbaratou, vindo a perder as legislativas realizadas três meses depois, Pacheco Pereira publicou um longo artigo no Público e no seu blogue do qual destaco estes excertos:

 

- «Lembro-me dos jornais a colocarem a líder do PSD para baixo ao mais pequeno pretexto, porque cometia gaffes, não ia a comícios, não contratava agências de publicidade, não lia do teleponto e tinha "tabus", ou seja, não dizia as coisas quando eles achavam que deviam ser ditas. Lembro-me do clamor quanto à escolha tardia do candidato, garantia da derrota, e outros clamores que, de novo, o jornalismo de rebanho tornava em evidências onde ninguém parava para pensar, escutar e olhar, só repetia.»

- «O mais interessante era ver os que estavam completamente convencidos de que o PSD nunca ganharia as eleições, e desejando, por pura táctica pessoal que as perdesse, a exigir que as ganhasse, num exercício de má-fé e hipocrisia que acabou por se tornar tão explícito como contraproducente. O ambiente era tão hostil, tão hostil, que de facto deu à vitória um significado interior, para o partido, e para o país, muito difícil de tragar, quer pelos adversários internos de Manuela Ferreira Leite, quer para o PS de José Sócrates. A vitória marca um antes e um depois, e isso mostra que já não se pode pensar as coisas como se pensavam antes e muita táctica, principalmente no PS e no interior do PSD, tornou-se poeira de um dia para o outro.»
- «Para muitos profissionais do aparelho partidário, é mais importante manter o seu próprio poder interno do que ganhar as eleições ao PS e dar um novo governo ao país. Vejo muita gente a tomar por adquirido que o "cheiro do poder" chega para "unir" o PSD. Terá sido assim no passado, não o é certamente no presente, onde é mais relevante controlar as listas de deputados e os equilíbrios de poder entre distritais e dirigentes que se comportam como caciques, do que mudar o país.»

 

Corria o dia 15 de Junho de 2009. O PSD parecia embalado por todas as sondagens para vitórias eleitorais mais vastas. Mas o texto de Pacheco suscitou-me a seguinte reflexão:

 

«Pacheco Pereira, no estilo muito próprio a que já nos habituou, transforma o seu primeiro artigo de 'análise' do pós-europeias num lamentável estendal de ajustes de contas em que não se vislumbra uma só frase sobre a derrota do PS mas sobram parágrafos sobre as questiúnculas intestinas do PSD. Um revelador quadro - admito que a contre-coeur - do que é realmente hoje este partido que aspira a tornar-se governo daqui a poucos meses.

Pacheco investe contra os habituais ódios de estimação, nomeadamente aquilo a que chama 'jornalismo de rebanho'´. Mas investe sobretudo contra os ex-adversários internos de Manuela Ferreira Leite, escamoteando um relevante pormenor: a escassíssima margem de progressão do PSD nestas europeias exige um partido unido, sem fracturas, nos dois próximos actos eleitorais. Exige um partido com o discurso oposto ao de Pacheco.

Será talvez lamentável, pelo menos na óptica de Pacheco Pereira, mas Ferreira Leite não poderá prescindir de Pedro Passos Coelho na lista de candidatos a deputados (talvez até como cabeça de lista num distrito, quem sabe?) nem de Pedro Santana Lopes à frente da corrida para a mais emblemática autarquia do País. Por um motivo simples: no próximo Outono cada voto conta. O de Pacheco conta tanto como o de outro social-democrata qualquer. A menos que prefira levar mais quatro anos com José Sócrates em São Bento, o que lhe deve dar matéria para trinta e sete novos artigos contra o 'jornalismo de rebanho'.»

 

Sabe-se o que sucedeu depois: sucessivos processos de intenção, a exclusão do adversário interno, a fúria quase irracional contra os jornalistas, a disparatada equiparação dos supostos rivais dentro das fronteiras do partido ao influente aparelho socialista. Tudo isto contribuiu em larga escala para dar a vitória a José Sócrates a 27 de Setembro de 2009, tudo isto saiu errado aos sociais-democratas naquele Verão funesto. Pacheco, ao nível do PSD de Manuela Ferreira Leite, comportou-se como Sócrates ao nível do governo: é ainda hoje incapaz de admitir que errou como estratego e conselheiro da então líder. Pelo contrário, nos diversos palcos mediáticos de que dispõe para dar largas às obsessões de sempre, comporta-se como um velho cowboy ansioso por um duelo ao pôr-do-sol. Sem reparar que, no fundo, acaba por disparar apenas contra a própria sombra.

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