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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Um movimento de protesto

Em Espanha, a dias das eleições regionais, estalou um movimento mobilizado pelas redes sociais (Democracia Real, Já, ou 15-M, para abreviar), que encheu as praças centrais de várias cidades com milhares de pessoas em protesto. Este movimento tem carácter populista e é no fundo muito semelhante ao seu homólogo americano, o Tea Party, embora aqui tudo esteja ao contrário na imagem do espelho, recebendo a compreensão da esquerda e a perplexidade da direita.

Nos últimos dias, o PSOE tenta fazer um despudorado aproveitamento destas manifestações e o primeiro-ministro chegou a dizer que se tivesse 25 anos se juntaria ao protesto, como se não tivesse governado a Espanha durante quase oito anos.

Tudo indica que o movimento pacífico estará activo amanhã, dia de reflexão eleitoral, no que equivale a uma verdadeira rebelião.

 

As manifestações consistem num acampamento e têm uma espécie de RGA (lembram-se, na escola, como estas funcionavam?) onde alguns dirigentes improvisados falam, sem que ninguém perceba o que se passa, para aplauso de todos, acabando por serem aprovadas "decisões" onde a massa não teve qualquer participação. Estas reuniões de massas são totalmente controladas por uma minoria muito activa que, a prazo, se fará eleger como representante de todo o protesto.

E o que está a ser aprovado? É tudo muito difuso. Os manifestantes querem impôr uma lei de participação cidadã cujos contornos não se conhecem. Dizem que os votos brancos devem ser contabilizados e que não pode haver candidatos com processos nas listas eleitorais; finalmente, a defesa de mais referendos. Alguns dirigentes dizem que não são "apolíticos, mas apartidários", e o protesto visa claramente os dois maiores partidos, sobretudo o PP, mais à direita, e que deve (devia) vencer as eleições. O argumento principal dos manifestantes é o da "indiferença perante a política".

 

Apesar de ser necessário dar o desconto das tradições anarquistas espanholas, julgo que a natureza profunda do 15-M esconde uma perigosa tendência, cada vez mais visível nas democracias ocidentais: a fragmentação populista. Quando os eleitorados começam a mudar de partido em grandes oscilações, como aconteceu na Finlândia, é tempo para as elites se preocuparem; por outro lado, a minorias activas começam a tomar como refém as organizações; é o que se passa na América, onde a chantagem exercida pela minoria do Tea Party está a impedir o normal funcionamento do Congresso. Como se o Tea Party, que ajudou apenas a eleger seis senadores republicanos e uma dezena de representantes, tivesse ganho as eleições de Novembro. Mas podia dar outros exemplos (Dinamarca, Holanda, França, Itália). A demagogia e o populismo compensam no discurso político, assim como os argumentos anti-capitalistas e a recusa da solidariedade entre países ou entre regiões ou entre classes sociais ou entre gerações. O Tea Party demoniza os europeus; os demagogos europeus fazem o inverso e demonizam a América.

 

Tudo isto, suponho, terá a ver com o medo que domina as sociedades contemporâneas: receio do cataclismo ou premonição da decadência; temor do desemprego e da penúria; pavor da queda social e da exclusão; sobretudo o fantasma do envelhecimento. Num mundo onde se glorifica a juventude, um certo tipo de beleza, onde se combate a cultura e se despreza a inteligência, onde se procura a fama e a riqueza a qualquer preço, as pessoas parecem precisar de novas causas, que estimulem o orgulho de pertencer a algo distinto e vencedor.

É por isso que esta crise, lenta como o esboroar da pedra, é tão diferente da dos anos 30. Então, existiam ideologias rivais, o comunismo e o fascismo. Era um mundo mais nítido. Agora, após a morte das ideologias, num mundo onde os valores são egoístas, é difícil manter a lucidez.  

 

Para mais, a comunicação social (e agora as redes sociais) amplificam estes movimentos de protesto difuso. As redes sociais podem ser úteis para uma democracia, mas também facilitam o populismo. Elas tendem para o vazio de conteúdo e as televisões são hoje dominadas pela ditadura das audiências. Os próprios partidos democráticos já conduzem as suas estratégias levando em conta as sondagens. Não falar disto, não dizer a verdade toda, evitar o tema fracturante que nos faz perder votos. O marketing moderno é a busca daquele imenso território do mínimo denominador comum.

Por tudo isto, acho que os movimentos populistas ao estilo do 15-M estão condenados a crescer e multiplicar-se. A democracia que conhecemos será combatida sobretudo desta forma, a partir do incómodo geral que os povos sentem, uma espécie de comichão superficial que alimenta a sua ansiedade. É ao mesmo tempo contestação das elites e aceitação de uma ordem mais inflexível e menos liberal. As minorias vão impor as suas visões estreitas em referendos, cujas discussões favorecem os que gritam mais alto. Haverá mais proporcionalidade nos votos e, por isso, maior fragmentação de partidos, com instabilidade governativa, liberdade para os grupos de pressão ganharem influência, divisões mais óbvias e profundas entre as pessoas. Os sinais da radicalização do nosso tempo e da doença democrática estão em Madrid. 

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