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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Os fatídicos quarenta

 

 

 

Eu andava a ver se fintava os quarenta. Fui ignorando olimpicamente a passagem do calendário e prolonguei, tanto quanto pude, cada hora do relógio.

 

Mas a verdade é que eles me vieram bater à porta e, dado que a única alternativa que conheço a não fazer quarenta anos não é particularmente convidativa, tive de os deixar entrar.

 

O problema dos quarenta é que marcam uma linha na nossa vida que, apesar de invisível, pesa uma tonelada. É um bocado como a história do mundo antes e depois de Jesus Cristo.

Existe o “antes dos quarenta” e o “depois dos quarenta”. Existe o afirmativo “ela é gira” ao qual, depois dos quarenta, se acrescentam vitalícios prefixos como o “ainda” ou o “apesar de”.

 

Sou, no entanto, uma rapariga pragmática e se, nos iogurtes, é sabido que podemos esticar o prazo por mais uma semana sem a coisa azedar, também na nossa validade há-de ser possível conseguir uma proeza semelhante.

Consolei-me a pensar que em casa do meu irmão há um frasco de canela cujo prazo expirou vai para mais de dois anos e a especiaria teima em se mantêr rigorosamente aromática.

 

De maneira que acordei de manhã com esta vontade de me deixar exalar aromas exóticos por mais um rol de anos. Enfiei-me num vestido igual aos que a Julia Roberts usa no “Comer, Orar e Amar”, na esperança de me conseguir assemelhar à diva e fingir que estou em Bali.

 

Afinal, que raio de diferença poderia haver entre o eu de ontem e o eu de hoje?

 

A meio do pequeno almoço (7.50 a.m.), entra-me pela casa o meu sobrinho Zé Maria, 15 anos, desbocado. “Tiaaaaaa, Parabéeeens” (abraço apertado) “Quantos faz?”. Sem qualquer expressão comprometedora respondo “40”. “”Fooogo tia, isso é mesmo a barreira entre a juventude e a velhice”. Complementou-se a catástrofe com a afirmação “pois, é a barreira entre ser cool e ser cota”.

 

Depois, mediante a minha cara chocada, resolveu acrescentar “deixe lá, tia, não parece nada mais de trinta e tal”.

 

Jurei a mim própria nunca mais dar boleia a este puto para as aulas. Se é para me abrirem os olhos já me chega a consciência. Deixem-me lá ter falta de noção à minha vontade.

 

 

 

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