Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

O fumo que esconde os factos

Não gosto da palavra, mas concordo com o que escreve Henrique Raposo. Nesta pré-campanha, os media estão a ser cúmplices na tentativa de centrar as discussões em pormenores da espuma política. Mas a culpa não é só do "jornalismo" ou de qualquer impreparação dos "jornalistas".

Há algo de errado na sociedade portuguesa, um elemento difícil de definir, mas que me parece ser a incapacidade doentia de encarar a realidade.

A crise económica é, de facto, profunda, e será prolongada como nenhuma antes foi. Não há memória de dez anos de estagnação, seguidos de (vão ser três?) anos de empobrecimento acentuado. A inflação está nos 4% e os salários baixam, o desemprego atingirá em breve 800 mil pessoas. O sistema judicial é um pesadelo, a dívida pública duplicou em seis anos, o fosso entre ricos e pobres aumentou de forma brutal (basta ver a evolução das diferenças salariais dentro das mesmas empresas). Nos bairros mais miseráveis a vida começa a ser insustentável.

Portugal é hoje um país exangue, transformado num protectorado da União Europeia; um país sem expressão, que um anónimo comissário pode tratar com sobranceria; um país de espinha quebrada, que respira de alívio porque o parlamento finlandês decidiu deitar uma moedinha na sua mão estendida. 

 

Podemos perguntar: mas na comunicação social não se fala destas coisas? Sim, claro que se mencionam estes temas. E as pessoas mudam para a novela. Há uma anestesia geral na opinião pública e o jornalismo não é apenas uma causa do alheamento, mas também um sintoma.

O que não desculpa a complacência. E um exemplo desta têm sido os debates sobre os debates, que duram mais tempo de antena do que os debates. Os analistas discorrem sobre a gestualidade dos candidatos, a sua capacidade de comunicar, depois criticam as posições políticas dos candidatos (ele não pensa como eu), explicam a doutrina correcta e, no final, concluem que Sócrates esteve muito bem, convincente, firme, e que os seus adversários estiveram péssimos. A ideia é retirar impacto, dificultar a escolha, diluir a impressão real que o eleitor possa ter tido no jogo a sério. As análises não têm sido jornalísticas e desinteressadas. Um debate pode ser dissecado de forma objectiva, tentando perceber a estratégia e se os objectivos foram atingidos (como o Pedro Correia tem feito neste blogue), mas o que tenho visto nas televisões roça o incrível, havendo até comentadores que colocam na boca dos candidatos opiniões que estes não têm. Há uma assustadora falta de rigor.

 

Esta pré-campanha está a ser particularmente mistificadora. Os propagandistas têm feito enorme esforço para prolongar as conversas da treta. Não convém falar da realidade. O caso da taxa social única ilustra bem os equívocos e a tentativa geral de enganar os eleitores: quem for para o poder terá de baixar essa taxa paga pelos empregadores, pois a isso obriga um compromisso assinado pelos três partidos que podem governar o país. E, no entanto, só um partido, o PSD, assume o compromisso assinado. Apesar de o primeiro-ministro ter sido confrontado com uma óbvia mentira sobre a taxa social única, no debate com Francisco Louçã, durante um dia a comunicação social chutou para canto e discutiu se Louçã citara no debate uma carta ou um memorando (o que não alterava em nada a mentira). Num país a sério, José Sócrates teria perdido ali as eleições.

 

O próximo governo terá de tomar muitas decisões semelhantes à da taxa social única, todas elas impopulares. Mas, por outro lado, é difícil falar verdade; por exemplo, admitir que se vai mexer na lei das rendas, impôr regras aos juízes e aos professores; que haverá menos direitos sociais e que o despedimento será mais fácil. Que acabou a festa (duas equipas na final de uma taça europeia) e muitas empresas acabarão por ser vendidas a capitais estrangeiros.

Cada vez que um político contar a verdade, o seu adversário fará uma berrata para lhe ganhar votos, sabendo que se for ele o eleito terá de fazer exactamente o mesmo. E o excesso de sinceridade sai penalizado pela simples razão de muitos eleitores ainda não estarem a perceber exactamente o que lhes caiu em cima.

Os comentadores servem para acentuar as nuvens de fumo em torno dos factos. Isto é tudo um bocadinho como o Feiticeiro de Oz, uma manipulação sofisticada que cria um mundo de fantasia a cores, pelo menos durante mais um tempo, até ao dia em que poderemos regressar ao preto e branco da nossa pequena depressão.   

 

5 comentários

Comentar post