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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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Legislativas (1)

 

 

DEBATE JERÓNIMO DE SOUSA-PAULO PORTAS

 

Os debates eleitorais para as legislativas de 5 de Junho arrancaram esta noite, na RTP, opondo o secretário-geral do PCP ao presidente do CDS-PP. Foi um bom frente-a-frente: sem chavões nem retórica, sem tempos mortos. Paulo Portas e Jerónimo de Sousa surgiram em estúdio com tácticas opostas: o democrata-cristão emitiu várias declarações de simpatia em relação ao líder comunista, sem retribuição. Começou logo por lhe chamar "meu caro colega", revelou aos telespectadores que ele e Jerónimo se dão "pessoalmente bem" e chegou a lembrar que o seu grupo parlamentar votou favoravelmente uma resolução do PCP contra a degradação do salário mínimo. Prestou até homenagem ao partido da foice do martelo acentuando que "só há dois partidos que falam a sério sobre agricultura na Assembleia da República - o CDS e o PCP."

O secretário-geral comunista optou, pelo contrário, por marcar distâncias: tratou sempre o seu interlocutor por "doutor Paulo Portas" e não tardou a lembrar que o CDS é um dos partidos signatários do recente memorando de entendimento com o Fundo Monetário Internacional, o Banco Central Europeu e a Comissão Europeia. Um acordo que o PCP considera de lesa-pátria. Portas deu-lhe réplica com uma advertência que repetiu quatro vezes e se tornou a frase central do debate: "Não se engane de adversário, Jerónimo de Sousa."

Ambos veteranos de debates eleitorais, Jerónimo e Portas confirmaram méritos anteriormente revelados em televisão. O líder comunista transmite sempre uma imagem de convicção e sinceridade, apesar de não evitar a repetição de clichés discursivos que soam algo estafados - expressões como "um governo patriótico e de esquerda" e "os que menos têm e menos podem". O presidente democrata-cristão tem uma grande destreza argumentativa, bem patente quando rebateu com eficácia as soluções comunistas alternativas ao resgate financeiro de 78 mil milhões de euros, nomeadamente a venda de fundos públicos para comprar dívida pública: "Isso não excederia cinco mil ou seis mil milhões de euros. Portugal precisa quatro vezes mais que isso."

Jerónimo apela sobretudo à consolidação do seu eleitorado clássico, mais envelhecido: "Quem trabalhou uma vida inteira tem direito à sua reforma." A Portas, obviamente embalado pelas boas sondagens, interessa roubar votos tanto a eleitores irritados com a governação socialista como com a inépcia dos sociais-democratas em assumir-se como oposição credível. Lembrou que o seu grupo parlamentar nunca aprovou PEC algum e só deu luz verde ao acordo com a troika por este motivo muito simples: "Já não havia dinheiro para pagar salários e pensões."

O moderador do frente-a-frente, Vítor Gonçalves, é um bom jornalista mas falta-lhe visivelmente rodagem e rotina para uma missão deste género: em certas ocasiões mais parecia estar ali na qualidade de cronometrista. Não havia necessidade: Jerónimo e Portas são dois políticos bem experientes que nunca deixam de ter a lição estudada. Nenhum deles precisa que alguém lhes indique as horas. O líder comunista sabe que é tempo de ajustar contas nas urnas com um Bloco de Esquerda em queda contínua. O dirigente máximo do CDS não tem dúvida de que chegou o momento de regressar ao Governo, seja com quem for. Está escrito nas estrelas e tem data marcada: 5 de Junho, ao cair da noite.

 

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FRASES

Jerónimo - "Este acordo [com o FMI e o BCE] tem a assinatura do CDS para o congelamento dos salários e pensões, e para o aumento das taxas moderadoras. Não dá a cara com a careta."

Portas - "Não se engane de adversário, Jerónimo de Sousa."

Jerónimo - "Como é que os bancos, com mais lucros, pagam metade dos impostos?"

Portas - "Eu não fico parado quando o meu país fica a semanas de não pagar salários e pensões."

Jerónimo - "Há momentos em que é preciso dizer não. Não quisemos passar credencial nem reconhecer legitimidade a quem quis impor condições leoninas à nossa soberania."

Portas - "Quem manda em Portugal é o povo português que vai votar a 5 de Junho."

Jerónimo - "Ó doutor Paulo Portas, aqueles que muito dificilmente chegarão ao Reino dos Céus continuarão a estar no paraíso deixando o inferno à maioria dos portugueses."

Portas - "Eu não sou pela luta de classes. Sou pelo compromisso entre trabalhadores e empregadores."

Jerónimo - "Muitos portugueses sérios não estão no meu partido."

Portas - "Gente séria há em todos os partidos, Jerónimo de Sousa.

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ADENDA

Por curiosidade, recordo o que escrevi sobre o debate Jerónimo-Portas da campanha legislativa de 2009.

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