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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Estou em crer que o melhor é nada saber

 

 

 

 

 

Quando andava pelo Secundário e comecei a ter aulas de filosofia, apaixonei-me primeiro pelos Sofistas, por ser rapaziada dada à treta, e, depois, por Sócrates. Achava graça áquela coisa de ele só saber que nada sabia.

 

Com o passar dos anos e depois de me cruzar com uma data de gente, comecei a perceber a  profundidade da lógica socrática. É simples, no fundo, para chegarmos à conclusão de que não sabemos nada sobre um assunto, temos de já o ter estudado bastante. Quando só temos umas vagas luzes, achamos que tratamos o tema por tu e que aquilo se faz com uma perna às costas.

 

Ora isto vem a propósito de algumas queixas relativamente à minha menor assiduidade na escrita durante os últimos tempos.

 

É certo que ultimamente ando mais afadigada por me ter metido num projecto benemérito, mas o real problema é que fui fazer um curso trimestral de escrita criativa.

 

Depois de anos a ouvir que tinha tanto jeito para escrever, que contava coisas com tanta graça e que era um verdadeiro talento desperdiçado, ingenuamente achei que fazia sentido ir aprofundar conhecimentos para abraçar com devoção os longos braços da literatura.

 

Isto quer dizer que, sem pensar duas vezes, abandonei os sábios conselhos de Daniel H. Pink que, no seu livro “A Nova Inteligência”, nos aconselha a explorar o nosso amadorismo para acordar o hemisfério direito do cérebro, zona onde habitam letargicamente os neurónios criativos.

 

O resultado foi catastrófico porque o raio do curso era mesmo bom. Dotou-me de tal sentido crítico, ensinou-me de tal maneira “como deve ser feito”, que deu cabo desta coisa de escrever ao correr da pena todos os disparates que me passam pela cabeça.

 

Agora, em vez de me sentar a teclar enquanto me escancaro a rir para cima do computador, dou por mim a vociferar “raios, que já meti ali um adjectivo. Deixa-me lá arranjar uma metáfora”, “Corria um rio de lágrimas? Que grande merda de metáfora, já toda a gente leu isto cem vezes. Não, não vou recorrer à Maria Madalena, tenho de explicar como é que a gaja se está a desfazer em agonia de uma forma singular, ou serei eu uma escritora sem voz?”.

 

Mas a tragédia não se fica por aqui. O curso não só me deu cabo da escrita como também me estraçalhou o prazer da leitura. Se antes mergulhava num Michael Cunningam à confiança, agora dou por mim a caçá-lo à passagem por cada parágrafo. “Olha, olha, olha, que diálogo tão comprido. Ó homem, isto é para ser diálogo, narração, diálogo, narração. Como num empadão, estás a ver, Michael? Afinal não percebes nada disto”. E tal é o espírito crítico que começo a ganhar uma embirração letal para com o livro e acabo a história a bufar e a prometer não voltar a ler nada redigido por aquele ignorante.

 

Agora, quando souber de um curso de reparação de danos para pessoas que fizeram cursos de escrita criativa, vou-me inscrever. Pode ser que me consigam apagar alguns dados da memória recente e que, retomando os meus modos amadores, talvez possa um dia aspirar a escritora.