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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

O confradismo avança, com toda a confiança!

Ao contrário do que pensam alguns ingénuos porventura bem-intencionados, o tema do momento, no nosso país, não é a dívida, nem o FMI, ou as eleições: tudo isso é pura conjuntura, poeira dos dias que se esfuma na noite dos tempos. Não: o que marca, o que merece atenção, o que requer estudo, é - como o meu preclaro amigo Zé Aguiar antes dos mais já percebeu - o movimento confrádico nacional. Queixam-se de que não há sociedade civil, de que o país está amorfo, sem reacção à crise? Então ponham os olhos neste espantoso movimento grassroots que, de Tentúgal a Arganil, do Dão à Figueira da Foz, de Vila Cova de Alva a São Martinho da Cortiça, mobiliza espontaneamente tantos e tantos portugueses, em defesa daquilo que lhe é mais querido ao coração, à cabeça e ao estômago, como diria o grande Camilo! Cidadãos e cidadãs anódinos e sem história como que se metamorfoseiam de uma hora para a outra, e eis que uma excelente mãe de família de Tentúgal surge subitamente de capa esvoaçante e se diz Grão-Mestre da Confraria da Doçaria Conventual, enquanto uma outra esposa e mãe extremosa de Arganil enverga num ápice um tricórnio emplumado e se transforma em Mordomo-Mor da Confraria do Bucho da sua terra! Como? Porquê? Tantas perguntas, e ainda tão poucas respostas! E para o cientista político o que mais importa, nesta hora de fim de regime e de necessária renovação institucional, são as novas formas políticas que emergem nestes movimentos de base, o neo-medievalismo, de velha cepa lusitana, a que aludem, e os novos modelos de relacionamento entre os poderes que sugerem, implícitos na reivindicação de soberania, por exemplo, da Ordem dos Cavaleiros-Provadores do Vinho do Dão. Entre vinhos e enchidos, pastéis e muitos outros petiscos, o país ganha um novo élan, um novo colorido, uma aparência mais saudável; dizia-se antigamente da Itália que a sétima economia do mundo sabia crescer apesar do Estado; em Portugal, o país real consegue mesmo viver contra o país oficial - e ficar muito bem almoçado nessa ocorrência.

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