Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

«De Sócrates a Passos»

O que impressiona tanta gente em Sócrates é que ele está no Governo. Tirem-lhe isso no dia 5 de Junho, e terão menos que admirar. O que impede outra tanta gente de se espantar com Passos é que ele ainda não está no Governo. Dêem-lhe isso no dia 5 de Junho, e passarão a ter mais razões para o apreciar. 

 

Já nos mostraram tantas vezes os gráficos do dr. Medina Carreira e do prof. Álvaro Santos Pereira, que pouca gente haverá que não esteja convencida de que vamos ter de mudar de vida. A questão é outra: mudar como e com quem? A resposta, depois de quase dezasseis anos de governação socialista terem culminado no FMI, deveria ser óbvia. 

 

Mas não é. Na última semana, o país resolveu sentir uma vertigem: Sócrates parece demasiado 'forte', e Passos, demasiado 'falível'. Como explicar isto? 

 

Não vou negar qualidades a Sócrates. Mas interessa-me agora essa 'força', ao estilo da "Guerra das Estrelas", que traz tanta gente embasbacada. Já se perguntaram donde lhe vem? Sócrates só é forte porque nós somos fracos. A força de Sócrates é a do sistema que fez da sociedade portuguesa uma dependência do Estado, e do Estado uma dependência do Governo. Em Portugal, o primeiro-ministro, se não for completamente inábil, pode sempre contar com a massa dos que lhe devem empregos, negócios e subsídios para manter uma aura de vigor até à última hora. No caso de Sócrates, a força tem ainda outra fonte: a crise. Sim, a crise. A crise secou a vida política e permitiu ao Governo trespassar as 'responsabilidades' à oposição, que deixou de se poder mexer sem arriscar ficar com as culpas. Pior: a crise serve agora para desvalorizar a sua substituição, segundo o conceito, muito conveniente para o atual primeiro-ministro, de que já não faz diferença quem governa. A força de Sócrates, ao contrário da energia mística dos Jedi, não é um enigma. 

 

A suposta falibilidade de Passos também não é misteriosa: é a daqueles que, no sistema português, ainda são mortais, isto é, ainda não estão no governo. Há um ano que andamos à espera dos 'casos' que o deveriam diminuir, como sucedeu aos seus antecessores. 

 

Apareceram agora: um candidato e um telefonema. Desculpem, mas é pouco e vem tarde para quem suportou, no último ano, a vida mais difícil que um líder da oposição alguma vez teve neste regime. Com a sua curiosa mistura de cordialidade e de frieza, Passos nunca perdeu a calma. Quantos teriam aguentado melhor? Deveria ter feito a AD ou esclarecido mais cedo e com mais agressividade as suas propostas? Talvez. Mas era possível? E quantos, se tivesse ido por aí, lhe estariam agora a lamentar esses 'erros'? 

 

Na sociedade portuguesa, só conta o poder. Não somos capazes de respeito ou de crítica, mas apenas de medo ou de menosprezo — medo pelos que mandam e menosprezo pelos outros. É por isso que em Portugal são os lugares que fazem os políticos. Tal como a polícia, precisam da farda e da pistola para ter autoridade. O que impressiona tanta gente em Sócrates é que ele está no Governo. Tirem-lhe isso no dia 5 de junho, e terão menos que admirar. O que impede outra tanta gente de se espantar com Passos é que ele ainda não está no Governo. Deem-lhe isso no dia 5 de junho, e passarão a ter mais razões para o apreciar. 

 

Mais do que qualquer outra coisa, convinha-nos mudar esta atitude de sociedade pobre e primitiva. Mas o FMI não trata destes assuntos. 

 

Rui Ramos, no Expresso

Comentar:

Mais

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.