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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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«Luta na Lama»

Há muitos anos, numa campanha eleitoral que cobria como jornalista, percebi que há certas discussões em que só se perde.  

 

Um candidato de esquerda que tinha ido ao mercado do Bolhão viu-se, sem nada ter feito, envolvido numa cena de insultos da qual se retirou com a dignidade possível, sem entrar na querela. Mal ele virou costas, quem o insultava concluiu: "Olha, não tem argumentos!" 

 

Vem isto a propósito do rumo e estilo que a campanha em curso está a tomar. Qualquer proposta alternativa ou diferente da cartilha do PS é, para a direção socialista, um ataque e uma desgraça para a pátria. Como se apenas o PS — e mais ninguém, da esquerda à direita — tivesse ideias razoáveis. E isto apesar de se conhecer a razoabilidade com que este Governo conduziu o país até onde estamos. 

 

Esta tática da LUTA NA LAMA, em que todos saem mal, não é inocente. Resulta de um objetivo claro que sobressai do afinado marketing de Sócrates: tentar passar a ideia de que "são todos iguais". Esta ideia dilui a responsabilidade que o primeiro-ministro teve na atual situação, o que neste momento lhe é essencial. Se funcionar, é como se todos tivessem omitido a real situação do país; como se todos tivessem igual responsabilidade no estado a que chegámos; por isso se ouve que todos somos culpados, tornando o canalizador que foge ao IVA em tão responsável como o ministro que malbarata o erário público. 

 

Ao mesmo tempo, passa-se a ideia de que não pode haver políticas diferentes; que tudo vai ser decidido pelo FMI; que as eleições nem têm qualquer relevância, porque, afinal, não temos alternativa. 

 

É verdade que estamos na dolorosa hora de pagar o mal que fizeram ao nosso país. Mas é bom que sejam transparentes as razões do nosso sacrifício. Conhecemos as causas (e não vale a pena passar o resto da vida a falar delas). Porém, o que mais me importa, e o que penso mais interessar a cada eleitor, é a seguinte questão: quando, daqui a anos, findar o aperto, em que país estaremos? Num que não se desenvolve nem cresce? Num onde não há justiça nem lei? Num onde não há direitos sociais? Onde imperam boys em detrimento do mérito? Voltaremos ao passado? É nestes pontos cruciais que pode haver perspetivas diferentes: a quem vamos agora pedir sacrifícios? Como se irá conduzir o país para além desses sacrifícios? Por muito que se espalhe lama, nem todos são iguais. Ainda não está tudo louco... 

 

Henrique Monteiro, no Expresso.

 

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