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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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A tirania transcarpática

Há um fenómeno muito interessante (e perigoso) na comunicação social, a propagação de mitos.

Num filme de John Ford, o Homem que Matou Liberty Valance, há uma frase lapidar que resume o problema: um senador cuja carreira política se iniciou após ter morto um rufião chamado Liberty Valance conta a um jornalista, muitos anos depois, a verdadeira história do episódio. No final, o jornalista lamenta não poder publicar uma linha: "Isto é o Oeste. Quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda", diz.

 

Vem isto a propósito do post de Eduardo Pitta, O Ovo da Serpente, baseado numa notícia que não passa de um bom mito dos Cárpatos. Eduardo Pitta, fiel à melhor tradição, publica a lenda.

O eurodeputado József Szájer, representante do partido conservador húngaro Fidesz, apresentou de facto uma proposta para dar um voto adicional a mães de crianças. Isto surgiu no âmbito de uma discussão complicadíssima sobre a demografia e passou para a discussão (breve) sobre a nova Constituição húngara. No entanto, a proposta foi rejeitada e não consta do texto. A Constituição aprovada até clarificou a questão, tendo um artigo onde estipula que cada cidadão vale um voto. Ou seja, a ideia de Szájer passou a ser inconstitucional.

Este assunto inócuo é apresentado como uma perigosa iniciativa de um governo que pretende criar um regime totalitário no leste da Europa.

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O actual primeiro-ministro húngaro surge em artigos da alguma imprensa ocidental como um perigoso extremista. Foi assim com a lei de imprensa, que afinal era inspirada na portuguesa e que, mesmo assim, foi alterada a pedido da Comissão Europeia. Devido à barreira da impenetrável língua húngara, Budapeste agora traduz para inglês todos os documentos mais polémicos.

Em relação à nova Constituição, um dos aspectos mais criticados é o "horror" da primeira frase "Deus abençoe os húngaros", que não é mais do que o primeiro verso do belíssimo hino do país. Para um húngaro, o hino é tão importante, que nem os comunistas conseguiram tirar-lhe aquela primeira palavra. Sim, leram correctamente: o hino húngaro manteve a palavra Deus durante o comunismo.

 

Tal como acontece com alguns artigos publicados na imprensa, o post de Da Literatura tem erros factuais. Um deles, talvez o mais grave, é o de associar o Fidesz e o primeiro-ministro Viktor Órban a grupos de extrema-direita europeus. É uma associação absurda. No parlamento húngaro existe de facto um partido extremista, mas chama-se Jobbik (uma palavra inventada que associa as ideias de direita e de maior). Esta formação inenarrável não possui qualquer poder e a sua influência é nula.

O Fidesz é um partido conservador, muito nacionalista (a descrição populista não está errada), que conseguiu mais de dois terços do parlamento nas eleições de Abril de 2010, após oito anos de governação socialista catastrófica. Os paralelos com Portugal são interessantíssimos: o aumento da dívida levou a uma intervenção do FMI, após a recusa da Europa em ajudar; o primeiro-ministro socialista, Ferenc Gyurcsány, confessara antes ter mentido durante anos; o público sentiu-se enganado, pois a situação real do país era iludida; mas o pior era a corrupção desenfreada do MSZP, o controlo da comunicação que este partido exercia.

O governo tinha grandes apoios em Bruxelas, mas apenas devido à forma como tolerou o controlo estrangeiro da economia. A banca, por exemplo; mas também a indústria, pois houve sectores inteiros desmantelados para facilitar a emergência de monopólios franceses ou alemães.

 

A Constituição aprovada no domingo tem defeitos. A versão inglesa pode ser lida aqui. O texto é produto de uma história turbulenta, da ruptura com o passado, é produto de um partido largamente maioritário, que dispõe de poderes constitucionais. E sabemos como estas situações de domínio levam alguns a serem mais papistas do que o Papa. Órban é um político duro, mas não deixou de ser um democrata ligado à transição na Europa: há o famoso episódio do seu discurso durante as cerimónias de reabilitação de Imre Nagy, em 1989, um dos momentos iniciais da queda do Muro de Berlim.

Por outro lado, muita comunicação social da Europa, sobretudo da esquerda, persiste em repetir os mitos do Ovo da Serpente em relação ao fim do pós-comunismo que já se desenha na Polónia, República Checa, Hungria e Estónia. Eles não entendem o que se está a passar. Nestes países os socialistas ou social-democratas (na realidade, pós-comunistas) foram cilindrados nas urnas por um eleitorado farto de corruptos. Aliás, choca-me a maneira como todos estes partidos entraram na Internacional Socialista, continuando a ter o seu lugar no Partido Socialista Europeu.

 

Há pontos polémicos da nova Constituição húngara (a questão do casamento, que vai impossibilitar os casamentos homossexuais, ou da concepção da vida, que pode ter consequências na lei do aborto), mas a questão aqui é o facto do Fidesz ter maioria constitucional e as Constituições serem leis fundamentais dos Estados-membros, sobre as quais a UE não tem jurisdição. Têm de cumprir os critérios de Copenhaga, é tudo. A Hungria ocupa neste momento a presidência do Conselho Europeu, cuja rotatividade depende da letra inicial do país. Mudou o texto fundamental, tornando-o mais pequeno e simples. A discussão constitucional foi irrelevante e a maior polémica que existe actualmente na Hungria é sobre mais um programa de austeridade.

O défice está abaixo de 3%, há excedente na balança de pagamentos e a economia crescerá a 3,5% no próximo ano.

Mas, claro, é muito mais interessante contar uma bela história de fantasmas de 1939, dráculas transilvanos e tiranias transcarpáticas.  

2 comentários

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    Luís Naves 20.04.2011 19:17

    não houve milagre, interpretou mal. O programa do FMI obrigou a desvalorizar a moeda e a economia húngara ganhou competitividade, após três anos de austeridade brutal..
    E o post não era sobre a adesão de Portugal à UE, mas sobre a nova constituição húngara, pelo que não entendo a sua objecção...
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