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Albergue Espanhol

"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

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"-Já alguma vez estiveste apaixonado? - Não, fui barman toda a minha vida." My Darling Clementine, John Ford.

Um manifesto

Sou um simples eleitor. Votarei no PSD a 5 de Junho e serve este manifesto para explicar a razão de não me abster, como fiz muitas vezes no passado (demasiadas vezes).

 

Portugal vive hoje os dias do cansaço. Endividados e empobrecidos, os portugueses procuram a saída do labirinto, mas o sistema político parece falido, incapaz de mostrar um caminho sólido. A classe média está esmagada e não conheço ninguém que me diga que as coisas vão melhorar em breve.

A dívida pública, sem precedentes, equivale a um ano de produção de riqueza; o desemprego atingiu o máximo histórico, 11,1%; a economia não consegue crescer há dez anos; e vamos ser o único país da Europa em recessão este ano. Está tudo muito bem explicado aqui, num post de Álvaro Santos Pereira, em Desmitos; e o pior é que esta dívida vai crescer depressa nos próximos anos, como se pode ler neste outro post, de Nuno Gouveia, em 31 da Armada.

O país não atravessa apenas uma fase de descrença, mas parece impossível discutir questões essenciais. Cada vez que alguém tenta debater a verdadeira situação, lá aparece por milagre um fait divers qualquer que distraia o pagode, seja a futebolândia ou uma pirueta propagandísca.

Os eleitores devem avaliar a sua própria situação. Estão melhor do que há dois anos? E do que há seis anos? Eu estou pior. E você?

 

Portugal está a ser alvo da sua maior humilhação internacional nas últimas décadas. Julgo ser preciso recuar a 1890 para vermos algo de parecido. Somos membros de pleno direito da zona euro, cujas regras foram flexibilizadas. Mas alguns países já falam como se o euro não existisse e como se houvesse uma cláusula de expulsão da zona monetária. A relutância finlandesa, por exemplo, não se entende. A Finlândia não contribuiu para o Fundo Europeu de Estabilização Financeira? Portanto, ao retirar o dinheiro estaria a comprometer programas já aprovados (da Grécia e Irlanda). Pode vetar a utilização do FEEF para um terceiro país sem destruir a zona euro? E sendo a situação portuguesa menos grave do que a da Grécia, como é que isto se poderia justificar à luz dos tratados?

Não dá para perceber. Alguns comentadores falam no caso Islândia (não pagamos), esquecendo que a Islândia não está na UE nem no euro e que recorreu a um programa do FMI, algo que Portugal não pode fazer. O caso islandês é totalmente distinto, pois o que eles decidiram não pagar foram as dívidas contraídas no exterior por um banco online privado que faliu.

 

Por aqui, entretidos em jogos florais, os comentadores continuam a falar em governos de unidade e a criticar a insistência nas contas transparentes. Os técnicos europeus e do FMI que estão em Portugal começaram por analisar as contas públicas. É evidente: querem conhecer a situação real para depois apresentarem um programa que possa resolver os problemas reais. Mas quando a oposição pede acesso aos mesmos dados, os comentadores quase falam em traição à pátria. Ontem, na televisão, um deputado do PSD (leram bem, do PSD) criticava a direcção do seu partido por querer conhecer a realidade das contas públicas, fazendo depois uma analogia muito intelectual com círculos e quadradinhos e outras figuras geométricas.

Estas pessoas devem achar que os eleitores são estúpidos. O FMI pode saber a situação autêntica, mas a oposição não deve querer aproximar-se sequer da verdade, pois a verdade queima como no inferno de Dante. Não admira que tenham perdido em 2009, com estrategas destes...

O país viveu nos últimos anos num conto de fadas, no sonho de uma noite de Verão. 

 

Os europeus permitiram que a situação portuguesa fosse criada e pressionaram durante um ano o Governo português para este recorrer ao resgate externo. Portanto, sabiam. O primeiro-ministro José Sócrates foi afirmando diversas vezes, apesar das pressões, que não era necessário recorrer a ajuda. Ainda há duas semanas o dizia; e agora, de repente, nem há dinheiro para garantir os salários de funcionários públicos.

É revoltante. Sócrates sabia, Bruxelas sabia. Só nós, eleitores portugueses, é que não sabíamos.

Portugal de mão estendida, enganado pelo seu Governo, tem de ouvir dos "parceiros" frases do género "a gente ainda não decidiu se vos ajuda, tudo depende se os meninos aceitarem comer a sopa". As negociações não passam de simulações de conversas em que nos serão apresentados programas fechados. A nossa democracia, essa é olhada com profundo desprezo; um incómodo, eles quererem votar; um aborrecimento, a ideia da mudança. Democracia é para civilizados. E lá vem o coro dos comentadores: "Não se agite o barco".

 

Neste contexto de filme de terror, ao qual chegámos após anos de ilusões, Portugal confronta-se com a maior perda de soberania em mais de um século. Nos próximos anos, seremos um protectorado europeu tal e qual a Bósnia, um país humilde e de voz débil. A nossa economia será vendida em saldos e entretanto demasiados portugueses vão viver pior do que já vivem.

A mudança será imposta de fora, em vez de ser escolha nossa.

Por isso considero ser urgente votar numa mudança, para que seja possível Portugal ainda ter algum controlo sobre o seu destino. Os comentadores do costume falam em governos de unidade ou em governos presidenciais ou em governos tecnocráticos. Mas aquilo de que o país precisa é de uma maioria sólida que possa formar um governo de legislatura capaz de elaborar pactos de regime nos temas essenciais, pactos esses que possam durar dez anos. A Constituição tem de ser alterada e a sociedade portuguesa precisa de acordar para os desafios políticos que enfrenta: estancar a fuga de cérebros criando oportunidades de trabalho; resolver os bloqueios na educação e na justiça; reduzir a dimensão do Estado; criar condições que levem ao crescimento económico, para reduzir depressa o desemprego; o país tem de ser capaz de ajudar os mais pobres; é um lugar comum, mas os ricos têm de ajudar a pagar esta crise, cuja factura por enquanto está a ser paga apenas pela classe média. E a democracia tem de ser aprofundada, não tem de ser suspensa durante dois meses.

Para começarmos tudo isto, é preciso penalizar nas urnas os socialistas que desgovernaram este país nos últimos seis anos.

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