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Sexta-feira, 15 de Outubro de 2010
por Luís Menezes Leitão

A estratégia política do PSD nos últimos tempos tem revelado um enorme desnorte e conduziu o partido a uma situação que não tem paralelo na sua história recente. Deixe ou não deixe passar o Orçamento, neste momento o PSD perde sempre aos olhos dos portugueses, e comprometeu seriamente as suas hipóteses de chegar ao poder nos tempos mais próximos.

 

Conforme aqui escrevi em Maio passado, o maior erro que o PSD cometeu nos últimos tempos foi a viabilização do PEC II. Nessa altura, já era evidente o descontrolo das contas públicas, pelo que havia toda a justificação para derrubar o Governo e solicitar novas eleições, que o Presidente ainda poderia convocar. Passos Coelho tinha na altura sondagens altamente favoráveis, pelo que tinha todas as condições para fazer uma campanha eleitoral responsabilizando o Governo pela situação a que tinha deixado chegar o país. Não seria nada diferente do que fez Cavaco Silva em 1985, quando não hesitou em derrubar o Governo, mal assumiu a liderança do PSD. Em política, assumir riscos compensa. Audaces fortuna juvat. Se Passos Coelho o tivesse feito, seria hoje Primeiro-Ministro.

 

Passos Coelho preferiu, no entanto, optar pelo calculismo político e, apesar de um ridículo pedido de desculpas, aceitou dar a mão ao Governo, avalizando a sua política. Ora, ser transformado em muleta de um Governo é a pior coisa que pode acontecer a um partido da oposição. Será sempre responsabilizado depois pelo fracasso desse Governo, sem que venha a beneficiar minimamente se ele tiver sucesso. Pelo meio, o PSD resolveu entrar num debate esotérico sobre a revisão constitucional, que só serviu para dar uma imagem de distanciamento das preocupações reais do país, permitindo ao Governo escapar mais uma vez à sua responsabilidade pelo descontrolo das contas públicas.

 

Começando a perceber a armadilha em que tinha caído, Passos Coelho ensaiou então uma fuga para a frente no discurso do Pontal, pondo condições mínimas para viabilizar o orçamento, no intuito de começar a distanciar-se do Governo e livrar-se do qualificativo de "parceiro de tango", como lhe chamou Sócrates. O Governo, no entanto, percebeu a estratégia e não só não aceitou as suas condições, como prometeu que se demitiria se o orçamento fosse rejeitado. Teve, no entanto, a esperteza de esperar pela altura em que a Assembleia já não podia ser dissolvida e de fazer essa ameaça em Nova Iorque, o que naturalmente agravou ainda mais a imagem externa do país perante os credores. Como era evidente que a situação económica se agravaria consideravelmente com um Governo demitido em gestão durante oito meses, passou a ser Passos Coelho a ficar com o ónus de não deixar agravar ainda mais a situação do país.

 

Tendo sido manifestamente encurralado numa situação que não desejava, Passos Coelho deveria ter saído dela imediatamente, declarando se viabilizava ou não o orçamento. Foi, aliás, o que fizeram os outros partidos da oposição. Hesitou, no entanto, proferindo declarações contraditórias, e dando uma imagem de indecisão, que é fatal para um líder político. Em consequência, assistimos depois a uma patética série de apelos de notáveis, nacionais e estrangeiros, ao "sentido de responsabilidade" de Passos Coelho. Aí se incluiu um encontro com banqueiros na sede do PSD, o que constitui um erro político gravíssimo, pois transmite ao exterior a imagem de que o PSD é influenciável pelo poder económico.

 

Em resultado disto, faça o que fizer o PSD na votação do orçamento, será sempre o grande perdedor dessa votação. Se deixar passar o orçamento, será acusado de ter cedido aos apelos da plutocracia e de ser insensível perante as medidas altamente gravosas para os cidadãos que o orçamento contém, algumas das quais mesmo inconstitucionais. Se rejeitar o orçamento, será acusado de ter causado a bancarrota do país. Estamos como naquele célebre adágio brasileiro: "se fugir o bicho pega, se ficar o bicho come". Eu só me pergunto é como foi possível termos sido arrastados para esta situação.

 

 

 

1 comentário:
De Revoltado a 15 de Outubro de 2010 às 17:10
Desculpem lá, mas já não há pachorra.

Importam-se de avisar o Dr. Passos Coelho de que o PSD já viabilizou o orçamento!

A isto, se chama matar dois coelhos de uma cajadada. Um, com imposição de tudo o que queria (JS). Outro, o propiamente dito.



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