"O que venho aqui dizer-vos é que estou disponível para esse combate. Com todos vós e com todos os portugueses que estão connosco, com todos os que a seu tempo virão a estar, para mudar e para vencer, pela República e por Portugal". Foi com esta frase que Manuel Alegre anunciou esta noite a sua disponibilidade para ser o candidato da esquerda a Belém. De toda a esquerda. O que passa por ter o apoio claro e inequívoco do PS, do Bloco de Esquerda e do PCP, mais cedo ou mais tarde.
Mas é de registar que, desta vez, Manuel Alegre não diz preto no branco "eu sou candidato", nem recorre à máxima do "agarrem-me ou eu avanço". Alegre opta antes por um discurso cauteloso, muito cauteloso. Ao ponto de dizer que compreende que o seu partido tem outras prioridades imediatas: "Comprendo que para o PS seja o momento do Orçamento. Mas, como diria o meu amigo Jorge Sampaio, há mais vida para além do Orçamento. Queira-se ou não, a próxima eleição presidencial vai condicionar, ou melhor, já está a condicionar a vida política do país."
Manuel Alegre tem razão neste ponto. As presidenciais vão condicionar este ano de 2010. A análise que faz do actual estado do bloco de centro-direita também é lúcida. Daí que possa avançar num cenário de quase terra queimada à direita.
Sem uma liderança forte, o PSD não irá servir de grande ajuda à recandidatura de Aníbal Cavaco Silva. O CDS não é entusiasta do actual Presidente. Recorde-se ,aliás, que em 2006 o CDS era liderado por José Ribeiro e Castro e o PSD por Luís Marques Mendes. Hoje em dia PSD e CDS não são um suporte suficientemente forte para sustentar e alavancar a reeleição do Presidente. O CDS de Paulo Portas é anti-Cavaco, pelo que ver o actual líder democrata-cristão ao lado do Presidente em plena campanha é um cenário quase dantesco. Mais insólito ainda seria ver Santana Lopes e Paulo Portas a percorrer o País de lés-a-lés à busca de votos para Cavaco.
É no PSD e nos descontentes do PS com Alegre que terá que residir a força para Cavaco Silva ter um eleitorado à sua altura e que possa ser vencedor contra a união presidencial das esquerdas. Que eu saiba, não está escrito nas estrelas que um Presidente nunca perde uma reeleição. Já aconteceu lá fora, lembrem-se de Bush pai, Jimmy Carter ou de Giscard d'Estaing. E aprendam com os erros.