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Sexta-feira, 8 de Janeiro de 2010

 

 

Educação em Portugal é aquele belo átrio do edifício veiga-simoniano da 5 de Outubro, pejado de retratos "à la minute" das sumidades ministeriais que nele se assentaram, incluindo a actual líder do PSD, e entre as quais raras são as que viveram como professores de alma grande. Mas, ontem à noite, retomando-se o hábito dos homens e das mulheres sem sono, lá se fez, depois de muitos preâmbulos de barganha, um dito armistício, em nome do "bom e velho Estado" que nos protege contra os banqueiros, para parafrasearmos Sócrates em Paris, quando procurava "traduzir em calão" o conceito de Nação de presidente gaullista.

 

Por outras palavras, entre Maria de Lurdes e Isabel, entre Rodrigues e Alçada, apesar de haver o mesmo chanceler, em presidencialismo de Primeiro-Ministro, as políticas são exactamente outras, assim se manifestando como a pressão do activismo sindical, nomeadamente com cem mil na rua, tornou o movimento corporativo relativamente frutuoso e compreensível para uma professora em função ministerial. Por outras palavras, o fim voltou a ser o princípio e talvez o regresso à lenta recuperação do prestígio de uma classe, depois da luta. Sobretudo quando continua o confronto com a pesada burocracia, tecnocrática e construtivista, dominada por uma gerontocracia de avaliólogos e educacionólogos em circuito fechado, onde interessa mais um relatório à Roberto Carneiro, para gestionário ler as tabelas, do que o amor da aula, ou o diálogo directo com os alunos, as famílias e as comunidades onde eles se inserem.

 

Resta saber se há coragem para se retomarem as ideias das velhas, mas não antiquadas, repúblicas de professores de base, como o foram um Hernâni Cidade, um José Régio, um Sebastião da Gama, um Rómulo de Carvalho, ou um Vergílio Ferreira, quando os professores se assumiam como missionários de uma religião cívica, a da instrução popular ou a da educação nacional. Por outras palavras, só voltará a haver prestígio dos professores quando eles puderem retomar uma função política, comunitariamente consensualizada, não a de vendedores de ideologias de um qualquer livro único politicamente correcto, de acordo com o pensamento dominante, mas algo bem mais estrutural: a religião secular da pátria e da humanidade e a transmissão daquela invisível corrente de humanismo que nos permite a rebeldia e até a insolência, as dos homens e das mulheres livres, virtude básica de uma ética de democracia.

 

(Na imagem, o filósofo Alain, que pensava radicalmente, na sua aula de liceu...)

4 comentários:
De ANL a 8 de Janeiro de 2010 às 12:21
Gostava de ter escrito este post.


De jose-catarino a 8 de Janeiro de 2010 às 12:59
Muito bem. Como professor por vocação que sou desde 1976, subscrevo e faço minhas todas as afirmações do post.
Muito obrigado.


De Cromo a 8 de Janeiro de 2010 às 13:41
(O do Braga? Acho que se escreve Alan).


De António Lemos Soares a 8 de Janeiro de 2010 às 14:51

Eu ainda tenho perfeita noção do que se refere no texto.
Porque sou do interior de Portugal e porque - Graças a Deus! - a minha primeira e queridíssima Professora, passava ao lado dos programas pós-revolucionários da época (ensinava-nos muito mais coisas do que as que eram exigidas pelo ministério). Ensinava com um entusiasmo juvenil, com um brilho nos olhos e uma sapiência que nos marcou para sempre.
Era mesmo um espírito de missão o que se vivia na minha sala.



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